Mensagens atribuídas pela PF (Polícia Federal) ao banqueiro Daniel Vorcaro mostram que o ex-dono do Banco Master procurou o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes para tratar do avanço das investigações sobre a instituição.
Nos diálogos, Vorcaro perguntou sobre possíveis medidas contra ele, quis saber se seria possível “bloquear” ou adiar ações da PF e pediu a Moraes que tratasse do caso com o diretor-geral da corporação, Andrei Rodrigues, e com o procurador-geral da República, Paulo Gonet.
As mensagens também mostram que o banqueiro perguntou se deveria deixar o Brasil, 2 dias antes de ser preso, e pediu que Moraes tentasse sensibilizar Andrei a adiar uma eventual ação da PF. A conversa foi revelada pelos jornalistas Felipe de Paula, Fausto Macedo e Aguirre Talento, do jornal O Estado de S. Paulo, nesta 3ª feira (1º.set.2026).
O material recuperado não permite reconstruir integralmente as conversas. Segundo o Estadão, Vorcaro escrevia textos no aplicativo de notas, fazia capturas de tela e as enviava a Moraes em modo de visualização única. Por causa desse método, a extração do celular recuperou mensagens enviadas pelo banqueiro, mas não necessariamente as respostas do ministro.
O conteúdo veio a público depois que o ministro André Mendonça, relator do caso no STF, derrubou nesta 3ª feira (1º.set.2026) o sigilo da ação que reúne as mensagens trocadas entre Vorcaro e Moraes.
Entre as mensagens recuperadas está uma de 15 de novembro de 2025, quando Vorcaro perguntou a Moraes: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”. Dois dias depois, o banqueiro foi preso pela PF no Aeroporto Internacional de São Paulo, quando se preparava para embarcar em um jato particular. O destino inicial era Malta e, posteriormente, Dubai, nos Emirados Árabes Unidos.
Na véspera da prisão, Vorcaro também perguntou: “Você acha que existe alguma chance disso acontecer amanhã de manhã?”. Naquele momento, a ordem de prisão preventiva ainda não havia sido assinada pelo juiz Ricardo Augusto Soares Leite, da 10ª Vara Federal do Distrito Federal. A decisão foi assinada às 15h29 de 17 de novembro, horas antes da prisão.
PEDIDOS A MORAES
As conversas divulgadas mostram que Vorcaro fez sucessivas perguntas a Moraes sobre possíveis medidas relacionadas à investigação.
Em 30 de outubro, o banqueiro disse ter recebido informações de pessoas de dentro do Banco Central sobre uma possível medida contra ele. Segundo Vorcaro, a PF e o Ministério Público pressionavam o BC e alegavam que fariam algo contra ele.
Na ocasião, Vorcaro pediu a Moraes que tratasse do assunto com o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e com o procurador-geral da República, Paulo Gonet.
“É importante reforçar com Andrei e Paulo pra não deixar ninguém de baixo fazer uma sacanagem que aí vai tudo pro saco. Estou disponível pra tratar e explicar qualquer coisa, só não pode ter sacanagem”, escreveu.
Vorcaro também enviou a Moraes os nomes de 4 delegados e 3 procuradores envolvidos nas apurações preliminares. Cerca de meia hora depois, disse que as informações haviam sido repassadas por amigos que trabalhavam no Banco Central e teriam participado de reuniões sobre o caso.
“De pessoas de dentro do bacen que são meus amigos e ficaram preocupados. Eles participaram das reuniões, por isso info 100%. Eu só não posso queima los, pq tinham poucas pessoas, e saberão que eles me falaram, se isso chegar no G”, afirmou, em provável referência a Gabriel Galípolo.
As 2 mensagens foram apagadas poucos minutos depois e recuperadas pela PF durante a extração do celular, segundo o material divulgado.
“TUDO DE IMPORTANTE FICA NO SEU COLO”
Ainda em 30 de outubro, Vorcaro enviou uma mensagem elogiosa a Moraes.
