O cardiologista Roberto Kalil Filho tomou posse nesta 6ª feira (22.mai.2026), na presença de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), como integrante titular da ANM (Academia Nacional de Medicina). É a 1ª vez, que um presidente da República participa da cerimônia da instituição. Em seu discurso, Kalil defendeu o SUS (Sistema Único de Saúde), criticou a desinformação e afirmou que a medicina deve preservar seu caráter humanista mesmo diante dos avanços tecnológicos. Leia a íntegra do discurso de Kalil [PDF – 80kB].
Kalil criticou a espetacularização da medicina e alertou para os riscos da desinformação em temas de saúde. Segundo ele, médicos precisam “defender a ciência sem arrogância” e “combater a desinformação sem perder a capacidade de diálogo”.
O médico ainda afirmou que os avanços tecnológicos não substituem a dimensão humana da profissão. “A tecnologia transforma a prática médica, e é magnífico que o faça. Mas não substitui a compaixão. Não substitui a escuta empática. Não substitui a responsabilidade moral diante do sofrimento alheio”, disse.
Leia abaixo a íntegra do discurso:
“Com a devida licença, na pessoa do excelentíssimo senhor presidente da república, Luiz Inácio Lula da Silva, e na pessoa do excelentíssimo senhor presidente da academia nacional de medicina, acadêmico Antonio Egídio Nardi, cumprimento as distintas autoridades e os ilustres convidados aqui presentes.
“Onde quer que vá, entrarei para o bem dos doentes, juramento de Hipócrates, século v a.c. Vinte e cinco séculos separam essas palavras desta noite. E, no entanto, elas soam como se tivessem sido escritas para este momento.
“Atravessar o pórtico desta academia não é apenas cumprir um rito; é renovar, diante dos pares mais ilustres da medicina brasileira, o mesmo juramento que os médicos de todos os tempos fizeram ao escolher esta profissão, fazendo desta uma forma de vida.
“Esta casa, fundada há quase dois séculos, existe para guardar aquele juramento. garantir em cada geração que a medicina brasileira tenha vozes capazes de lembrá-lo; com rigor científico, autoridade ética e coragem intelectual. Vivemos um momento paradoxal. nunca a ciência avançou tão rapidamente.
“Nunca fomos capazes de intervir com tamanha precisão. Nunca enxergamos tão fundo na biologia da vida. No entanto, algumas inquietações permanecem as mesmas e atravessam a prática médica há séculos: a fragilidade humana, a busca por sentido diante da dor e outros sofrimentos ou a presença da solidão que maltrata.
“São aflições que, sabemos, nenhum algoritmo é capaz de dissolver. A medicina não é apenas ciência sobre doenças. É, na sua dimensão mais profunda, experiência humana diante da incerteza.
“Tentativa permanente de produzir luz. Estar presente quando a dor atravessa a escuridão. levar conhecimento onde há medo.
“Sempre temos de recordar que ciência e humanismo nã podem caminhar separados, se assim o fosse, a medicina perderia a sua alma.
“Contudo, há momentos na vida de um médico em que o tempo parece desacelerar. esta noite é um deles. Ao atravessar o anfiteatro Miguel Couto como novo acadêmico desta casa quase bicentenária, sinto mais que a emoção de uma conquista pessoal.
“Sinto o peso de cada passo dado por aqueles que, desde 1829, compreenderam a medicina além de uma profissão. Souberam transformar o ato de cuidar em missão dedicada, compromisso ético e incumbência científica.
“Esta casa atravessou quase dois séculos mantendo relevância intelectual, autoridade ética e responsabilidade com o país.
“Fundada sob a égide do império, e consolidada na república, acompanhou epidemias, revoluções científicas e transformações profundas da própria ideia de cuidar. E hoje vive nesta época marcada pela velocidade da informação e pela liquidez das certezas.
“A academia nacional de medicina é um raro espaço no qual ainda se pensa com profundidade e onde o conhecimento se amplia subordinado à ética.
