Por Nithin Coca
Em teoria, o Japão parece ter um setor jornalístico próspero. A 3ª maior economia do mundo também abriga alguns dos jornais de maior circulação global, como o Yomiuri Shimbun, que, com 6,2 milhões de assinantes, possui a maior circulação paga entre os veículos de mídia independentes do mundo, e o Asahi Shimbun, com 3,5 milhões de assinantes.
Mas redações com muitas equipes e grandes tiragens não significam automaticamente espaço de sobra para jornalismo investigativo ou de fiscalização.
A situação piorou desde 2012, quando Shinzo Abe foi eleito primeiro-ministro. Novas leis que limitam o acesso de jornalistas a dados e criminalizam certas formas de reportagem por causa de preocupações com a segurança nacional fizeram com que o ranking de liberdade de imprensa do Japão despencasse. Em 2016, o relator especial da ONU para o direito à liberdade de opinião e expressão, David Kaye, divulgou um relatório expressando preocupação com o fato de a “independência da imprensa japonesa estar enfrentando sérias ameaças” e que as fragilidades na proteção a denunciantes e o medo de punição estivessem prejudicando o jornalismo.
“O jornalismo investigativo precisa ser apoiado pela liberdade de imprensa”, afirmou Yasuomi Sawa, professor de jornalismo da Universidade de Waseda. “O papel desempenhado pelos jornalistas investigativos é subestimado neste país por causa da falta de educação sobre como a informação é crucial para manter nossa democracia e como o jornalismo é indispensável para responsabilizar aqueles que estão no poder”, disse.
Na verdade, existe apenas 1 veículo de notícias afiliado à GIJN (Global Invetigative Journalism Network) no Japão — a organização sem fins lucrativos Tokyo Investigative Newsroom, ou Tansa. Apesar das dificuldades, a Tansa, ao longo de mais de uma década, realizou diversas investigações de longa duração sobre temas que vão desde gênero, saúde e política até meio ambiente.
“Acreditamos que existe uma forte demanda por mídia independente e sem fins lucrativos como a Tansa, independente do poder político e das esferas econômicas de grandes corporações, e sinto que o público precisa de mais mídia exploratória e investigativa”, disse Makoto Watanabe, fundador e editor-chefe da Tansa.
Depois de se desiludir com a falha dos editores do Asahi Shimbun, onde trabalhava anteriormente, em cobrir adequadamente o desastre nuclear de Fukushima em 2011, Watanabe fundou a Tansa em 2016. Embora a página ainda seja muito menor do que o Yomiuri ou os milhares de funcionários do Asahi Shinbun, a Tansa cresceu gradualmente para uma equipe de 7 pessoas — Watanabe, 3 repórteres e funcionários de apoio.
Um novo modelo para o Japão
Embora a mídia investigativa independente seja comum nos Estados Unidos, na Europa e até mesmo na vizinha Coreia do Sul e em Taiwan, no Japão, a criação de uma redação sem fins lucrativos era algo inédito. Esse obstáculo histórico tem sido, e continua sendo, um desafio para a Tansa.
“A maior parte das doações que recebemos de grandes fundações e instituições vem do exterior. Doações de pessoas físicas no Japão são difíceis de obter”, observou Nanami Nakagawa, repórter da Tansa desde 2020.
Ao mesmo tempo, a necessidade do trabalho realizado pela Tansa aumentou. Com a grande mídia, como o Asahi Shimbun, abandonando ou reduzindo suas unidades de investigação, e outros grandes veículos preferindo manter relações amistosas com o governo e grandes empresas japonesas em troca de verbas publicitárias, a Tansa muitas vezes se vê como a única disposta a investigar temas complexos que expõem irregularidades em algumas das empresas mais poderosas do Japão.
As investigações publicadas pela Tansa na última década incluem uma reportagem investigativa sobre o suicídio de estudantes em uma escola em Nagasaki, um relatório que liga a poluição tóxica ilegal por PFOA (Ácido Perfluorooctanóico) ao conglomerado japonês e uma análise aprofundada da campanha de esterilização forçada no Japão do pós-guerra.
Embora a Tansa tenha conquistado reputação por explorar temas que a grande mídia geralmente ignora, recentemente encontrou maneiras de colaborar. Uma investigação recente revelou uma vasta rede de venda de imagens e vídeos sexuais de meninas e mulheres, obtidos sem o seu consentimento. A emissora nacional japonesa, NHK, exibiu uma série documental produzida em colaboração com a Tansa, levando a história a seus milhões de telespectadores em todo o país.
“Foi muito importante, pois a Tansa tem capacidade investigativa e a NHK é uma organização de mídia enorme, com uma grande audiência televisiva”, afirmou Sawa.
O impacto do “True Mother files”
No início deste ano, a Tansa publicou sua mais recente investigação, uma colaboração com o premiado Centro Coreano de Jornalismo Investigativo (KCIJ), uma organização sem fins lucrativos sul-coreana. A iniciativa analisou um enorme conjunto de arquivos que implicavam muitos dos principais líderes políticos do Japão em uma obscura rede de financiamento e influência estrangeira.
