O governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) coleciona, desde o início do 3º mandato, uma sequência de recuos em medidas que provocaram forte reação negativa da opinião pública, do Congresso, do mercado financeiro ou de setores econômicos.
Em diferentes momentos, o Planalto precisou rever propostas depois de desgaste político, pressão nas redes sociais ou risco de perda de apoio popular. Os episódios vão da revogação da chamada “taxa das blusinhas” ao “pixgate”.
Embora integrantes do governo argumentem que parte das críticas foi impulsionada por campanhas de desinformação ou exploração política da oposição, aliados de Lula afirmam que houve falhas. É o caso das blusinhas, por exemplo.
Eis o levantamento do Poder360 dos recuos do Lula 3:

O levantamento do Poder360 levou em consideração as ações e medidas que foram anunciadas pelo governo e que, depois, o Planalto voltou atrás por pressão política ou avaliação interna.
Saque-aniversário do FGTS
O 1º grande recuo político do governo Lula ocorreu ainda em 2023, quando o Ministério do Trabalho tentou avançar com o fim do saque-aniversário do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço).
Criada no governo de Jair Bolsonaro (PL), a modalidade permite ao trabalhador sacar anualmente parte do saldo do fundo em troca da perda do direito ao saque integral em caso de demissão sem justa causa.
O ministro do Trabalho, Luiz Marinho, criticava o modelo desde o início do mandato. O argumento da equipe era que o saque-aniversário enfraquecia o FGTS como instrumento de financiamento habitacional e saneamento, além de reduzir a proteção ao trabalhador demitido.
“Quando se estimula, como esse irresponsável e criminoso desse governo que terminou, sacar em todos os aniversários, quando o cidadão precisar dele [do FGTS], não tem”, disse Marinho em 2023.
O governo chegou a preparar propostas para extinguir a modalidade. A reação, porém, foi imediata: bancos privados pressionaram contra a mudança porque haviam transformado a antecipação do saque-aniversário em uma linha bilionária de crédito; congressistas também alertaram o Planalto sobre o desgaste potencial com trabalhadores que já utilizavam o mecanismo.
Integrantes do governo passaram a temer que a mudança fosse interpretada como retirada de um benefício popular. Diante da resistência política, Lula decidiu segurar a proposta.
Novo RG
Em abril de 2023, o governo criou um grupo de trabalho para discutir a exclusão dos campos de sexo e nome social no novo modelo da CIN (Carteira de Indentidade Nacional). A medida foi apresentada como uma forma de tornar o documento mais inclusivo para pessoas trans.
A decisão, porém, gerou reação de setores conservadores. Em dezembro do mesmo ano, o Ministério da Gestão decidiu manter separados os campos “nome de registro” e “nome social”, além de preservar a identificação de sexo no documento. O modelo final acabou seguindo o padrão criado no governo Bolsonaro.
Folha de pagamentos
Outro episódio de recuo se deu na disputa sobre a MP 1.202/2023, que trata da compensação tributária e da reoneração da folha de pagamento. Em fevereiro de 2024, Lula revogou o trecho da medida provisória que tratava da reoneração da folha das empresas. O governo manteve os dispositivos ligados à compensação tributária e ao Perse (Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos).
Quando foi publicada pelo governo em dezembro de 2023, os líderes do Senado pediram que o ex-presidente da Casa Ata Rodrigo Pacheco (PSD-MG) devolvesse a MP. O congressista discutiu com o governo e aprimorou o texto para agradar os demais senadores, ocasionando na revogação de trechos da medida.
A comissão mista responsável pela análise da MP aprovou uma versão do texto restrita às regras de compensação tributária para empresas com créditos obtidos na Justiça. Os trechos que tratavam da reoneração da folha e do Perse acabaram retirados depois das negociações entre governo e Congresso.
Aborto legal
No mesmo mês das mudanças na MP, o Ministério da Saúde voltou atrás em uma nota técnica sobre o aborto legal. O documento revogava uma orientação criada no governo anterior que estabelecia o limite de 21 semanas e 6 dias de gestação para a realização do procedimento nos casos previstos em lei. A nova orientação afirmava que a legislação brasileira não estabelece marco temporal para o aborto legal.
