O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou neste domingo (2.ago.2026) que criou o Foro de São Paulo na década de 1990 para que os partidos de esquerda na América Latina fossem convencidos a conviver na adversidade e respeitar o sistema democrático, a partir da experiência do próprio PT.
A declaração foi feita durante a Convenção Nacional do PT que confirmou a candidatura de Lula à reeleição. O Foro de São Paulo é hoje composto por mais de uma centena de movimentos e partidos de 27 países.
Lula afirmou que a “essência do PT” é ser um partido que “ensinou a esquerda a viver democraticamente na adversidade”.
“A esquerda não se conversava. Quando criei o Foro de São Paulo em 1990, era porque eu tinha ido para o segundo turno com o [Fernando] Collor [nas eleições de 1989] e achei que a gente poderia educar a esquerda da América Latina através das eleições”, afirmou Lula.
O presidente disse ter chamado com esse objetivo representantes dos partidos e movimentos de esquerda latino-americanos para uma reunião no hotel Danúbio, em São Paulo, em junho de 1990. “Para tentar dizer para toda a esquerda que a melhor via para a gente chegar ao poder não era a da luta armada. Era a da organização do povo, e da eleição direta e a gente participar do processo eleitoral”, afirmou.
“E assim nós ganhamos vários países da América Latina. Ganhamos o Chile, ganhamos o Equador, ganhamos a Venezuela, ganhamos o Uruguai. A Argentina, o Brasil. Pela democracia, disputando o voto. Sem matar ninguém e sem morrer ninguém.”
Objetivo incompleto
Apesar da intenção declarada de Lula para a criação do Foro de São Paulo, alguns países da América Latina nunca adotaram a democracia ou viveram sob regimes autoritários ou processos de erosão democrática sob o comando da esquerda.
Eis alguns exemplos:
- Cuba – desde 1959, quando houve uma revolução liderada por Fidel Castro, é um Estado socialista de partido único, com forte repressão a dissidentes e à imprensa livre.
- Nicarágua – após o retorno de Daniel Ortega, ex-líder da Revolução Sandinista, ao poder em 2007, por meio de eleições livres, o país passou por um processo de concentração autoritária de poder, com repressão a opositores e jornalistas.
- Venezuela – Hugo Chávez chegou ao cargo de presidente por meio de eleições livres em 1999. Seu governo adotou medidas que enfraqueceram instituições independentes e concentraram poder na figura do presidente, que em 2009 passou a ter o direito de se reeleger indefinidamente. Com a morte de Chávez em 2013, Nicolás Maduro assumiu o poder e deu prosseguimento a medidas de cunho autoritário. Sua reeleição em 2018 envolveu exclusão de candidatos da oposição e foi questionada por observadores internacionais. Em janeiro de 2026, Maduro foi capturado pelos EUA em uma operação militar em Caracas.
- Bolívia – Evo Moraes foi eleito em dezembro de 2005 pela via direta e reeleito em 2009 e em 2014. Em 2019, chegou a ser declarado vencedor de sua quarta disputa presidencial, mas o pleito foi anulado após denúncias de irregularidades. A Organização dos Estados Americanos concluiu que o pleito teve “graves irregularidades” e “manipulação dolosa”.
Foro de São Paulo
O Foro de São Paulo foi fundado em 1990 por Lula e pelo ex-presidente de Cuba Fidel Castro no contexto da queda do Muro de Berlim e da reorganização geopolítica mundial com o início do enfraquecimento do comunismo na Europa.

O grupo tinha como objetivo traçar caminhos para a esquerda na América Latine e Caribe. Mantém ainda o discurso contra o neoliberalismo e os efeitos do capitalismo.
A 1ª reunião que deu origem ao foro foi realizada na cidade de São Paulo e reuniu 48 partidos e organizações da região. Na época, foi divulgada a Declaração de São Paulo.


