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Brasil aceitou abrir mercado para tentar evitar tarifaço dos EUA

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 2 horas)

O governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) apresentou aos Estados Unidos uma proposta com concessões comerciais para tentar evitar a tarifa de 25% sobre produtos brasileiros. O Brasil aceitou negociar temas como abertura de mercado e etanol, mas recusou propostas que envolviam o Pix, minerais críticos e restrições à relação com a China.

Desde o anúncio da nova rodada do tarifaço, o governo passou a separar as demandas americanas entre aquelas que poderiam ser negociadas e as consideradas inegociáveis. O plano, entregue em 2 de julho ao representante de Comércio dos EUA, Jamieson Greer, estipulava reduzir tarifas de importação em cerca de 300 linhas de produtos e discutir o mercado de etanol. 

O documento foi elaborado pelo MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços) depois de quase um ano de negociações entre os 2 países.

Segundo integrantes do governo, o Brasil sinalizou disposição para discutir temas de interesse dos Estados Unidos, desde que houvesse reciprocidade e ampliação do acesso de produtos brasileiros ao mercado norte-americano.

Entre os pedidos apresentados pelos Estados Unidos estavam a abertura de mercado para bens industriais, produtos da indústria química, setor automobilístico e aeronáutico, além da redução ou zeragem de tarifas sobre o etanol. Também houve demandas relacionadas à regulamentação de plataformas digitais e ao setor de minerais críticos, que foram consideradas pelo governo brasileiro como fora dos limites de negociação.

O principal tema levado pelo governo brasileiro foi a abertura comercial. A oferta brasileira foi reduzir tarifas de importação em cerca de 300 linhas tarifárias, concentradas em segmentos que o Brasil tem baixa produção nacional. A exemplo: máquinas, equipamentos e tecnologia da informação.

A avaliação do governo era de que a medida ampliaria o acesso de produtos americanos ao mercado brasileiro sem comprometer a indústria nacional.

O documento também buscava rebater os argumentos usados pelos Estados Unidos na investigação comercial contra o Brasil. Sustentava que políticas públicas brasileiras não criam distorções comerciais, nem discriminam empresas americanas.

Etanol entrou na proposta

O governo brasileiro aceitou discutir o mercado de etanol, mas qualquer concessão sobre o biocombustível deveria ser acompanhada da redução das tarifas aplicadas pelos Estados Unidos ao açúcar brasileiro –superiores a 100% para exportações acima da cota anual de 150 mil toneladas.

A posição foi reafirmada pelo ministro do MDIC, Márcio Elias Rosa, em 7 de julho de 2026, depois de uma reunião em que as equipes dos 2 países discutiram também um plano de cooperação contra o crime transnacional. Segundo ele, o presidente Lula pediu que o etanol não seja tratado “sem que nós também tratemos da questão do açúcar”.

Depois do tarifaço, Rosa e o chanceler Mauro Vieira afirmaram que os Estados Unidos esperavam uma “capitulação” do Brasil. Segundo o ministro do MDIC, ao longo de mais de 30 reuniões, “tudo que foi oferecido e proposto ou não teve resposta ou a reação de que era sempre pouco”. O ministro disse que Washington pressionava pela “abertura total de alguns setores, ou de vários ou de todos os setores”, sem oferecer contrapartidas que preservassem os interesses brasileiros.

As linhas vermelhas

Apesar da disposição para negociar temas comerciais, o governo estabeleceu limites.

O Pix ficou fora das conversas. A orientação dada foi não discutir qualquer mudança envolvendo o sistema de pagamentos desenvolvido pelo Banco Central. 

Os Estados Unidos incluíram o Pix na investigação comercial aberta contra o Brasil sob o argumento de que políticas públicas na área de pagamentos digitais poderiam afetar empresas americanas do setor. O governo brasileiro rejeita essa interpretação e sustenta que o sistema é uma política pública, sem caráter discriminatório.

Minerais críticos e China

Outro ponto rejeitado pelo governo envolveu os minerais críticos.

Os Estados Unidos apresentaram uma proposta para que o Brasil adotasse medidas que limitassem investimentos de “atores não orientados pelo mercado” e de “entidades estrangeiras de preocupação” em projetos ligados ao setor. A medida foi interpretada pelo Planalto como uma tentativa de limitar a presença chinesa em projetos brasileiros. 

Embora a China não tenha sido mencionada nominalmente, integrantes do governo afirmam que a referência era ao país asiático. E o governo não cogita romper tratados com outros países para atender aos Estados Unidos.

O governo Lula recusou discutir esse tipo de compromisso. A avaliação foi de que aceitar restrições dessa natureza significaria interferir na autonomia brasileira para definir parceiros comerciais e investimentos em recursos estratégicos.

Tarifa foi mantida

A proposta brasileira foi entregue depois de cerca de 30 reuniões realizadas ao longo de um ano entre representantes dos 2 governos.

Na avaliação do Planalto, o Brasil apresentou concessões comerciais e respondeu tecnicamente às críticas feitas pelos Estados Unidos.

Mesmo assim, Washington manteve a decisão de aplicar a tarifa de 25% sobre produtos brasileiros a partir de 22 de julho.

Apesar do fracasso das negociações, o governo afirma que pretende manter o diálogo com Washington. A avaliação é de que a relação bilateral vai além da disputa comercial e que é necessário preservar os canais diplomáticos para tentar reverter as medidas adotadas. 

O cenário segue incerto, já que novas restrições podem ser impostas unilateralmente pelos americanos –como a taxa de 12,5%.

Ademais, por conta do caráter político do tarifaço, a avaliação no Planalto é de que as eleições presidenciais de 2026 tendem a influenciar os próximos passos da negociação. 


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