O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, decidiu autorizar a volta de Daniel Vorcaro para uma cela especial na Superintendência da Polícia Federal em Brasília. A mudança se deu depois de 2 fatos: 1) a reclamação de Vorcaro sobre as condições do local onde estava, com vaso sanitário no chão e um cano de água fria para tomar banho e 2) dispensa do advogado José Luis Oliveira Lima, o Juca, que cuidava da defesa e da eventual delação premiada do fundador do Banco Master.
A relação entre Juca e André Mendonça estava completamente deteriorada. Numa audiência recente, o magistrado disse ao advogado que esperava uma delação mais “verdadeira” de Vorcaro. Ao ouvir essa ressalva ao que estava sendo preparado, Juca respondeu em tom desafiador que, caso Mendonça rejeitasse a delação, recorreria à 2ª Turma do STF –sugerindo que teria maioria para manter a proposta de Vorcaro.
Mendonça logo depois retirou Vorcaro da cela especial em que estava na PF (com ar condicionado e janela, entre outras comodidades) e o transferiu para a cela comum. Agora, com Juca fora da defesa, Vorcaro voltou para a cela mais confortável.
O processo de delação está em fase de paralisação. André Mendonça identificou a estratégia inicial de Vorcaro e de seu advogado e não gostou. Para o ministro, a intenção do fundador do Master era apenas fazer relatos epidérmicos sobre o que havia protagonizado e protegendo muitas autoridades. Por exemplo, Vorcaro não dizia nada sobre suas relações com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP). Tampouco revelava os detalhes de contatos com o Banco Central e com integrantes do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Vorcaro também chegou a propor, por meio de Juca nas conversas sobre a delação, devolver R$ 40 bilhões. Depois, sugeriu que poderiam ser devolvidos até R$ 60 bilhões. Mas tudo ao longo de 10 anos. O prazo extremamente elástico, na opinião dos investigadores, foi considerado uma estratégia de ganhar tempo: sair da cadeia, interpor recursos sucessivos na Justiça e tentar melar todo o processo em algum tempo –o que tem sido a praxe em escândalos recentes no Brasil, com foi o caso da Lava Jato, em que todas as empresas e políticos têm conseguido anular suas condenações e até receber dinheiro de volta.
Neste momento, a Polícia Federal (que é comandada pelo ex-guarda-costas de Lula na campanha de 2022, Andrei Rodrigues) já decidiu pela rejeição da proposta de delação de Vorcaro. A Procuradoria Geral da República, que também acompanha o processo, ainda não opinou. A palavra final será de André Mendonça, que é relator do caso Master no STF.
Agora, com a saída do advogado Juca da defesa de Vorcaro, a expectativa é que o banqueiro contrate uma nova equipe que possa orientá-lo a apresentar mais provas em sua delação. Só assim terá chance de ter uma resposta positiva de André Mendonça. Há 2 aspectos relevantes e que serão levados em conta: 1) a devolução de dinheiro de forma imediata e 2) a inclusão de relatos sobre relações impróprias com autoridades de todo o espectro político, bem como também o que pode ter ocorrido nas relações entre Master e órgãos regulatórios, como Banco Central e CVM (Comissão de Valores Imobiliários).