“Depois de mais de quatro décadas dedicadas ao cuidado de pacientes, ao ensino e à pesquisa, ser acolhido por meus pares nesta casa é uma das maiores honrarias de minha
trajetória.
“Recebo esta distinção com profundo senso de responsabilidade. A medicina é uma obra inacabada.
“Todo reconhecimento verdadeiro deve tornar-nos mais conscientes de nossas obrigações, não das nossas vaidades.
“Se vi mais longe, foi por estar sobre os ombros de gigantes.” Relembrava Isaac Newton, citando os antigos.
“Nenhum médico constrói sozinho uma trajetória sólida. Somos formados pelos mestres que nos inspiram, pelas instituições que nos acolhem e pelos pacientes que nos ensinam o que nenhum livro alcança.
“Reverencio, nesta noite, aqueles que ajudaram na minha formação e a construir a instituição de onde provenho — cito, em especial os professores Luiz Decourt, Euryclides Zerbini, Giovanni Bellotti, Fulvio Pileggi e Adib Jateneobre, seus ombros me apoio ao dar este passo.
“Assumo a cadeira nº 1 da secção de medicina. Ela pertenceu a pessoas que não apenas exerceram a medicina brasileira com excelência, mas a interpretaram em seus diferentes tempos históricos.
“João Carlos Teixeira Brandão, Antônio Augusto Ferreira da Silva, Gilberto de Moura Costa, Artidônio Pamplona, Raphael Garcia Pardellas, Lafayette Silveira Martins, Rodrigues Pereira, Pedro Alves da Costa Couto e José Mnoel Jansen.
“Todos compreenderam que a medicina ultrapassa os limites do consultório, do hospital e mesmo da universidade.
“Cuidar da saúde também significa pensar o país. Recebo essa tradição com humildade e o desejo genuíno de honrá-la e perpetuá-la.
“O patrono desta cadeira é o Dr. Joaquim Cândido Soares de Meirelles.
“Evocar seu nome é retornar ao desafio fundador: o brasil precisaria, desde o princípio, da medicina não apenas praticada, mas também pensada. Formado em paris, com duplo título de doutor em medicina e cirurgia. Vsionário e reformador, logo compreendeu que a medicina do brasil deveria ser institucional, científica e socialmente compromissada.
“Contemporâneo das grandes epidemias que assolaram o Rio de Janeiro imperial, Joaquim Cândido não ficou à beira do leito esperando que a ciência chegasse de fora, ajudou a construí-la aqui, com o que havia disponível e com muito do que faltava.
“Há, nessa escolha algo que admiro profundamente: a coragem de realizar antes de se ter toda a certeza; de fundar onde ainda não havia chão firme.
“Ajudou a fundar a sociedade de medicina do Rio de Janeiro, embrião desta academia, e defendeu a medicina como instrumento de civilização, seu legado permanece atual.
“Toda geração médica enfrenta o risco de se deslumbrar excessivamente com a tecnologia e esquecer que o verdadeiro centro da medicina é o ser humano.
“A tecnologia transforma a prática médica, e é magnífico que o faça. mas não substitui a compaixão. Não substitui a escuta empática. Não substitui a responsabilidade moral diante do sofrimento alheio. Suceder ao acadêmico José Manoel Jansen representa, para mim, grande honra.
“Mestre da clínica médica e da pneumologia, Dr. Jansen pertenceu a geração que compreendia a semiologia quase como uma forma de arte intelectual.
“Sua elegância, sobriedade e profunda valorização do paciente como pessoa, deixaram marcas permanentes em seus alunos e colegas. Assumo esta cadeira comprometido em preservar esses valores. Também faço uma homenagem à memória do acadêmico
silvano raia, recentemente falecido.
“Professor Silvano Raia foi pioneiro absoluto: um homem cuja coragem científica abriu caminhos inéditos para a medicina brasileira e mundial nos transplantes de fígado. Demonstrou que a verdadeira inovação exige muito mais do que domínio técnico. Exige a capacidade de imaginar aquilo que ainda não existe e de persistir mesmo quando o futuro parece improvável.
