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Urnas eletrônicas completam 30 anos sob clima de desconfiança

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 3 horas)
Urnas eletrônicas completam 30 anos sob clima de desconfiança

As urnas eletrônicas completam 30 anos em maio de 2026, em um cenário de desconfiança com relação à sua segurança. Segundo levantamento da Genial/Quaest divulgado em 15 de fevereiro de 2026, 43% dos brasileiros dizem não confiar no sistema de votação, enquanto 53% afirmam confiar. Além disso, 3 dos 12 pré-candidatos à Presidência nas eleições deste ano criticam o modelo.

Para marcar o aniversário de 3 décadas do sistema eletrônico de votação e reafirmar sua segurança e transparência, o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) realiza na 2ª feira (4.mai.2026) um evento comemorativo com foco no combate à desinformação.

A desconfiança nas urnas não é recente. Ao logo destes 30 anos de operação, o sistema eletrônico foi criticado —sempre sem apresentação de provas— por políticos de diversas orientações ideológicas. Do pedetista Leonel Brizola (1922-2004) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a Aécio Neves (PSDB) e Jair Bolsonaro (PL), diferentes lideranças já levantaram dúvidas sobre o modelo, sobretudo após derrotas eleitorais ou em meio a disputas acirradas.

Veja quais políticos já criticaram as urnas eletrônicas:

O primeiro caso de destaque ocorreu em 2014, quando o então candidato derrotado à presidência Aécio  solicitou auditoria do sistema depois de ser batido pela petista Dilma Rousseff (PT). Na ocasião, nenhuma prova de fraude foi apresentada pelo tucano e nenhuma inconsistência foi encontrada pelo TSE.

Mas foi à partir de 2018 que as críticas se tornaram recorrentes e passaram a fazer parte do debate público. Nestes anos recentes, boa parte dos questionamentos sobre a segurança do sistema eleitoral eletrônico partiu de um grupo político que se elegeu dezenas de vezes com o equipamento.

O ex-presidente Bolsonaro (PL) e seus filhos mais velhos, o senador Flávio (PL-RJ), o ex-deputado federal Eduardo (PL-SP) e o ex-vereador Carlos (PL-RJ) foram eleitos, respectivamente, 6, 5, 3 e 6 vezes com as urnas eletrônicas. Apesar disso, o clã e seu entorno se tornaram críticos vocais do sistema de votação.

Sem apresentar provas, Bolsonaro começou a afirmar que poderia haver fraude nas urnas em 2018, declarações que continuaram até o término de seu mandato. A Justiça Eleitoral rejeitou as ações apresentadas pelo ex-presidente e por seu partido, e auditorias não identificaram inconsistências capazes de alterar o resultado. 

“A urna eletrônica é um sistema de difícil compreensão para o cidadão comum, e essa complexidade é terreno fértil para a desinformação nas redes sociais. Há, inegavelmente, uma dimensão política nesse processo: a desconfiança foi instrumentalizada por agentes que encontraram nela uma pauta mobilizadora”, afirmou, em entrevista ao Poder360, Ricardo Vita Porto, presidente Comissão de Direito Eleitoral da OAB-SP.

De acordo com Porto, o ordenamento eleitoral sempre previu mecanismos para impugnar eleições contaminadas por fraude. “Esses instrumentos foram concebidos para coibir as fraudes do sistema em papel — e eram amplamente utilizados, porque o problema era real e documentado”, diz.

As urnas eletrônicas foram adotadas neste contexto de sucessivos problemas registrados no modelo anterior de votação, como manipulação na contagem de votos e inconsistências no cadastro de eleitores. O sistema eletrônico mudou o quadro: “Em 30 anos, nenhuma ação judicial teve sucesso em comprovar fraude com aptidão para alterar o resultado de uma eleição”.

As acusações de fraude nas urnas eletrônicas sem acompanhamento de provas são, na visão de Porto, um problema. “O direito brasileiro não criou norma específica para punir quem alega fraude nas urnas sem respaldo probatório. Na nossa avaliação, seria positivo distinguir, com clareza, a fiscalização responsável da instrumentalização do processo para fins exclusivamente políticos. Então seria salutar que o legislador avançasse na regulamentação específica dessa matéria”. 

Implementação das urnas eletrônicas

A informatização do voto no Brasil teve início formal em 4 de maio de 1995, quando o TSE instituiu a Comissão de Informatização do Voto. O grupo estruturou o projeto que resultou na implementação das urnas eletrônicas no ano seguinte, e elas foram utilizadas pela 1ª vez em 1996, nas eleições municipais. Em 2000, o sistema eletrônico passou a abranger todo o eleitorado brasileiro.

Desde então, o modelo foi atualizado com a incorporação de novos mecanismos de segurança, como identificação biométrica e sistemas de criptografia. O processo inclui testes públicos de segurança, verificação de integridade das urnas no dia da votação e emissão do boletim de urna ao final da apuração.

Em 2002, a Justiça Eleitoral chegou a realizar um teste com voto impresso em parte das urnas eletrônicas no contexto de questionamentos sobre a possibilidade de auditoria do sistema. A iniciativa permitia a emissão de um registro físico do voto, que seria depositado automaticamente em compartimento lacrado. No entanto, o modelo apresentou problemas operacionais, como aumento no tempo de votação e falhas técnicas, e acabou sendo abandonado nos anos seguintes.

O debate sobre o voto impresso voltou à agenda institucional anos depois. Em 2009, o Congresso Nacional aprovou a adoção do mecanismo, com sanção do então presidente Lula. A proposta projetava a implementação gradual do registro físico do voto como forma de ampliar a transparência do sistema eleitoral. Em 2013, porém, o Supremo Tribunal Federal suspendeu a medida, sob o argumento de que poderia comprometer o sigilo do voto.

“A fiscalização é um direito inalienável da sociedade, e a base jurídica para contestar existe e deve existir em toda democracia. O que inexiste, até hoje, é a prova de fraude”, diz Porto.

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