Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, e o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes usaram em seus contatos um esquema de comunicação que tinha como objetivo não deixar rastro de mensagens, mesmo em caso de acesso direto aos celulares de algum dos 2.
O método só não deu certo para esconder definitivamente o conteúdo dos chats porque o dono do Master cometeu alguns erros no processo de capturar imagens para enviar recados ao magistrado.
O sistema funcionava assim, segundo a Polícia Federal:
- como era o envio – era usado o sistema de visualização única do aplicativo WhatsApp. Fotos, vídeos ou áudios enviados nessa função desaparecem assim que o destinatário vê o recado;
- o erro de Vorcaro – Vorcaro, em vez de escrever ou gravar o áudio no próprio app, preferia redigir a mensagem no bloco de notas do celular, fazia uma captura da imagem da tela e enviava. Moraes lia e a mensagem desaparecia. Só que as imagens do bloco de notas ficaram todas gravadas no iPhone do fundador do Master;
- sem respostas de Moraes – como o celular apreendido foi o de Vorcaro, não foi possível checar se Moraes cometia o mesmo erro do então banqueiro nem o teor das mensagens enviadas pelo ministro.
A PF diz ter usado o software próprio Iped (Indexador e Processador de Evidências Digitais) para organizar os dados do celular apreendido de Vorcaro em novembro de 2025, que é um iPhone 17 Pro. A partir dessa compilação, foi possível cruzar informações para se chegar ao padrão de troca de mensagens do banqueiro com Moraes.
As informações constam em relatório sobre o caso que foi tornado público nesta 3ª feira (1º.set.2026) pelo ministro do STF André Mendonça. Eis a íntegra (PDF – 5 MB).

“A análise cronológica demonstra que o usuário do aparelho celular apreendido adotou, em diversas ocasiões, os seguintes passos em rápida sucessão: a abertura do aplicativo Bloco de Notas, modificação do arquivo de Notas, realização da captura de tela e concomitante (mesmo segundo ou um segundo depois) geração do arquivo PDF de idêntico teor na pasta temporária, fechamento do Bloco de Notas, abertura do aplicativo WhatsApp, envio de mensagem e, por fim, fechamento do WhatsApp”, diz o relatório.

Antes de compilar os dados do celular de Vorcaro com o Iped, foi usado o software israelense Cellebrite para “quebrar” a senha do iPhone de Vorcaro e ter acesso completo ao conteúdo do aparelho da Apple.
Além das capturas de tela, a Polícia Federal encontrou arquivos em formato PDF com os “mesmos textos dos blocos de notas capturados”. A corporação diz que esses arquivos não foram criados “deliberadamente pelo usuário”, mas sim salvos automaticamente pelo iPhone em uma área inacessível ao usuário comum.
O Poder360 procurou o ministro Alexandre de Moraes, do STF, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e a defesa de Daniel Vorcaro para comentar as mensagens e o relatório da Polícia Federal. Não houve resposta até a publicação desta reportagem. O texto será atualizado caso uma manifestação seja enviada a este jornal digital.
RELATÓRIO DA PF
As informações constam de um relatório de 218 páginas produzido pela PF (Polícia Federal) a partir da análise do celular de Daniel Vorcaro, apreendido durante a operação Compliance Zero. O documento reúne mensagens, registros de chamadas, arquivos, contratos e outros dados encontrados no aparelho do fundador do Banco Master.
A Compliance Zero foi deflagrada pela PF em novembro de 2025 para investigar suspeitas de fraudes envolvendo a venda de carteiras de crédito do Banco Master ao BRB (Banco de Brasília). Vorcaro foi preso na 1ª fase da operação, em 18 de novembro de 2025.
O relatório foi elaborado a pedido do ministro André Mendonça, do STF, para identificar integrantes de uma possível rede de influência e monitoramento atribuída a Vorcaro. A PF entregou o documento em 27 de agosto de 2026.
Parte das mensagens analisadas foi enviada pelo recurso de visualização única do WhatsApp. Por isso, em diversos diálogos reproduzidos no relatório, é possível identificar mensagens enviadas por Vorcaro, mas não conhecer o conteúdo das respostas do interlocutor. No caso das conversas com o contato identificado como “Alexandre de Moraes BRASILIA”, isso impede reconstruir integralmente parte dos diálogos.
A própria PF afirma que a análise “não possui caráter exaustivo”, porque foi realizada no prazo de 72 horas determinado para atender à requisição judicial. Segundo a corporação, podem existir outras citações ou referências indiretas ainda não identificadas pela equipe policial.
O conteúdo veio a público nesta 3ª feira (1º.set.2026), depois que Mendonça derrubou o sigilo da ação. Leia aqui todos os documentos.
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