A recomendação do governo dos Estados Unidos para impor uma tarifa adicional de 25% sobre parte dos produtos brasileiros pode atingir 21% das exportações do país ao mercado norte-americano. Depois de uma reunião ministerial, nesta 3ª feira (2.jun.2026), o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou que seguirá negociando para evitar a medida.
O percentual foi apresentado pelo ministro do MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços), Márcio Elias Rosa, durante entrevista a jornalistas após a reunião.
Segundo ele, cerca de 54% das exportações brasileiras para os Estados Unidos já estão fora do alcance das medidas em discussão e outros 25% são atingidos por regras específicas da chamada Seção 232. Os 21% restantes ficariam expostos caso a recomendação do USTR (Escritório do Representante de Comércio dos EUA) seja transformada em tarifa efetiva.
Os setores mais afetados seriam máquinas e equipamentos, plásticos, produtos de madeira, papel e cartão, calçados, ferro fundido, peixes e crustáceos.
Apesar da escalada da tensão comercial, o governo diz acreditar que ainda há espaço para um entendimento. O vice-presidente, Geraldo Alckmin, afirmou que o caminho continuará sendo o diálogo. “Não tem tema proibido. O caminho é o caminho do diálogo”, declarou.
Representantes dos governos brasileiro e norte-americano devem voltar a se encontrar nos próximos dias em Paris, durante evento da OCDE. As negociações seguem até 15 de julho, data para o encerramento da investigação aberta pelos Estados Unidos contra práticas comerciais brasileiras.
O que o Brasil aceita negociar:
- demandas relacionadas ao comércio digital;
- questionamentos sobre a atuação de big techs no Brasil;
- acordos comerciais do Mercosul com Índia e México;
- tarifas e acesso a mercados;
- propostas apresentadas durante a consulta pública da investigação.
O que o governo considera inegociável:
- Pix;
- soberania do sistema financeiro brasileiro;
- políticas nacionais de combate ao crime organizado;
- decisões internas relacionadas ao combate ao desmatamento;
- temas considerados estratégicos para a soberania nacional.
Para o governo, a ameaça de uma tarifa adicional de 25% faz parte da estratégia americana para ampliar seu poder de barganha antes da conclusão das negociações. O Planalto considera que a recomendação funciona como instrumento de pressão para arrancar concessões do Brasil.
Ao mesmo tempo, o governo estabeleceu limites para as conversas. “O Pix não está na mesa de negociação. Não há hipótese para isso”, afirmou Elias Rosa.
A expectativa do governo é que a recomendação do USTR não seja convertida em tarifa efetiva. Até lá, a estratégia será manter as negociações com Washington e envolver empresas brasileiras e americanas.
GOVERNO REBATE EUA
Em nota divulgada após a reunião, o governo manifestou “indignação” com a conclusão preliminar da investigação da Seção 301 e afirmou que não há justificativa econômica para as medidas. O texto afirma que os Estados Unidos acumulam superavit de US$ 424,5 bilhões no comércio de bens e serviços com o Brasil nos últimos 15 anos.
O governo também voltou a associar a investigação a articulações da família Bolsonaro junto a autoridades americanas. A nota afirma que a abertura do processo, em julho de 2025, ocorreu por “provocação da família Bolsonaro” e cita a recente viagem do senador Flávio Bolsonaro a Washington.
Durante a coletiva, Alckmin afirmou que “falsos patriotas sabotadores” colocam interesses eleitorais acima dos interesses nacionais sempre que as negociações avançam.
O governo também rebateu os principais argumentos apresentados pelos Estados Unidos na investigação.
O vice-presidente argumentou que a relação comercial favorece os Estados Unidos. Segundo ele, 8 dos 10 produtos mais exportados pelos norte-americanos ao Brasil entram no país com tarifa zero e a alíquota média efetiva aplicada aos produtos dos EUA é de 3,1%.
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