O ministro da Secom (Secretaria de Comunicação Social), Sidônio Palmeira, chegou a ser considerado fora do 1º escalão do governo antes do início da campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A saída, no entanto, não se confirmou. O presidente quer ele na pasta, mesmo com o ministro cada vez mais envolvido na estrutura da campanha à reeleição.
Enquanto ocupa a Secom, Sidônio também virou presença fixa no QG petista montado no Lago Sul, em Brasília. Lá a campanha grava material para abastecer as redes sociais e, a partir de 28 de agosto, o horário eleitoral gratuito.
Ele não só participa das gravações, como também opina sobre a estratégia da campanha e ajuda a definir o que Lula deve falar. Foi o que aconteceu no vídeo mais recente, em que o presidente defendeu o fim da “taxa das blusinhas” como uma questão de justiça. Sidônio também replicou o vídeo nas próprias redes sociais.
O Poder360 consultou os registros oficiais de compromissos do ministro e verificou que, em pelo menos 2 dias de gravação, a agenda pública dele como ministro não informava onde ele estava.
Sidônio divulga poucas vezes a agenda do dia. De 4 a 18 de agosto, a agenda pública do ministro soma só 7 compromissos. Quase todos são reuniões de uma hora ou menos. Nos dias 13 e 14, quando Lula passou o dia gravando vídeos no QG, a agenda de Sidônio não divulgou a atividade. O trabalho continuou no dia seguinte e resultou em inserções de até 30 segundos nos vídeos eleitorais do PT.
Parte das pautas que Lula passou a defender com mais ênfase também tem apelo eleitoral, como o fim da escala 6 X 1. A presença de Sidônio na campanha ajuda a azeitar a comunicação do governo às mensagens que serão exploradas pelo petista na disputa pela reeleição.

Sidônio foi o responsável pelo marketing da campanha vitoriosa de Lula em 2022 e se tornou um dos principais conselheiros políticos do presidente desde o início do 3º mandato, em 2023.
Embora tenha um perfil discreto e objetivo, ele ganhou espaço no núcleo político do governo pela capacidade de leitura de cenário e estratégia. E a relação de confiança construída com Lula ampliou sua influência. O publicitário passou a ser ouvido pelo presidente em decisões que envolvem não só a comunicação. A defesa do fim da “taxa das blusinhas”, por exemplo, tem o dedo de Sidônio.
Ainda é pouco afeito à exposição pública: desde que entrou a Secom, concedeu apenas uma entrevista aos jornalistas que cobrem o Palácio do Planalto.
O baiano assumiu a secretaria em janeiro de 2025, no lugar de Paulo Pimenta. No cargo, coordena a estratégia de comunicação do governo federal e a interlocução da Esplanada dos Ministérios com a imprensa.
“Hora de despachar”
Consultada, a advogada trabalhista Marilda Silveira afirma que a lacuna na agenda não representa, por si só, uma irregularidade. A legislação eleitoral não proíbe servidores públicos de fazer campanha. A restrição recai sobre fazer isso em horário de expediente ou usar a máquina pública para favorecer uma candidatura.
Na prática, a única coisa vedada é usar a função pública dentro do próprio ato oficial. Fazer campanha durante uma reunião de governo, por exemplo.
O problema é que, em cargos políticos como o de ministro, essas duas situações não têm um limite fixo. Quem ocupa uma pasta comissionada não tem horário de trabalho fixo. Não existe um ponto de corte formal entre “hora de despachar” e “hora de campanha”.
Por não ser candidato, Sidônio também não precisa se afastar do cargo. Essa exigência vale só para quem disputa uma eleição.
Fora isso, para Silveira, o fato de a agenda não detalhar tudo o que o ministro faz no dia a dia expõe menos uma falha dele e mais uma brecha da regulação. No Brasil, não existe uma norma que obrigue autoridades a publicar o roteiro completo da própria rotina.
Marco Aurélio Carvalho, advogado do Prerrogativas e coordenador da campanha petista em São Paulo, chega a uma conclusão parecida, mas por outro caminho. Para ele, Sidônio cumpre o expediente nos horários convencionais no Palácio e eventuais contribuições à campanha fora desse período não geram problema. “Se ele foi de forma episódica e pontual fazer uma reunião, isso só revela o cuidado que ele teve ao não usar as dependências do Palácio”, diz.
