O Congresso do Paraguai, políticos e um apresentador de TV reagiram com indignação às declarações recentes do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre a Guerra do Paraguai. Deputados e senadores do país vizinho publicaram nota de repúdio depois do brasileiro afirmar, na 6ª feira (24.jul.2026), que o Paraguai “invadiu” o Brasil.
Eis o que disse Lula: “Qualquer dia um ou outro resolve invadir o Brasil […] O Paraguai um dia invadiu o Brasil, a Argentina e o Uruguai. Para fazer coisa boa, o cara tem que pensar, mas para fazer loucura, o cara não precisa pensar”.
O tema é especialmente sensível no Paraguai. Travada de 1864 a 1870, a Guerra do Paraguai —chamada pelos paraguaios de Guerra da Tríplice Aliança— foi o maior conflito armado da história da América do Sul. Colocou o Paraguai contra a aliança formada por Brasil, Argentina e Uruguai.
As causas do conflito são objeto de diferentes interpretações historiográficas. Envolvem disputas territoriais e pela influência política na Bacia do Prata, além da intervenção brasileira na guerra civil do Uruguai. Depois de apreender o navio brasileiro Marquês de Olinda, o governo de Francisco Solano López ordenou a invasão da então província de Mato Grosso. Posteriormente, tropas paraguaias também entraram em território argentino.
A guerra devastou o Paraguai, destruiu parte de sua infraestrutura e provocou uma forte redução populacional. As estimativas variam por causa da precariedade dos registros demográficos da época, mas há estudos que calculam que de 60% a 70% dos paraguaios tenham morrido em decorrência dos combates, da fome e de doenças.
Em seu perfil no X, o vice-presidente do Paraguai, Pedro Alliana, manifestou-se sobre o episódio. Declarou que a guerra deixou o país em ruínas e chamou o conflito de “capítulo vergonhoso pactuado a partir de um tratado funesto”. Afirmou que a devolução por parte do Brasil de arquivos e relíquias históricas paraguaias seria um gesto para ajudar a reparar o passado.
A Câmara dos Deputados paraguaia emitiu uma declaração, nesta 4ª feira (29.jul.2026), em que repudia formalmente as falas do presidente brasileiro. O documento também exorta o Poder Executivo paraguaio a abrir gestões diplomáticas para a restituição de troféus de guerra considerados pertencentes ao patrimônio histórico do país.
O presidente da Câmara do Paraguai, Raúl Latorre (Partido Colorado), afirmou, em post no Facebook no sábado (25.jul), que Lula falou “com demasiada leveza sobre a maior tragédia da nossa história, o maior genocídio do nosso continente”.

O senador e presidente do Congresso, Basilio Nuñez, publicou comunicado no qual afirmou que a fala de Lula provocou uma “profunda reação” no país por tratar de um episódio que faz parte da memória e da identidade nacional dos paraguaios. Disse ainda esperar que, ao abordar o tema, Lula o faça “com o respeito e a sensibilidade que merece uma tragédia que marcou para sempre a história do Paraguai”.
Nuñez também declarou que a manifestação não é dirigida contra “nenhum povo irmão” nem pretende reabrir feridas do passado. Segundo o senador, preservar a memória da guerra é uma forma de defender a soberania paraguaia e a identidade nacional. Apesar das críticas, afirmou que as relações entre Paraguai e Brasil “devem continuar se fortalecendo sobre a base do respeito mútuo, o diálogo franco e o reconhecimento responsável da história que compartilhamos”.
Eis a íntegra do comunicado, em português:
“As recentes declarações do presidente da República Federativa do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, sobre a Guerra da Tríplice Aliança geraram uma profunda reação no Paraguai. Não se trata de uma indignação circunstancial nem de uma divergência política do presente, mas de uma memória que atravessa gerações e constitui parte essencial da identidade da nossa Nação.
“Os paraguaios conhecem profundamente o que aquela guerra significou e o enorme custo humano, político e social que representou para o nosso país. Por isso, quando esse episódio é mencionado pela mais alta autoridade de um Estado irmão, esperamos que seja tratado com o respeito e a sensibilidade que uma tragédia que marcou para sempre a história do Paraguai merece.
“Defender a soberania nacional não significa apenas proteger nosso território e nossas instituições. Significa também preservar a memória daqueles que, com enormes sacrifícios, tornaram possível a continuidade da República em um dos momentos mais difíceis da nossa história. Preservar essa memória é preservar uma parte essencial da nossa identidade como Nação.
“Como presidente do Congresso Nacional, reafirmo o compromisso deste Poder do Estado com a defesa da nossa memória histórica, patrimônio permanente de todos os paraguaios e expressão irrenunciável da nossa soberania. Esta posição não é dirigida contra nenhum povo irmão nem pretende reabrir feridas do passado. Pelo contrário, as relações entre o Paraguai e o Brasil devem continuar se fortalecendo com base no respeito mútuo, no diálogo franco e no reconhecimento responsável da história que compartilhamos.
“Justamente porque valorizamos essa relação entre nossos países, sustentamos que a memória de cada Nação merece ser tratada com responsabilidade e respeito. O Paraguai olha para o futuro com vocação para a integração e a cooperação, mas o faz sem renunciar ao respeito por sua história, por seus heróis e pelos sacrifícios sobre os quais se sustentou a nossa República.
“Nossa responsabilidade como dirigentes públicos vai além de qualquer polêmica circunstancial. Consiste em preservar e fortalecer aquilo que permanece para além das conjunturas: a memória do nosso povo, nossa identidade e nossa soberania.
“Defendê-las com serenidade, firmeza e senso de Estado é um dever irrenunciável para com o Paraguai.
“Senador Basilio Núñez
“Presidente do Congresso Nacional”
OUTRAS REAÇÕES
A fala de Lula também mobilizou o deputado paraguaio Rubén Rubín, que afirmou que o presidente brasileiro tentou “distorcer a história”.
“Um povo que esquece sua história permite que outros a reescrevam conforme lhes convêm. E é exatamente isso que Lula tenta fazer”, disse Rubín no sábado (25.jul), no X.