Sob o título “Arquivos da Verdadeira Mãe”, a série, divulgada ao longo de várias semanas, destacou ligações entre diversos líderes do Partido Liberal Democrático (PLD), que governa o Japão há muito tempo, e financiadores conservadores, a Igreja da Unificação e líderes religiosos na Coreia do Sul e nos Estados Unidos.
“Lemos o documento de 3.000 páginas na íntegra e relatamos como ocorreu a conivência entre políticos do PLD e a Igreja da Unificação, incluindo o processo e o contexto histórico, e não apenas o conteúdo dos documentos”, explicou Mariko Tsuji, repórter da Tansa desde 2016.
O momento foi ideal, coincidindo com uma eleição geral, na qual uma aliada de Abe, Sanae Takaichi, concorria ao cargo de primeira-ministra por uma plataforma nacionalista. O lançamento também ocorreu justamente quando a sentença de Tetsuya Yamagami, assassino de Abe, estava sendo proferida por causa da raiva pelas ligações do partido governista com a Igreja da Unificação, a quem culpava pelo empobrecimento de sua família. A série teve grande repercussão entre os leitores.
“Durante uma eleição, a mídia japonesa geralmente evita publicar críticas a políticos específicos. A Tansa, no entanto, considerou a relação entre a Igreja da Unificação e os políticos do PLD uma informação vital que poderia influenciar o comportamento do eleitorado. Isso teve grande repercussão e gerou reações significativas do público”, afirmou Tsuji.
Para a repórter da Tansa, Nakagawa, todo o trabalho árduo está começando a dar frutos, já que a reputação da Tansa na sociedade japonesa está crescendo. “Foi apenas nos últimos 2 anos que começamos a ver um aumento significativo no número de doadores”, disse ela. De fato, eles têm desfrutado de um grande aumento no apoio e no número de novos doadores desde a publicação da reportagem investigativa sobre o “True Mother files”.
Para Watanabe, o mais importante é que há uma crescente conscientização na sociedade japonesa sobre a necessidade de uma mídia independente e de um jornalismo investigativo que priorize, acima de tudo, o interesse público. “Nos últimos 10 anos, vimos um aumento na descrença em relação à mídia tradicional e uma percepção de que precisamos de uma mídia que nos informe”, afirmou Watanabe.
Colaboração e construção da cultura investigativa do Japão
Como uma grande economia, o alcance do Japão se estende muito além de suas fronteiras. Sendo a única redação parceira da GIJN, a Tansa frequentemente recebe solicitações para participar de colaborações globais e já desempenhou um papel em muitas delas, incluindo a Oceans Inc. , liderada pelo Environmental Reporting Collective; a Blowing Unsmoke, sobre a indústria global do tabaco, com o OCCRP; e a Coal Crusades, com diversos veículos de comunicação na região da Ásia-Pacífico. Mas essas iniciativas são limitadas pelo seu tamanho e pelas investigações internas em andamento.
“Há muitas ocasiões em que temos de recusar esses pedidos, dependendo da carga de trabalho que temos no momento. Lamentamos muito isso”, disse Watanabe.
Ao considerar a possibilidade de uma colaboração, a Tansa leva alguns fatores em conta: os laços com o Japão, o potencial de benefício mútuo e se a colaboração está alinhada com sua missão como veículo de comunicação. “A Tansa se solidariza com as vítimas e com aqueles que sofrem bullying por parte de quem está no poder. O alinhamento nessa posição é o que mais valorizamos”, afirmou Watanabe.
Watanabe, Tsuji e Nakagawa têm plena consciência de que uma pequena redação sem fins lucrativos não consegue cobrir tudo no Japão, nem aceitar todas as colaborações relevantes. O setor, como um todo, precisa crescer.
“Precisamos que mais veículos de comunicação como a Tansa sejam criados — competindo entre si quando necessário, mas colaborando para revitalizar o jornalismo”, afirmou Watanabe.
Uma organização que busca expandir a cultura do jornalismo investigativo no Japão — e ampliar o espaço para colaboração — é o Fórum de Praticantes de Jornalismo (J-Forum), que reúne veículos de mídia tradicionais e independentes, além de jornalistas autônomos.
“É ótimo ver jornalistas muito conservadores e progressistas conversando lado a lado, com respeito mútuo, como colegas, e buscando a possibilidade de mais colaboração”, afirmou o professor Sawa, da Universidade de Waseda.
Ele também está otimista em relação ao futuro da mídia independente japonesa, pois observa o surgimento de novos veículos que estão se expandindo para o jornalismo investigativo, embora com modelos diferentes da Tansa.
Exemplos disso incluem Voice of Nara, Frontline Press e My News Japan, todos veículos de notícias pequenos e independentes. O desafio será encontrar uma maneira para que esse grupo consiga financiar o jornalismo investigativo de forma sustentável.
“O cenário da mídia está mudando rapidamente neste momento, e estou ansioso para ver ainda mais novidades. Precisamos de mais variedade e diversidade no ecossistema do jornalismo investigativo japonês, o que pode enriquecer o ambiente de informação”, afirmou Sawa.
O Poder360 tem uma parceria com duas divisões da Fundação Nieman, de Harvard: o e Nieman Reports. O acordo consiste em traduzir para português os textos do Nieman Journalism Lab e do Nieman Reports e publicar esse material no Poder360. Para ter acesso a todas as traduções já publicadas, clique aqui.