Carvalho lembra ainda que um ministro não cumpre jornada de 8 horas e que o tempo usado para a campanha tende a ser compensado depois, dentro do próprio expediente político do cargo.
Questionado se via Sidônio testando os limites do que é permitido, Carvalho descreveu o ministro como alguém de “ciência plena”. Atribuiu os buracos na agenda a questões internas.
A missão tem prazo
Há no governo a percepção de que Sidônio pode deixar a Secom ao fim deste mandato. Parte da equipe já trata dezembro como o fim da “missão” dada a cada um na pasta.
Sidônio chegou à Secom em um momento de desgaste. Pimenta foi alvo de críticas de integrantes do governo e do próprio Lula pela dificuldade em fazer a comunicação do Palácio chegar à população.
A missão de Sidônio era melhorar a percepção da população sobre o governo e, consequentemente, recuperar a popularidade de Lula. Entre suas primeiras propostas estavam aproximar o presidente da imprensa e ampliar a presença de integrantes do governo nas redes sociais.
No ano passado, Sidônio passou a associar a comunicação do Planalto a temas como soberania nacional, em uma estratégia que ganhou força durante o tarifaço imposto pelos Estados Unidos. A aposta ajudou o governo a explorar o desgaste com Washington e coincidiu com uma melhora nos índices de aprovação de Lula.
Também foi Sidônio quem trabalhou no novo slogan do governo, apresentado em agosto de 2025:

Apesar da “dobradinha”, a orientação no núcleo da campanha é manter funções bem delimitadas, inclusive para eventuais cobranças e mudanças na equipe.
A campanha de Lula em 2026 é tocada por pessoas que passaram ou ainda estão na Secom.
Peça central desse arranjo é o marqueteiro Raul Rabelo, que construiu carreira ao lado de Sidônio na agência baiana Leiaute antes de se tornar sócio dele. Hoje, ele comanda a operação de comunicação da campanha a partir da casa alugada no Lago Sul.
Foi Sidônio quem articulou a entrada de Rabelo à frente da pré-campanha, justamente no período em que havia dúvida sobre a permanência do próprio ministro no governo. Chico Kertész, dono da produtora Macaco Gordo e sócio do ministro na agência Nordx —antiga M4 Comunicação e Propaganda—, também está no time.
Outro nome de confiança de Sidônio que migrou para a campanha foi Tiago César —seu ex-braço direito na Secom. Ele deixou em julho o posto de secretário-executivo de Comunicação do Planalto para fazer dupla com Rabelo.
Junto de Sidônio, Tiago participou da mudança do slogan do governo e ajudou a criar os ritos patrióticos que passaram a integrar a estratégia de comunicação do Planalto. A gestão Lula adotou “soberania” como um dos pilares da comunicação em resposta às tarifas impostas pelo presidente dos EUA, Donald Trump (Partido Republicano).
OUTRO LADO
Procurada pelo Poder360, a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República afirmou que Sidônio, “na condição de agente político”, não está sujeito a uma jornada de trabalho fixa. Segundo a Secom, as atividades privadas do ministro são realizadas por iniciativa pessoal, fora do exercício das atribuições do cargo.
Sobre a ausência das gravações na agenda oficial, a Secom afirmou que a legislação determina a publicação diária dos compromissos públicos dos ministros e que atividades de natureza pessoal não integram o registro do e-Agendas. “A sua ausência na agenda não é omissão, mas cumprimento do critério normativo”, declarou a secretaria.
A pasta não informou se o ministro esteve no Palácio do Planalto ou em alguma unidade da Secom nos períodos em que participou das atividades no QG, nem se houve deslocamento entre os locais. Não respondeu ainda se Sidônio mantém reuniões com integrantes da equipe de comunicação da campanha, se utiliza recursos ou servidores da Secom nessas atividades ou qual procedimento é adotado para separar suas funções de ministro da atuação eleitoral.
A pasta também não explicou se as atividades realizadas por Sidônio no QG da campanha são consideradas atividades pessoais ou privadas nem respondeu se houve outros compromissos oficiais do ministro nesses dias que não foram registrados na agenda pública.

