Marty Baron liderou algumas das operações de maior impacto no jornalismo norte americano. Como editor do The Boston Globe, supervisionou a investigação sobre abuso sexual por membros do clero que rendeu ao jornal o Prêmio Pulitzer de Serviço Público em 2003 —trabalho posteriormente retratado no filme vencedor do Oscar “Spotlight”. Como editor-executivo do The Washington Post de 2013 a 2021, supervisionou reportagens que conquistaram 11 Prêmios Pulitzer e expandiu a redação de 580 para quase 1.000 jornalistas.
Desde que se aposentou, Baron acompanhou as dificuldades do The Post —passando por uma transição de liderança conturbada e uma recente onda de demissões em massa. Em outubro de 2024, ele classificou publicamente a decisão do jornal de cancelar o apoio à candidata presidencial Kamala Harris como “covardia, com a democracia como vítima”.
Baron discursou para a turma de 2026 dos bolsistas Nieman sobre o que, em sua opinião, deu errado no The Post, o que a mídia tradicional precisa fazer de diferente e onde ele enxerga áreas de crescimento potencial no setor, mesmo com sua retração e consolidação.
Trechos editados:
Em 4 de fevereiro de 2026, o The Washington Post anunciou demissões que afetaram mais de 300 funcionários —aproximadamente 30% de sua força de trabalho. Você classificou os cortes como “um dos dias mais sombrios” da história do jornal. Como chegamos a essa situação?
As raízes disto remontam a 2018, mais ou menos. Naquela época, era evidente que o The New York Times estava realmente se diversificando. Havia investido dezenas de milhões de dólares em seu aplicativo de culinária. Havia adquirido o Wirecutter. Mencionei tudo isso ao meu editor na época. Eu disse: “Eles estão se preparando para a era pós-Trump. Nós também precisamos nos preparar para a era pós-Trump”. Grande parte do nosso tráfego e das nossas assinaturas era impulsionada pelo trabalho de prestação de contas que estávamos realizando. Uma das coisas que eu disse foi que precisávamos trazer [o proprietário] Jeffrey Bezos para cá e conscientizá-lo sobre nossa situação competitiva. Vivemos em uma época em que talvez haja apenas 1, 2 ou 3 sobreviventes em qualquer setor. Ele nunca trouxe Bezos para essa discussão estratégica. Acho que a atenção de Bezos estava voltada para muitas outras coisas, principalmente quando seu casamento terminou. Depois veio a pandemia.
Quando saí, tínhamos um plano de expansão. Mas, justamente nesse momento, o mercado de publicidade digital entrou em colapso. Provavelmente, eles deveriam ter interrompido a expansão, mas expandiram ainda mais, o que os levou a um enorme rombo financeiro. Esse foi realmente o início dos problemas. Depois, contrataram Will Lewis, e acho que a estratégia dele foi, na minha opinião, em grande parte incompreensível. Certamente, a execução foi desastrosa. Fizeram muitas coisas que alienaram a equipe. Começou a haver uma verdadeira debandada de talentos.
Neste momento, Bezos tem a sensação de que o modelo existente não funciona no atual ambiente de mídia, com IA e todas as outras pressões sobre o setor. Ele disse: “Vamos reformular tudo, torná-lo lucrativo e então veremos para onde vamos e onde investiremos.”
Com o Substack, o TikTok e o YouTube atraindo o público em todas as direções atualmente, como a mídia tradicional pode competir?
Acho que precisamos fazer algumas mudanças. Em 1º lugar, acho importante que cubramos comunidades inteiras e o país inteiro, para que as pessoas se vejam representadas de forma justa em nossa cobertura. Elas acreditarão mais em nós se perceberem que entendemos suas vidas separadamente da política.
Em 2º lugar, acho que precisamos ser muito mais transparentes sobre como realizamos nosso trabalho. Deixem que eles participem do processo. Uma das coisas que a Vice fazia muito bem era permitir que os espectadores acompanhassem o repórter durante toda a reportagem.
A 3ª questão, que nos leva ao problema do TikTok e do YouTube, é que realmente precisamos encontrar uma forma diferente de nos comunicarmos. Todos nós trabalhamos em empresas de comunicação, mas descobrimos que elas são muito ruins em se comunicar com o público da maneira como ele recebe informações hoje em dia.
