O ministro Augusto Nardes, do TCU (Tribunal de Contas da União), afirmou ao Poder360 que milhares de brasileiros morrem todos os anos em consequência de falhas estruturais na política de câncer do país.
A declaração foi dada ao falar sobre o caso do aposentado Antonio Carlos Striotto Marins, que morreu depois de esperar mais de 7 meses por um medicamento já previsto no SUS.
“Milhares de pessoas morrem por não ter uma política preventiva e não ter uma governança do Estado brasileiro”, declarou.
Assista (3m55s):
A avaliação faz referência a uma auditoria conduzida pelo próprio Nardes sobre a política nacional de controle do câncer. O trabalho concluiu que o diagnóstico da doença muitas vezes não é realizado em tempo suficiente para reduzir o avanço dos tumores e apontou problemas de coordenação, monitoramento e acompanhamento dos pacientes ao longo do tratamento.
O Poder360 mostrou, em abril, que medicamentos de ponta contra o câncer, mesmo quando previstos no SUS, dependem mais da capacidade de litigar na Justiça do que da indicação médica. Marins teve que fazer 3 processos para ter acesso a um medicamento que ele teria direito.
Leia a série:
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À época, Marins gravou um vídeo relatando a espera pelo tratamento e o avanço da doença.
“O câncer é o mais impactante. Muitas pessoas, não é somente esse caso, milhares de pessoas morrem por não ter uma política preventiva e não ter uma governança do Estado brasileiro”, afirmou Nardes.
Segundo o relatório, o Brasil ainda enfrenta dificuldades para rastrear pacientes, monitorar filas e integrar informações entre diferentes áreas do sistema de saúde. A auditoria também identificou falhas na produção de indicadores e no acompanhamento da jornada dos pacientes dentro da rede pública.
Foi esse conjunto de problemas que levou Nardes a afirmar que milhares de mortes poderiam ser evitadas com melhor governança. Em monitoramento concluído em 2025, o TCU verificou que parte das medidas determinadas para corrigir esses gargalos ainda estava em implementação e decidiu manter o acompanhamento da política nacional de combate ao câncer.
O monitoramento realizado pelo tribunal mostra que parte dessas medidas ainda não saiu completamente do papel. Para Nardes, sem indicadores confiáveis e capacidade de acompanhar pacientes ao longo da jornada de tratamento, o país continuará reagindo aos casos mais graves em vez de preveni-los.
“Eu não vejo muitos avanços, mas vou continuar persistindo, perseverando para ver se consigo convencer o governo de que tem que fazer políticas preventivas e fazer uma governança“, afirmou.
Judicialização do câncer no Brasil
O aposentado Antonio Carlos Striotto Marins, 67 anos, morreu em maio depois de enfrentar uma batalha de ao menos 7 meses para obter acesso ao Keytruda, medicamento de ponta contra o câncer já incorporado ao SUS para pacientes na sua condição clínica.
Portador de melanoma metastático não cirúrgico, o tipo mais agressivo de câncer de pele, Marins precisou recorrer à Justiça para receber um tratamento que, em tese, deveria estar disponível diretamente pela rede pública. Foram meses de espera.
Quando o medicamento finalmente chegou, a doença já havia avançado. O câncer atingiu o cérebro e o paciente recebeu apenas 3 aplicações da imunoterapia antes de morrer.
A história de Marins foi relatada pelo Poder360 na série de reportagens sobre acesso a medicamentos de alto custo contra o câncer.