“Tudo de importante no final fica no seu colo! Impressionante! Mas seu legado pro Brasil será eterno. Tenho muito orgulho e tenho certeza que cada vez mais se consolidará como a pessoa mais importante do país. Então todo sacrifício pessoal no final valerá a pena!”, escreveu.
Na sequência, Vorcaro afirmou acreditar que poderia sair fortalecido da situação e voltou a falar na necessidade de impedir medidas contra ele: “Do meu lado, estou vendo chance real de sair ainda mais forte, e poder contribuir tb inclusive c Brasil. Temos só que bloquear essas sacanagem pq é muita gente querendo que não dê certo”.
Em 15 de novembro, depois de receber uma mensagem do ministro, cujo conteúdo não foi recuperado, o banqueiro respondeu: “Que loucura, bem na semana que estou resolvendo tudo”.
Na mesma sequência, Vorcaro perguntou se seria possível conter o avanço da investigação por meio de Gonet ou Andrei: “Não conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei? Muita sacanagem isso”.
Naquele período, Vorcaro negociava a venda do Banco Master para um consórcio formado pela Fictor Holding Financeira e investidores dos Emirados Árabes Unidos. A operação não avançou depois da prisão do banqueiro e da liquidação do Master pelo Banco Central em 18 de novembro.
Na mesma conversa, Vorcaro perguntou: “Aquele mesmo juiz Ricardo? E o (Gabriel) Galípolo (presidente do Banco Central) tá sabendo? Conseguimos fazer algo?”
No dia seguinte, a menos de 24 horas da prisão, Vorcaro voltou a perguntar sobre uma possível atuação de Andrei: “Ele tá sabendo das soluções? E quer antecipar pra não deixar acontecer? Qual sua leitura? O que tá havendo? E com Andrei dá pra segurar?”
Às 16h57 de 16 de novembro, o banqueiro pediu a Moraes que tentasse sensibilizar Andrei a adiar as medidas: “Se o Andrei conseguir atrasar pra outra semana, pois tem feriado, o banco não quebra. Tenta chamar ele e sensibilizar isso se achar possível”.
Já no dia da prisão, às 17h26, perguntou a Moraes se havia “alguma novidade” e acrescentou: “Conseguiu ter notícia ou bloquear?”
“BUSCA OU QUEBRA DE SIGILO?”
As conversas sobre a investigação remontam a pelo menos 4 de novembro de 2025. Naquele dia, Vorcaro perguntou ao ministro: “médio a grave seria busca ou quebra de sigilo?”
Em seguida, insistiu: “Mas pedido deferido por parte deles? Algo que dê pra bloquear?”
Segundo investigadores e peritos ouvidos pelo Estadão, as mensagens podem indicar que o banqueiro havia recebido informações sobre possíveis medidas cautelares. Vorcaro também escreveu: “Só vai saber qdo ele chamar né”.
No mesmo período, Vorcaro disse que seu advogado Pierpaolo Cruz Bottini pretendia apresentar uma petição para colocar os envolvidos à disposição das autoridades e tentar descobrir se havia inquéritos em andamento. O banqueiro perguntou a Moraes se considerava a iniciativa adequada.
“O Pierpaolo tava querendo fazer uma petição nos órgãos pra nos colocar à disposição e pra ter conhecimento se existem inquéritos. Acha que vale a pena? Não vou fazer nenhum movimento que você não achar produtivo”, escreveu.
Vorcaro afirmou ainda que estava “no escuro” e que Gonet havia dito que acompanhava pessoalmente o caso: “O Paulo só disse que tava olhando pessoalmente e que não teria sacanagem. Mas ontem ligou o alerta vermelho né? Uma ação desmedida coloca em risco milhões de clientes”.
Outros diálogos encontrados no celular de Vorcaro e publicados pelo Estadão mostram que Walfrido Warde, advogado do banqueiro à época, manteve contato telefônico com o juiz horas antes da prisão. “Estamos infernizando o cara”, disse Warde a Vorcaro.
