O CNJ (Conselho Nacional de Justiça) decretou o afastamento cautelar e imediato da desembargadora Marise Medeiros Cavalcanti Chamberlain, do Tribunal Regional do Trabalho da 17ª Região (ES), por considerar que ela usou “tom jocoso, deboche e excessos verbais” contra juízes e advogados durante uma sessão na última 4ª feira (8.jul.2026).
Segundo a Agência Estado, os desembargadores analisavam uma proposta que previa a retirada de um servidor de cada secretaria das varas do trabalho de 1ª instância para redistribuí-los à área administrativa do TRT-17 e aos gabinetes do 2º grau. A seccional do Espírito Santo da Ordem dos Advogados do Brasil afirmou que a medida poderia prejudicar a prestação jurisdicional e pediu a suspensão do julgamento para participar do processo.
Ao se manifestar sobre o pedido da OAB-ES, a desembargadora afirmou:
“O 1º grau não está produzindo nada, enquanto o 2º grau está produzindo loucamente. O que é que a OAB está fazendo aqui? (…) Se o Corregedor disse: ‘Vamos reestruturar porque o 1º grau não está fazendo nada e está cheio de servidor, vamos tirar uns e botar no 2º grau’, aí vem a OAB falar de coisa absurda e infundada! (…) Aí vem a OAB dizer: ‘Ah, não reestrutura não, não tira servidor da 1ª não’, mas vocês continuem se ferrando, trabalhando feito uns animais. Porque é isso que a gente faz! A gente coloca 300 processos em pauta de sessão, a gente trabalha pra caramba! (…) A 1ª instância não está julgando o suficiente e está cheia de servidor. A 2ª está com pouco servidor e está produzindo feito uma louca, sem saber como. (…) Então, vamos ser objetivos, vamos ser responsáveis, vamos ter compromisso com a Justiça e compromisso com a produtividade.”
O caso chegou à Corregedoria Nacional de Justiça depois de uma reclamação disciplinar apresentada ao Conselho Superior da Justiça do Trabalho.
Assista ao vídeo:
🚨URGENTE – CNJ acaba de afastar desembargadora do ES que ficou revoltada após presidente da OAB do estado chamá-la de “destemperada” pic.twitter.com/V0V4JbfsRD
— SPACE LIBERDADE (@NewsLiberdade) July 10, 2026
No despacho, o corregedor nacional de Justiça, ministro Mauro Campbell Marques, afirmou que há “fartos registros audiovisuais e notícias amplamente veiculadas na mídia jurídica especializada que indicam o uso de tom jocoso, deboche e excessos verbais direcionados não apenas à entidade de classe, mas também aos magistrados atuantes no 1º grau de jurisdição”.
Segundo a decisão, Campbell ainda proibiu o acesso de Marise às dependências do TRT-17, suspendeu suas credenciais de acesso aos sistemas internos e as prerrogativas vinculadas ao exercício diário da função. Ela continuará recebendo salário até a deliberação final do plenário do CNJ.
A desembargadora também responde a um outro processo em tramitação no CNJ, instaurado para apurar supostas ofensas e ameaças a colegas magistrados em grupo de mensagens. No caso, o plenário do Conselho já referendou uma medida cautelar que impede Marise de concorrer e de exercer cargos diretivos e de gestão no TRT-17.
Em nota divulgada na 6ª feira (10.jul), a presidente da OAB-ES, Erica Neves, disse que recebeu uma ligação do ministro do Tribunal Superior do Trabalho Luiz Philippe Vieira de Mello Filho, que informou o afastamento imediato da magistrada pelo CNJ.
Neves afirmou que a desembargadora agiu “fora de si” no plenário do Tribunal, adotando uma postura incompatível com a liturgia do cargo e causando “uma vergonha para os próprios pares”.
O TRT-17 também se manifestou sobre o caso em nota oficial. Disse que lamenta o ocorrido e “que tomará as medidas administrativas adequadas ao caso”.
Leia a íntegra do posicionamento do TRT-17:
“Ao longo de 35 anos de atuação no Espírito Santo, o Tribunal Regional do Trabalho da 17ª Região tem atuado para promover a justiça nas relações de trabalho, contribuindo para a paz social e para o fortalecimento da cidadania no Espírito Santo. Essa atuação se sustenta no diálogo permanente com a advocacia, com as instituições que compõem o sistema de Justiça e com a sociedade.
“O Tribunal tomou ciência das notícias veiculadas pela imprensa, sobre o episódio ocorrido nesta 4ª feira (8.jul), durante sessão administrativa do Pleno e informa que a reunião foi pública, registrada pelos meios oficiais da Corte e conduzida no âmbito regular das deliberações administrativas.
“O TRT-17 lamenta o ocorrido e, com o objetivo de evitar desinformações, esclarece que a matéria em discussão trata de uma proposta de reestruturação administrativa, elaborada em atendimento às medidas recomendadas na ata da correição ordinária da Corregedoria Geral da Justiça do Trabalho, realizada em janeiro deste ano.
“A presidência do Regional informa que já iniciou contato direto com as presidências da Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Espírito Santo e da Associação dos Magistrados da Justiça do Trabalho da 17ª Região (Amatra-17), com o objetivo de preservar a relação de respeito mútuo que sempre pautou a atuação do Tribunal. O TRT-17 ressalta que reconhece a atuação das instituições essenciais à Justiça, bem como a importância do diálogo permanente com a advocacia, o Ministério Público, a magistratura, os(as) servidores(as) e a sociedade.
“O Tribunal já vinha adotando as providências administrativas cabíveis em relação ao caso, mas o Conselho Nacional de Justiça, no exercício de sua competência, adotou as medidas que entendeu necessárias.
“O Regional capixaba reafirma que permanece aberto ao diálogo e à construção participativa de soluções, mantendo seu compromisso com uma prestação jurisdicional justa, célere e efetiva em benefício da sociedade capixaba.”
