A recomendação do USTR (Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos, na sigla em inglês) de aplicar tarifas de 25% sobre produtos brasileiros acendeu um alerta entre exportadores, empresários e integrantes do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
A decisão final está prevista para 15 de julho. Especialistas avaliam que o principal risco não está apenas na possível perda de competitividade das empresas, mas também no avanço de questionamentos sobre o ambiente regulatório e institucional brasileiro.
Na 4ª feira (3.jun.2026), o Palácio do Planalto fez reuniões para definir a estratégia de negociação com Washington. O governo avalia que ainda há espaço para reverter a medida por meio de acordos envolvendo temas de interesse dos norte-americanos, como etanol, milho e minerais críticos.
Paralelamente, pretende utilizar politicamente o episódio ao associar o novo tarifaço à aproximação recente do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (Partido Republicano).
A coordenadora de Facilitação de Negócios Internacionais da Fiemg (Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais), Verônica Winter, afirmou que a entidade acompanha o tema com preocupação diante da relevância do mercado norte-americano para as exportações brasileiras.
Segundo ela, o Brasil exportou US$ 37,7 bilhões em bens para os Estados Unidos em 2025. Entre os principais produtos estão café, celulose, ferro-níquel, produtos siderúrgicos, aeronaves e componentes industriais.
“Se implementada, a medida pode reduzir a competitividade dos exportadores, pressionar margens e afetar decisões de produção e investimento”, declarou.
Para Winter, o fato de o processo ainda estar em consulta pública abre espaço para negociações técnicas e diplomáticas. Ela também defendeu cautela na análise das justificativas apresentadas pelos norte-americanos para evitar medidas unilaterais desproporcionais.
Além da tarifa
Para o tributarista Leonardo Roesler, sócio do RCA Advogados, a principal preocupação não está necessariamente na cobrança adicional sobre os produtos brasileiros. “O ponto mais sensível não está apenas na tarifa. Está na justificativa”, afirmou.
Segundo ele, ao relacionar a investigação a temas como decisões judiciais, plataformas digitais, serviços de pagamento eletrônico, propriedade intelectual, etanol e desmatamento, os Estados Unidos ampliam o alcance tradicional de uma disputa comercial.
“A pauta deixa de ser apenas econômica e passa a alcançar escolhas regulatórias internas do Brasil, funcionamento de instituições, política ambiental e desenho de mercado”, declarou.
Na avaliação de Roesler, a medida representa um aumento do risco percebido pelos investidores e reforça a importância de fatores como segurança jurídica, estabilidade regulatória e reputação ambiental para a competitividade internacional.
O relatório do USTR também apontou supostas falhas brasileiras no combate ao trabalho forçado. O documento cita a pecuária bovina como exemplo e afirma que a ausência de uma proibição explícita pode favorecer práticas consideradas desleais pelos norte-americanos.
Alternativas
A possibilidade de confirmação das tarifas já mobiliza empresas exportadoras. O advogado tributarista Luís Garcia, sócio do Tax Group, afirmou que os exportadores deverão buscar alternativas como diversificação de mercados, revisão de contratos e reorganização das cadeias produtivas para reduzir os impactos da medida.
“O problema é que a empresa brasileira passa a sofrer uma dupla penalização: a tributação e os custos internos do Brasil, somados às novas barreiras impostas pelos Estados Unidos”, declarou.
O sócio do BBC Advogados, Marco Aurélio Bottino Jr., disse que o setor privado deverá atuar diretamente nas consultas públicas abertas pelo governo norte-americano para tentar obter exclusões de produtos específicos da tarifa.
LEI DA RECIPROCIDADE
Segundo Bottino, uma eventual retaliação brasileira por meio da Lei da Reciprocidade pode ter custos elevados para a própria indústria nacional. Ele afirmou que medidas contra importações dos Estados Unidos podem encarecer produtos químicos, componentes eletrônicos, máquinas, equipamentos médicos e tecnologias utilizadas pelo setor produtivo brasileiro.
“A resposta brasileira deve priorizar soluções jurídicas e diplomáticas que preservem a competitividade nacional”, declarou.
O conselheiro da Ancord (Associação Nacional das Corretoras e Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários, Câmbio e Mercadorias), Pablo Henrique Spyer, afirmou que o mercado ainda trabalha com a hipótese de negociação.
Segundo ele, a exclusão de itens relevantes da pauta exportadora brasileira, como café, carnes, produtos farmacêuticos, equipamentos aeronáuticos e minerais estratégicos, ajudou a reduzir a percepção de risco e a evitar uma reação mais intensa dos investidores.