Ainda naquele dia, o banqueiro disse que uma eventual medida contra ele poderia comprometer seus negócios: “conseguem medida contra agora, vai tudo por água abaixo”. Depois afirmou: “Essa minha maior preocupação”.
Às 19h09, escreveu: “Vou ficar acordado então aqui pra te aguardar.”
Cerca de 1 hora e meia depois, Vorcaro voltou a procurar Moraes:
“Pelo amor de Deus, veja se você consegue bloquear toda maldade. Como eu disse não temos nada, nem o Banco Central abriu sequer um processo administrativo, e eles me auditam todos os dias. Estou pronto pra ir em qualquer um explicar qualquer coisa, mas uma medida drástica agora literalmente quebra o banco de modo irreversível. Se puder me deixe uma mensagem após falar com ele”, escreveu.
Depois acrescentou: “Se fosse possível saber o que é, entramos imediatamente”.
“CONSEGUIU BLOQUEAR A MALDADE?”
Em 6 de novembro, Vorcaro enviou uma série de perguntas a Moraes: “Como estamos aí? Conseguiu bloquear a maldade? Isso é Brasília? Sabe o tema? Está seguro ou tem que entrar agora urgente?”
O banqueiro também mencionou uma iniciativa de seu então advogado, o criminalista Pierpaolo Cruz Bottini, para tentar levar o caso a determinada vara.
“Ele disse que teria que justificar pq estaria pedindo tá. Eu falei pra fazer de toda forma”, escreveu.
Depois, acrescentou: “O Píer acha que se entrar do nada pode acelerar algo, sem justificativa. Ele fez pedido macro, e acredita que vão jogar pra essa vara. O que acha?”
Bottini foi procurado pelo Estadão e não se manifestou.
Em 7 de novembro, Vorcaro afirmou não ter “qualquer preocupação para tratar da parte técnica” da investigação. Disse, porém, que o “problema de tudo só é se sair algo mesmo”. Também escreveu: “Amanhã vamos ver se conseguimos puxar do lado de cá”.
DIA DA PRISÃO
Na manhã de 17 de novembro, Vorcaro informou a Moraes que “estava tentando antecipar investidores” para concluir parte da negociação envolvendo o Banco Master.
Também disse ter recebido informações de que o caso poderia estar vazando:
“De outro lado, acho que o tema que falamos começou a dar uma vazada, obviamente sem qualquer detalhes. Mas a turma do brb me disse que tá tendo um movimento de sacanagem do caso. E que a mesma jornalista de antes estava fazendo perguntas lá. Se vazar algo será péssimo mas pode ser um gancho pra entrar no circuito do processo.”
A menos de 24 horas de ser preso, escreveu: “Se tiver alguma novidade vamos falar”.
MENSAGENS DE VISUALIZAÇÃO ÚNICA
O material obtido pelos investigadores não permite reconstruir integralmente os diálogos entre Vorcaro e Moraes.
Segundo o Estadão, os 2 utilizavam mensagens em modo de visualização única. Vorcaro fazia capturas de textos escritos no aplicativo de notas e as enviava ao ministro. Por causa desse método, a extração do celular recuperou mensagens enviadas pelo banqueiro, mas não necessariamente as respostas de Moraes.
A investigação sobre o Banco Master tramitava inicialmente na 1ª Instância e foi enviada ao STF em dezembro de 2025 por determinação do ministro Dias Toffoli, depois da identificação de transações imobiliárias envolvendo Vorcaro e o deputado João Carlos Bacelar (PL-BA), que tem foro privilegiado. Posteriormente, Toffoli deixou a relatoria, assumida pelo ministro André Mendonça.
Vorcaro voltou a ser preso em 4 de março de 2026. Antes disso, havia sido solto em 29 de novembro de 2025 por decisão da Justiça Federal.
O Poder360 procurou Alexandre de Moraes e a defesa de Daniel Vorcaro para comentar as mensagens. O espaço permanece aberto para manifestação.
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