A medida provocou reação imediata de congressistas da oposição e de grupos conservadores nas redes sociais. A deputada Carol de Toni (PL-SC), por exemplo, afirmou em publicação em seu perfil no X que a “agenda morte” avançou “mais um passo no governo Lula”.
A então ministra da Saúde, Nísia Trindade, decidiu suspender a nota menos de 24 horas depois da publicação. O ministério afirmou que o texto “não passou por todas as esferas necessárias e nem pela consultoria jurídica”.
“Pixgate” e a disputa das redes
O episódio mais traumático para o governo na área de comunicação aconteceu em janeiro de 2025, com a crise envolvendo o Pix.
A Receita Federal ampliou regras de monitoramento de movimentações financeiras para reforçar o cruzamento de dados fiscais. A medida atingia bancos digitais, fintechs e instituições de pagamento.
Na prática, o governo afirmava que não havia criação de imposto nem tributação sobre transferências via Pix. O objetivo oficial era apenas ampliar a fiscalização para combater sonegação.
A medida saiu rapidamente do controle político do Planalto. Nas redes sociais, viralizaram mensagens afirmando que o governo criaria uma “taxa do Pix” ou passaria a cobrar imposto sobre transferências entre pessoas físicas.
Vídeos, correntes de WhatsApp e publicações de influenciadores impulsionaram a crise. Em poucos dias, o assunto dominou o debate político digital.
Integrantes do governo reconheceram que houve demora na reação oficial e falha na comunicação pública. A crise atingiu um dos meios de pagamento mais populares do país. Diante da repercussão negativa, o governo decidiu revogar as normas.
A oposição transformou o episódio em símbolo da fragilidade digital do governo. O vídeo do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) sobre o tema, por exemplo, chegou a mais de 300 milhões de visualizações.
Internamente, ministros passaram a tratar o “pixgate” como um divisor de águas na estratégia de comunicação do Planalto para temas econômicos. Foi a 1ª crise do atual ministro da Secom (Secretaria de Comunicação), Sidônio Palmeira.
Aumento na mistura do biodiesel
Outro recuo do governo Lula se deu em janeiro de 2025, na política de biocombustíveis. O Planalto decidiu congelar o aumento da mistura obrigatória de biodiesel no diesel, previsto para entrar em vigor em março daquele ano.
A elevação do percentual fazia parte do cronograma do programa Combustível do Futuro e havia sido aprovada pelo CNPE (Conselho Nacional de Política Energética) ainda em 2023. A previsão era elevar a mistura de 14% para 15% como parte da estratégia de transição energética do governo.
Em fevereiro de 2025, o CNPE decidiu manter temporariamente a mistura em 14%. O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, afirmou que a decisão visava a evitar a alta no preço dos combustíveis.
Imposto sobre eletrônicos
Em fevereiro de 2026, o governo Lula elevou o imposto de importação de cerca de 1.000 produtos eletrônicos. Na época, o Ministério da Fazenda afirmou que o objetivo era conter o avanço das importações e proteger a indústria nacional.
Dias depois, o comitê da Camex (Câmara do Comércio Exterior) decidiu zerar a tarifa de importação de 105 dos produtos que haviam sido taxados.
O recuo se deu após uma forte reação nas redes sociais. A mudança nas tarifas foi orientada pelo ministro Sidônio.
“Taxa das blusinhas”
O recuo mais recente do governo foi a revogação da chamada “taxa das blusinhas”.
A tributação sobre compras internacionais de pequeno valor havia sido defendida pelo governo como forma de combater a concorrência desleal contra varejistas nacionais e aumentar a arrecadação.
A medida atingia principalmente consumidores que compravam produtos baratos em plataformas asiáticas, como Shein, Shopee e AliExpress. Desde o início a proposta enfrentou forte rejeição popular.
Consumidores passaram a associar a medida ao encarecimento de roupas, acessórios, eletrônicos e itens de baixo custo comprados pela internet. Nas redes sociais, a tributação virou alvo constante de críticas e memes.
Pesquisas internas do governo indicaram desgaste. Auxiliares de Lula passaram a avaliar que a medida havia se tornado um símbolo negativo do governo, diante da pressão sobre o custo de vida.
O Planalto então decidiu revogar a taxação antes das eleições. A avaliação interna era que o custo político da manutenção da medida havia se tornado maior do que o potencial arrecadatório.
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