“Não por acaso intitulou seu último livro, publicado em 2025: “o impossível é apenas o começo.” A frase é quase uma síntese de sua própria vida.
“Agradeço aos acadêmicos que me introduzem nesta casa e que, com tanta generosidade, me acolheram ao longo
desta caminhada: Alexandre Siciliano, Eliete Bouskela, Francisco Sampaio, Mônica Gadelha, Paulo Niemeyer Filho, Tarcísio de Barros Filho e especialmente o professor Carlos Giesta.
“Em diferentes momentos, cada um de vocês, assim como todos os acadêmicos, tornou esta travessia mais leve e significativa. Recebam minha gratidão, meu respeito e meu afeto.
“Faço um agradecimento especial ao meu paraninfo, o acadêmico Fábio Biscegli Jatene.
“Cirurgião admirado internacionalmente, professor titular de cirurgia cardiovascular da Fmusp, mestre de gerações e amigo querido, Fábio é a rara combinação entre excelência técnica, liderança serena e profunda humanidade.
“Conheci o professor Fabio há cerca de 35 anos, e logo compreendi algo que nunca mais me abandonou: os pacientes talvez não consigam avaliar toda a dimensão técnica de um médico — mas reconhecem imediatamente humanidade, atenção e dignidade no cuidado. Essa lição permanece comigo.
“E talvez seja justamente isso que faz dos médicos referências duradouras: não apenas o que realizam com as mãos ou com inteligência, mas a confiança e a esperança que despertam nos momentos de maior fragilidade. Obrigado, querido Fábio, pela amizade, exemplo e generosidade que sempre marcaram sua presença na minha vida.
“Minha história confunde-se, em muitos aspectos, com a de tantos médicos e pesquisadores brasileiros que dedicaram suas vidas à construção da medicina em nosso país.
“Nasci em São Paulo, em 1959. Desde muito cedo soube que seria médico, antes mesmo de compreender plenamente a dimensão da profissão, intuía que a medicina era menos uma escolha de carreira e mais uma forma de estar no mundo.
“Ao longo da vida profissional transitei entre a medicina pública e a privada; entre a assistência, o ensino, a pesquisa e a comunicação com a sociedade.
“Cuidei de milhares de pessoas, de pacientes anônimos e de figuras públicas, de jovens e de idosos, de pessoas simples e de chefes de estado.
“A medicina me ensinou, repetidamente, que a doença possui a capacidade impressionante de igualar todos os seres humanos em sua vulnerabilidade. Diante do sofrimento, desaparecem cargos, títulos e poder. O que permanece é a condição humana, o que somos.
“Aprendi que a medicina não se encerra nos consultórios ou nos hospitais. Médicos são chamados, cada vez mais, a ajudar a sociedade a compreender riscos, medos, limites e esperanças. Em tempos de informação instantânea e desinformação crescente, uma responsabilidade que exige equilíbrio delicado.
“A medicina não pode se transformar em espetáculo. E não pode se afastar da sociedade. Precisamos defender a ciência sem arrogância. Combater a desinformação sem perder a capacidade de diálogo. Preservar o rigor científico sem abandonar a sensibilidade humana. Vivemos um momento contraditório.
“Nunca tivemos tantos recursos diagnósticos e terapêuticos, e nunca foi tão necessário reafirmar princípios fundamentais. A inteligência artificial, a medicina de precisão e os algoritmos ampliam nossas possibilidades.
“Elas não substituem o juízo clínico ou a obrigação da prática ética. A clínica permanece o centro moral da medicina.
“Talvez seja exatamente nesse espaço — entre conhecimento e incerteza — que o ser médico continue sendo uma atividade profundamente humana.