Precisamos, sim, levar em conta a personalidade dos funcionários. Isso não significa se tornar um formador de opinião, mas sim ter a noção de que não se trata apenas de uma instituição, mas sim de seres humanos. Encontre maneiras de fazer isso, inclusive com vídeos curtos. Mesmo que você tenha uma longa investigação, há uma forma de dividi-la em partes e transformá-la em uma espécie de menu degustação. Vemos isso o tempo todo nas redes sociais. É um trecho de algo que desperta o interesse.
O que está acontecendo com os influenciadores é que eles comunicam autenticidade e, por comunicarem autenticidade, as pessoas acreditam que eles têm autoridade. Na mídia tradicional, sempre focamos na nossa autoridade —o processo de reportagem— que é a prioridade máxima. Não demos a devida atenção à autenticidade. Geralmente temos autoridade, mas as pessoas não nos dão o devido crédito por isso. Precisamos descobrir como fazer isto. Precisamos experimentar, essa é a natureza do nosso tempo.
Como você imagina que será a mídia tradicional daqui a 5 ou 10 anos —e o que isso significa para os jornalistas que desejam trabalhar neste meio?
Acho que a mídia vai ser muito diferente do que é hoje. Os veículos de comunicação serão definidos de forma mais restrita como instituições e terão missões mais específicas. Haverá muito mais deles. Não serão como a BBC —que cobre o mundo todo, um país inteiro ou mesmo uma região inteira. Suas missões serão “cobrir esportes em Boston” ou “cobrir política em Massachusetts”. Algo assim.
Há muita coisa que vai se perder completamente. A cobertura das artes está em grande risco porque não tem um público tão grande. Por outro lado, acho que veremos muitas coisas novas surgindo que farão sucesso.
Haverá fusões como a que vimos com a Paramount, a aquisição da CBS e da CNN. Mas isso é consolidação na parte do mercado de mídia que está encolhendo. Em outras áreas, o mercado está crescendo e se fragmentando mais. Acho que todos os usuários do Substack vão sobreviver? Não. A quantos Substacks você consegue se inscrever? Nem todos vão sobreviver.
Que conselho você daria aos jornalistas que estão pensando no lado comercial da indústria ou que desejam lançar seu próprio empreendimento?
Penso que todos os jornalistas deveriam, em certa medida, considerar-se empreendedores, seja experimentando coisas diferentes dentro de uma organização de notícias, ajudando essa organização a inovar, ou inovando por conta própria.
Aprendi isso logo no início, quando trabalhava no Globe; 2009 foi um ano terrível para nós. E a The New York Times Company ameaçava fechar o Boston Globe, então os funcionários tiveram que aceitar cortes de 20% em seus salários. Foi um período muito amargo.
Fui falar com o chefe de uma empresa de publicidade digital e disse: “Olha, você pode me explicar todo o modelo de publicidade? Porque eu não acredito no pessoal da nossa publicidade e não tenho certeza se eles sabem o que estão fazendo.” Ele respondeu: “A internet é o negócio das paixões. Qual é a paixão sobre a qual você vai escrever que realmente possa gerar receita, que as pessoas estejam dispostas a pagar para ler?” É um negócio de nichos.
Você precisa pensar em termos de valor. Eu dividiria o valor em duas categorias. Uma é o valor utilitário, o quão úteis somos hoje para nossos leitores na prática, e a 2ª é o valor psicológico —as pessoas querem que seus veículos de comunicação responsabilizem as pessoas no poder. Portanto, o valor psicológico e o valor utilitário são as duas áreas em que precisamos nos concentrar todos os dias. Se é isso que você faz, ou se trabalha sozinho, você também precisa pensar nisso.
Quais publicações de nicho estão se saindo bem no momento?
Tem havido muita cobertura excelente no mundo da tecnologia. Acho que isso é realmente necessário. A Wired fez uma ótima cobertura. Eles têm textos e apresentações envolventes. Nossas vidas são muito influenciadas pela tecnologia e… Onde quer que eu vá, todo mundo fala sobre IA.
A tecnologia vai influenciar nossas vidas de uma forma fundamental e profunda. E escrever sobre isso, sobre quem está por trás dela, quem a financia, quem se beneficia dela, como você pode usá-la a seu favor, como construir uma carreira nessa área –tudo isso, para mim, é a área de crescimento.
Texto traduzido por Lígia Saba. Leia o original em inglês.
O Poder360 tem uma parceria com duas divisões da Fundação Nieman, de Harvard: o Nieman Journalism Lab e o Nieman Reports. O acordo consiste em traduzir para português os textos do Nieman Journalism Lab e do Nieman Reports e publicar esse material no Poder360. Para ter acesso a todas as traduções já publicadas, clique aqui.
