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Demissões ameaçam futuro do jornalismo climático

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 17 horas)

Por Suzannah Evans Comfort e Jill Hopke

“O planeta está superaquecendo”, dizia uma manchete recente da Grist, organização jornalística de longa trajetória voltada ao meio ambiente. “Por que a imprensa está desviando o olhar?”. A Grist relatou que a cobertura climática da mídia em todo o mundo caiu 38% em 2025 em relação ao pico de 2021, com base em dados da Universidade do Colorado em Boulder. Além disso, a Media Matters for America constatou queda de 35% no tempo dedicado a temas climáticos pelas emissoras de televisão aberta dos Estados Unidos CBS, ABC e NBC desde 2024.

Durante décadas, pesquisadores têm monitorado a atenção da mídia às questões climáticas usando palavras-chave como “mudanças climáticas” e “aquecimento global”. Esse conjunto único de dados longitudinais fornece evidências que corroboram relatos recentes sobre a diminuição do jornalismo climático.

Mas monitorar o volume de palavras-chave revela só parte da história e não demonstra o verdadeiro perigo que o jornalismo climático enfrenta. A questão fundamental é que o clima é um tema profundamente subnotificado. De acordo com dados recém-divulgados de um estudo em pré-publicação, elaborado por uma equipe internacional de pesquisadores, o jornalismo climático representa só 0,55% da cobertura dos principais veículos de comunicação dos Estados Unidos, com pequenas variações ao longo dos últimos 40 anos. Relatos de aumentos ou diminuições em curtos períodos de tempo ignoram esse panorama mais amplo e não levam em consideração a complexidade de como os jornalistas reportam histórias relacionadas ao clima atualmente.

O que importa mais é quem está fazendo as reportagens. A saúde do jornalismo climático não é mais bem medida pelo volume da cobertura, mas pelas pessoas. As recentes demissões de repórteres e editores de clima por grandes veículos de comunicação são um sério sinal de alerta sobre a vitalidade da editoria.

Há poucos anos, importantes veículos de comunicação como Associated Press, National Public Radio e o Washington Post expandiram suas equipes de reportagem sobre o clima. Agora, muitos estão reduzindo seus investimentos. No final de 2025, a Paramount demitiu 100 funcionários da CBS News, desmantelando a equipe de cobertura climática. Isso deixou apenas 1 repórter para cobrir o tema em uma emissora há muito reconhecida por sua liderança no jornalismo climático. Em abril, esse repórter também foi demitido, deixando a CBS News sem nenhum repórter especializado em clima.

Quando o Washington Post demitiu quase metade de sua renomada redação em fevereiro, o corte atingiu 14 jornalistas especializados em clima –uma redução de 74% da equipe dedicada ao clima.

As recentes demissões de repórteres e editores de clima por grandes veículos de comunicação são um sério sinal de alerta sobre a vitalidade da editoria.

Em maio, a NPR demitiu o de sua aclamada editoria de clima como parte de uma reorganização mais ampla da Redação e redução de pessoal, na esteira dos cortes no financiamento federal para a mídia pública. No total, somando indenizações e demissões, a NPR cortou 28 postos em toda a Redação, incluindo 2 na equipe de clima. Os 8 repórteres e editores de clima restantes passaram a integrar a editoria nacional.

Esses cortes foram feitos ao término da 4ª Semana de Soluções Climáticas da NPR, uma iniciativa lançada pela equipe de reportagem sobre clima, criada em 2022. A ombudsman da NPR, Kelly McBride, informou que o veículo planeja dar continuidade ao projeto Semana de Soluções Climáticas.

O clima é uma área de cobertura complexa, com dimensões políticas, culturais, econômicas e de políticas públicas. Embora assegurar que todos os jornalistas recebam algum treinamento sobre clima possa atender às necessidades das Redações até certo ponto, não é realista cobrir o clima acrescentando o tema a outras editorias como uma tarefa extra para repórteres já sobrecarregados. Na verdade, essa lógica falha tem sido usada por gestores de Redações como justificativa para reduzir o número de vagas dedicadas ao clima.

