Há quase 70 anos, os cristãos católicos chineses vivem um clima de tensão com a Igreja Católica Apostólica Romana. Na prática, a autoridade máxima responsável pela administração das igrejas e pela indicação de bispos no país não é o Vaticano, mas o PCCH (Partido Comunista da China), que exerce esse controle por meio da CCPA (Associação Patriótica Católica Chinesa).
Essa ruptura formal não é declarada como um cisma oficial pela Igreja Católica, mas criou um distanciamento profundo entre a Igreja na China e a Santa Sé.
A CCPA foi criada ainda na 1ª década depois de o PCCH assumir o comando do país e fundar a República Popular da China, em 1949.
Seu objetivo original era afastar a influência de forças estrangeiras sobre a população chinesa. Em seu site oficial, diz que a Igreja Católica estava sob domínio colonial durante os primórdios da República Popular, com sua administração concentrada nas mãos de missionários estrangeiros.
Ainda segundo o site da CCPA, logo em novembro de 1950 –1 ano depois da revolução–, um movimento de católicos chineses já pedia o estabelecimento de uma “nova Igreja autogovernada, autossustentável e autopropagadora”.
Com o governo chinês estruturando uma forma de estabelecer o controle no país e afastar interferências externas depois de décadas de ocupações estrangeiras, o PCCH incentivou organizações católicas patrióticas ao longo da década de 1950, o que resultou na criação da CCPA em agosto de 1957.
“O objetivo desta associação é unir e liderar o clero e os leigos católicos em todo o país, apoiar a liderança do Partido Comunista Chinês e o sistema socialista, e respeitar a constituição, as leis, os regulamentos e as políticas nacionais”, afirma a constituição da CCPA retificada em 2016. Leia a íntegra (PDF – 75 kB, em inglês).
A criação da CCPA provocou uma reação imediata do Vaticano.
Em novembro de 1958, o papa Pio 12 publicou uma encíclica –carta escrita pelo pontífice dirigida aos bispos e fiéis da Igreja Católica– sobre a influência comunista chinesa no catolicismo. Nela, Pio 12 escreveu que a CCPA é uma “farsa” criada para levar os cristãos chineses ao ateísmo.
“Sob o falso pretexto de patriotismo, com efeito, a associação quer gradualmente levar os católicos a aderir e apoiar os princípios do materialismo ateu, negador de Deus e de todos os princípios sobrenaturais”, escreveu o papa. Leia a íntegra (PDF – 7,5 MB).
Assista à reportagem (2min14s):
Uma parte dos católicos chineses se recusa a se submeter à CCPA. Um dos efeitos da criação dessa “igreja oficial” subordinada ao PCCH foi o surgimento de “igrejas clandestinas” leais ao Vaticano. São encontros ilegais de fiéis em casas ou outros locais fora do controle do partido.
Ao longo das décadas, a relação entre o Vaticano e o PCCH foi se distensionando até um acordo provisório firmado em 2018 –já no papado de Francisco– para unificar as duas igrejas.
Nele, o papa passou a aceitar as nomeações de bispos da CCPA, mas mantém um poder de veto sobre essas ordenações. Esse documento foi renovado em 2020, 2022 e 2024. A última renovação foi por 4 anos.
O último episódio de maior tensão entre o Vaticano e o PCCH foi a prisão e destituição do bispo Joseph Zhang Weizhu. O bispo, que liderava a diocese de Xinxiang, foi preso em maio de 2021 por não ser um clérigo registrado no país. Em novembro de 2025, o papa Leão 14 aprovou a substituição de Zhang pelo bispo Francis Li Jianlin, indicado pela CCPA.
EVANGÉLICOS TAMBÉM CONTROLADOS
A CCPA é uma das 7 associações religiosas oficiais da China, subordinadas à Administração Nacional de Assuntos Religiosos –braço do governo chinês responsável por supervisionar as atividades religiosas do país. Além da CCPA, outra organização católica é a Conferência Episcopal da Igreja Católica, que atua em conjunto com a CCPA.
Também há duas organizações para a Igreja Protestante: o Comitê do Movimento Patriótico das Três Autonomias das Igrejas Protestantes na China e o Conselho Cristão da China. Embora os cultos evangélicos não sejam centralizados em uma unidade única como a Igreja Católica, as pregações precisam ser sancionadas por esses órgãos para serem consideradas legais.
Muitos cultos evangélicos repetem a fórmula das “igrejas clandestinas” por se recusarem a se submeter à autoridade do PCCH.
Esses grupos são alvos de operações policiais, assim como os católicos e outras religiões. Em novembro do ano passado, a agência de notícias Reuters reportou a prisão de 30 pessoas –entre pastores e funcionários– de uma igreja evangélica não sancionada pelo Estado. Eles podem ser condenados a até 3 anos de prisão.
Embora a maioria da população chinesa se declare ateia, a China concentra uma das maiores populações de cristãos do mundo.
A pesquisa mais recente sobre religiões no país foi feita pela CGSS (Pesquisa Social Geral da China) em 2018 e contabilizou cerca de 44 milhões de cristãos, dos quais 90% eram protestantes. Os dados oficiais da China não informam a composição religiosa da população.
Segundo o Pew Research Center, esse número pode ser maior. Um cruzamento de estudos compilado pelo instituto diz que o número de chineses que declararam acreditar em Jesus Cristo ou em Tianzhu –a palavra que os católicos chineses usam para Deus– foi de 81 milhões. Essa quantidade coloca a China como a 7ª maior população cristã do mundo.


