Há 24 anos no Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes voltou a assumir o papel de principal defensor público da Corte em um dos momentos de maior desgaste institucional do tribunal. De abril a junho, o decano deu ao menos 11 entrevistas a veículos jornalísticos, em uma sequência marcada por críticas ao STF, cobranças por regras de conduta para magistrados e repercussões do caso Banco Master.
O levantamento do Poder360 considera entrevistas concedidas de 19 de abril a 19 de junho de 2026 a TVs, rádios, jornais, portais, podcasts e veículos jurídicos.
A sequência começou em abril, quando Gilmar falou a pelo menos 7 veículos em 3 dias. Depois, o ministro voltou a se manifestar em maio e junho, com participação em programas de rádio, entrevistas a jornais e conversas com publicações especializadas no Judiciário.
A ofensiva pública coincide com o desgaste provocado pelo caso Banco Master no Supremo. O tribunal passou a ser questionado depois de revelações sobre episódios envolvendo ministros da Corte e Daniel Vorcaro, fundador do banco. Gilmar tem usado as entrevistas para afastar a crise do STF e sustentar que o problema está no mercado financeiro, nos mecanismos de fiscalização e na supervisão de órgãos reguladores.
MARATONA DE ENTREVISTAS
Eis a lista dos 7 veículos que Gilmar deu entrevistas em 3 dias, em abril:
- Jornal da Globo;
- TV Record;
- Metrópoles;
- Band;
- Correio Braziliense;
- o jornal português Expresso;
- CNN Brasil.
Nas entrevistas, o ministro defendeu o STF, rebateu críticas de políticos e comentou temas incômodos para a Corte, como o inquérito das fake news, as críticas ao tribunal e o caso Banco Master.
A toada de entrevistas também produziu desgastes em outras esferas do poder. Ao comentar sátiras contra ministros do STF, Gilmar citou o ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo-MG). A fala provocou reação, e o ministro pediu desculpas depois por ter usado a homossexualidade como exemplo de acusação ofensiva.
Depois da maratona de abril, o decano voltou a falar em maio e junho. Eis a lista dos locais identificados pelo levantamento:
- Jornal Gente, da Rádio Bandeirantes e BandNews FM;
- programa Alô, Alô Brasil, da Rádio Nacional;
- Folha de S.Paulo;
- Migalhas.
Gilmar ainda participará, nesta 2ª feira (22.jun.2026), do Roda Viva, da TV Cultura, onde pretende defender, mais um vez, a Corte de ataques envolvendo o caso Master
DEFESA NO CASO MASTER
O caso Banco Master foi um dos temas mais repetidos nas entrevistas. Gilmar disse que a crise foi atribuída indevidamente ao STF e afirmou que o centro do problema está na Faria Lima, em referência ao mercado financeiro de São Paulo.
O ministro também defendeu que eventuais irregularidades sejam investigadas, inclusive se envolverem integrantes da Corte. Afirmou que o procedimento sobre o caso está em andamento no Supremo, sob relatoria do ministro André Mendonça, e com atuação da PGR (Procuradoria Geral da República).
As falas de Gilmar vieram depois de cobranças por apurações sobre eventuais vínculos de ministros do STF com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Um dos focos é Dias Toffoli, que deixou a relatoria do caso em 12 de fevereiro depois de vir à tona que uma empresa da qual é sócio vendeu participação no resort Tayayá a um fundo ligado a Vorcaro. O caso gerou cobrança por transparência, discussão sobre conflitos de interesse e debate interno sobre regras de conduta para magistrados.
Além de Tofdoli, o ministro Alexandre de Moraes também foi citado em episódios relacionados ao Master. Dados da Receita Federal obtidos indicam que o banco declarou pagamentos de cerca de R$ 80 milhões ao Barci de Moraes Sociedade de Advogados em 2024 e 2025. O escritório, que tem Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro, entre os sócios, afirmou ter sido contratado pelo Master de fevereiro de 2024 a novembro de 2025, quando o banco foi liquidado.
A banca disse que prestou consultoria e atuação jurídica ao Master, mas negou ter conduzido causas da instituição no STF.
LIMITES DA MAGISTRATURA
A exposição de Gilmar reacende a discussão sobre o que juízes podem ou não dizer fora dos autos.
A Loman (Lei Orgânica da Magistratura Nacional) veda a magistrados manifestar, por qualquer meio de comunicação, opinião sobre processo pendente de julgamento, seu ou de outro juiz, ou fazer juízo depreciativo sobre despachos, votos ou sentenças. A regra permite crítica nos autos, em obras técnicas ou no exercício do magistério.
O Código de Ética da Magistratura Nacional também orienta que magistrados se comportem de forma prudente e equitativa na relação com a imprensa. O texto fala em abstenção de opinião sobre processo pendente de julgamento e em cautela para não prejudicar direitos de partes e advogados.
As entrevistas de Gilmar, porém, têm sido apresentadas por aliados como defesa institucional do Supremo. O ministro tem sustentado que o tribunal vem sendo alvo de ataques que, na avaliação dele, não nasceram dentro da Corte.
