O governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) prepara uma linha de crédito subsidiada para a compra de motocicletas por entregadores de aplicativos. O programa será chamado de Move Motos.
A medida levará a gestão federal a um segmento em que o Planalto busca reduzir a resistência ao governo: trabalhadores jovens, majoritariamente homens e concentrados no Sudeste.
O programa funcionará como uma nova vertente do Move Brasil. A 2ª fase da iniciativa foi lançada em 30 de abril de 2026, com R$ 21,2 bilhões do Tesouro Nacional e do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social para financiar a renovação da frota de caminhões e ônibus.
A pedido de Lula, a equipe econômica planeja apresentar o Move Motos até o fim de junho de 2026.
O programa deve seguir o modelo de financiamento do Move Brasil para veículos de passeio, mas com orçamento inferior aos R$ 30 bilhões destinados a carros de motoristas de aplicativo e táxis. As taxas de juros e os prazos ainda não foram definidos.
A ministra Miriam Belchior (Casa Civil) confirmou o projeto em 3 de junho de 2026, durante reunião ministerial.
Ao trocar a agenda de regulação trabalhista da categoria, que travou no Congresso sob resistência de parte dos trabalhadores, por uma linha de crédito, o governo muda a estratégia de aproximação com os entregadores.
JOVENS, HOMENS E DO SUDESTE
O perfil dos entregadores de aplicativos se aproxima de segmentos do eleitorado em que Lula tem desempenho inferior à média.
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 485 mil pessoas usavam aplicativos de entrega de comida e produtos no trabalho principal em 2024, ano mais recente com dados dessa abordagem. Desse total, 274 mil eram entregadores propriamente ditos.
Esse recorte integra o universo mais amplo dos trabalhadores por plataformas digitais de serviços, grupo majoritariamente masculino e concentrado no Sudeste.
De acordo com a IBGE:
- homens eram 83,9% dos ocupados por meio de plataformas digitais de serviços;
- 53,7% estavam no Sudeste;
- 47,3% tinham de 25 a 39 anos;
- 59,3% tinham ensino médio completo ou superior incompleto.
Pesquisa do PoderData, realizada de 25 a 28 de maio de 2026, mostra Lula com desempenho abaixo da média em parte desses grupos.
Entre homens, 53% desaprovavam o governo, ante 45% entre mulheres.
No Sudeste, região que concentra a maior parcela dos trabalhadores por plataformas digitais, 50% desaprovavam Lula, a 2ª maior taxa regional, atrás apenas do Sul. Outros 43% aprovavam.
Entre eleitores com ensino médio, 51% desaprovavam o governo, enquanto 39% aprovavam.
Na faixa de 25 a 44 anos, mais próxima do núcleo etário identificado pelo IBGE, a desaprovação era de 49%, ante 44% de aprovação.
Embora o IBGE aponte 274 mil entregadores propriamente ditos em plataformas de entrega em 2024, esse número tende a subestimar o alcance potencial da medida. Divulgações das próprias empresas indicam uma base maior.
O iFood informou ter chegado a 500 mil entregadores ativos em novembro de 2025. No fim de 2024, segundo a empresa, eram 360 mil.
Já o Banco Central estimou, em setembro de 2025, que o número de trabalhadores por aplicativos de transporte de passageiros e entrega de mercadorias passou de cerca de 770 mil em 2015 para 2,1 milhões no 2º trimestre de 2025.
RENDA MAIOR E RESISTÊNCIA À CLT
Com a nova linha de crédito, o governo muda a abordagem em relação aos entregadores de aplicativo. Em vez de associar a atuação da categoria a novas obrigações trabalhistas, passa a oferecer financiamento para o principal instrumento de trabalho desses profissionais.
A mudança responde à resistência de parte da categoria à formalização nos moldes tradicionais da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), vista por muitos trabalhadores como risco de redução da renda líquida imediata.
Os dados do IBGE ajudam a explicar essa reação. No recorte dos condutores de motocicleta, o rendimento médio mensal real habitual dos trabalhadores por aplicativo era de R$ 2.119, valor 28,2% superior aos R$ 1.653 recebidos por motociclistas que não usavam plataformas.
O ALGORITMO
O argumento técnico que sustenta a formulação do programa econômico se baseia na dependência desses profissionais em relação às empresas de tecnologia.
Os dados da Pnad Contínua mostram que a flexibilidade de horários no setor é limitada por regras das plataformas.
Entre os entregadores, 81,3% dizem não ter poder de decisão sobre o valor recebido por tarefa. Outros 76,8% afirmam que a forma de pagamento é definida integralmente pela empresa.
A indução de comportamento também pesa na rotina. Entre os entregadores, 50,1% relatam que a jornada diária é influenciada por bônus e incentivos dinâmicos que alteram os preços das corridas. Outros 30,5% afirmam estender a jornada por receio de punições ou bloqueios aplicados pelas empresas.
A equipe econômica trabalha para fechar os detalhes do programa, que deve ser anunciado nos próximos dias. A meta é concluir o desenho da linha de crédito antes de 4 de julho.
O Ministério da Fazenda avalia o tamanho do fundo de financiamento e o papel do FGO (Fundo de Garantia de Operações) para reduzir o risco de calote, já que a informalidade no setor é elevada.
O governo também estuda mecanismos para que plataformas como iFood e Rappi atuem na retenção das parcelas diretamente nos repasses aos entregadores. A medida reduziria o risco de inadimplência da operação bancária.