A cobertura jornalística sobre o clima deve ser fundamentada em uma compreensão dos fatores de origem humana que impulsionam as mudanças climáticas. É por isso que cargos especializados ocupados por jornalistas familiarizados com a cobertura da crise climática são essenciais.

Veículos de comunicação que contam com repórteres especializados em clima ou meio ambiente em suas equipes são muito mais propensos a relacionar o calor extremo às mudanças climáticas em suas reportagens e a discutir soluções climáticas, em comparação com veículos de comunicação sem essas funções específicas nas Redações.

As recentes demissões podem não resultar em menos menções às mudanças climáticas, como aquelas monitoradas pelos pesquisadores. Frequentemente, jornalistas generalistas sobrecarregados mencionam palavras-chave como “mudanças climáticas” ou “aquecimento global” de passagem, sem se aprofundarem no assunto.

Em nossa opinião, o jornalismo climático não precisa usar palavras-chave específicas ou mesmo expressar uma conexão direta com as emissões de combustíveis fósseis para ser considerado jornalismo climático. Por exemplo, o Wall Street Journal publicou uma extensa reportagem multimídia sobre a devastação causada por tsunamis glaciais provocados pelo aquecimento das temperaturas nas montanhas do Nepal. Não há palavras-chave rastreáveis relacionadas ao clima, mas é um exemplo claro de reportagem sobre os efeitos das mudanças climáticas em comunidades vulneráveis. A cobertura dos impactos ambientais de data centers e da infraestrutura energética cresce rapidamente na editoria de clima, mas muitas vezes carece de menção explícita às mudanças climáticas.

A excelência no jornalismo climático não vem de palavras-chave, mas do conhecimento especializado que os jornalistas de clima e meio ambiente levam ao trabalho, desde os temas que selecionam até as pessoas que entrevistam e as perguntas que fazem. Por isso, é tão importante saber quem faz a cobertura.

Uma equipe forte de repórteres sobre o clima é nossa melhor esperança para um jornalismo ponderado que sirva ao público. Em muitos aspectos, esse time ainda existe, em equipes dedicadas como as do Los Angeles Times e do New York Times, e em organizações de notícias especializadas e prósperas como a Grist e a Inside Climate News. Isso também está acontecendo no crescente campo do jornalismo de criadores, como o videopodcast Heated, lançado em fevereiro pela jornalista independente sobre clima Emily Atkin com a produtora Tracy Wholf, que havia sido demitida da CBS News em 2025.

Como o último ano demonstrou, no entanto, o apoio institucional à cobertura climática está frequentemente por um fio. Esse cenário sucede décadas de investimento inconsistente no jornalismo ambiental. Com muita frequência, a cobertura climática e ambiental é tratada como algo extra ou um luxo. Isso é um erro. O público quer e precisa de notícias sobre o clima.

O verdadeiro desafio é encontrar caminhos sustentáveis para que os jornalistas climáticos trabalhem e prosperem. Isso deve incluir jornalistas independentes, que há muito constituem uma porcentagem significativa da força de trabalho na cobertura climática.

Nosso futuro coletivo depende da presença de jornalistas especializados em clima em todo o ecossistema da mídia. E é isso que devemos acompanhar.


Suzannah Evans Comfort é professora associada de jornalismo na Universidade de Indiana e autora de Environmental Beat: Inside the Struggle to Legitimize the Environment as News (University of Missouri Press, 2026).

Jill Hopke é professora associada de jornalismo na Universidade DePaul, em Chicago, onde dá aula de comunicação sobre mudanças climáticas e jornalismo climático. É integrante do Conselho Diretor da Sociedade de Jornalistas Ambientais.


Texto traduzido por Nícolas Proença. Leia o original em inglês.


O Poder360 tem uma parceria com duas divisões da Fundação Nieman, de Harvard: o Nieman Journalism Lab e o Nieman Reports. O acordo consiste em traduzir para português os textos do Nieman Journalism Lab e do Nieman Reports e publicar esse material no Poder360. Para ter acesso a todas as traduções já publicadas, clique aqui.