A senadora Esperanza Martínez (Partido Participación Ciudadana, esquerda) classificou as declarações de Lula como “resquícios do imperialismo que tentam ocultar uma guerra criminosa e uma política histórica de domínio e abuso por parte da elite brasileira” contra o Paraguai.

MÍDIA SE MANIFESTA
O apresentador paraguaio Germán Martínez Vierci, do programa “GeMaVi“, da Mega TV, leu durante o programa, na 3ª feira (28.jul.2026), uma carta que disse ter recebido por WhatsApp de uma pessoa que afirmou não conhecer. Antes da leitura, declarou que decidiu compartilhar o texto porque havia gostado de seu conteúdo.
Na carta, o autor pede que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva trate a Guerra da Tríplice Aliança com mais sensibilidade, afirmando que o conflito representa a maior tragédia da história do Paraguai. O texto diz que os paraguaios não têm ressentimento contra o Brasil, mas defende que, entre países irmãos, é preciso respeitar a dor causada pela guerra e reconhecer o alto custo humano pago pelo Paraguai.
Eis a íntegra da carta:
“Carta ao presidente Lula.
“Sou paraguaio e falo com o coração.
“Quando ouvi suas palavras sobre a Guerra da Tríplice Aliança, senti uma dor profunda, presidente. Porque, para o senhor, pode ter sido apenas uma frase. Para nós, foi a maior tragédia da nossa história.
“O senhor falou de uma guerra. Nós lembramos de um povo que ficou de joelhos. Lembramos de mães chorando por seus filhos, de crianças que cresceram sem pais e de uma nação que viu desaparecer quase toda uma geração.
“É por isso que dói. Porque essa guerra não vive apenas nos livros. Ela vive na memória de cada paraguaio. Vive no orgulho com que olhamos para a nossa bandeira. Vive no silêncio com que recordamos aqueles que deram absolutamente tudo por esta terra.
“”Nós não odiamos o Brasil. Pelo contrário, queremos continuar sendo povos irmãos. Mas, entre irmãos, também existe uma obrigação: respeitar a dor do outro.
Os paraguaios somos um povo pequeno, mas já fomos uma potência. Aprendemos que o tamanho de uma nação não se mede pelo seu território, mas pelo amor que seu povo sente por ela.
“Podem existir diferentes interpretações sobre as causas da guerra, mas há uma verdade que ninguém pode negar: o Paraguai pagou um preço imenso, um preço escrito com sangue, lágrimas e sacrifício.
“Senhor presidente, quando voltar a falar dessa guerra, pense por um instante nesse pequeno país que deu tudo de si para salvar sua dignidade. Pense que os paraguaios são um povo que se apega ao seu passado porque tem orgulho dele.
“Pode ser que, no fim, tenhamos sido derrotados militarmente, mas tivemos uma vitória moral, porque continuamos sendo um país.”
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