“O julgamento clínico é mais que o processamento de dados. É presença. E é aqui que a academia nacional de medicina tem um papel insubstituível. Ao nos aproximarmos do bicentenário desta instituição, creio que a academia tem diante de si uma responsabilidade que vai além do debate interno entre pares. O país precisa de vozes que falem de ciência sem demagogia. De saúde sem populismo.
“De medicina, como antes disse, sem espetáculo. Vozes que defendam o sistema único de saúde e o direito universal à saúde como imperativo ético. Os jovens médicos precisam encontrar nesta casa mais que prestígio, mas um espaço de interlocução. As universidades precisam encontrar parceria. Os gestores públicos precisam encontrar evidência e
credibilidade científica.
“A sociedade precisa encontrar uma instituição disposta a falar a verdade, mesmo quando ela é inconveniente. O brasil precisa voltar a ouvir mais a sua academia nacional de medicina. e a academia precisa desejar ocupar esse espaço, pelo compromisso com o país. Ciência sem ética é perigosa. tecnologia sem humanismo é vazia.
“A história nos deu exemplos de ambos. a missão desta casa é garantir que o progresso da medicina permaneça servindo da vida humana. Ao assumir esta cadeira, coloco minha experiência clínica, acadêmica e institucional integralmente à disposição desta casa.
“Comprometo-me a honrar sua tradição, fortalecer sua presença pública e contribuir para que continue sendo referência ética, científica e intelectual para o país.
“Finalizo com gratidão. À minha família, pelo amor e pelo apoio incondicional, alicerce de tudo que construí. Aos meus mestres, que ajudaram a formar minha consciência médica.
“A minha equipe, que divide comigo as responsabilidades, as angústias e as alegrias desta profissão. Aos pacientes. sempre aos pacientes. foram eles, ao longo de toda minha vida, meus maiores ensinantes.
“A caminhada que me trouxe até aqui também me permitiu conhecer mais profundamente a riqueza humana desta academia. Santo Agostinho escreveu: “ninguém ama aquilo que não conhece.”
“Hoje posso dizer que aprendi a amar esta casa porque tive a oportunidade de conhecer os homens e mulheres que lhe dão vida. Mesmo em tempos difíceis, diante das perturbações de cada época, a medicina continua sendo uma das mais belas formas de defesa da vida, da dignidade humana e da esperança coletiva.
“Parafraseando meu amigo Gilberto Gil, aqui presente, termino com esperança.
“Contra a treva física e moral, que haja ao menos a chama de uma vela até chegarmos à luz do luar… …se a noite inventa a escuridão, a luz inventa o luar. o olho da vida inventa a visão: doce clarão sobre o mar.”
“Que eu sustente a dignidade da cadeira que hoje passo a ocupar. Muito obrigado.”
PRESENTES NA CERIMÔNIA
Além de Lula, participaram também da cerimônia:
- Janja Lula da Silva – primeira-dama;
- Geraldo Alckmin – vice-presidente;
- Lu Alckmin – vice-primeira-dama;
- Alexandre Padilha – ministro da Saúde;
- Alexandre Silveira – ministro de Minas e Energia;
- Nísia Trindade – ex-ministra da Saúde;
- Ricardo Couto de Castro – governador interino do Rio de Janeiro;
- Luis Felipe Salomão – vice-presidente do STJ (Superior Tribunal de Justiça);
- Alexandre de Moraes – vice-presidente do STF;
- Viviane Barci de Moraes – advogada e mulher de Alexandre de Moraes;
- Eduardo Cavaliere – prefeito do Rio;
- Gilberto Kassab – presidente nacional do PSD;
- Moreira Franco – ex-governador do Rio de Janeiro;
- Aloizio Mercadante, – presidente do BNDES;
- Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay – advogado e articulista do Poder360;
- José Seripieri Filho – dono da Amil;
- Gilberto Gil – músico e compositor;
- Flora Gil – empresária e mulher de Gilberto Gil;
- Jorge Moll – presidente do Conselho de Administração da Rede D’Or;
- Marco Aurélio Carvalho – advogado do Grupo Prerrogativas
- David Uip – médico infectologista
