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Vacina demonstra eficácia contra células tumorais ligadas ao HPV

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 4 horas)

Uma possível vacina feita a partir de fragmentos modificados do papilomavírus humano (HPV) mostrou-se eficaz no combate a células tumorais em pesquisa da Universidade Northwestern, nos Estados Unidos, publicada em fevereiro na revista Science Advances. Nos testes, o imunizante aumentou em até 8 vezes a capacidade das células de defesa de reconhecer onde o câncer está para, então, eliminá-lo.

A estratégia é diferente da usada para prevenção do HPV. “O estudo trata de uma vacina terapêutica contra cânceres associados ao vírus. Ela contém um pequeno fragmento de uma proteína viral derivada do HPV, que também está presente nas células tumorais formadas por ele”, explica o oncologista Henrique Alkalay Helber, especialista em tumores ginecológicos do Hospital Israelita Albert Einstein. “Quando o sistema imune é exposto a esse fragmento, ele ativa células de defesa, que passam a reconhecer células que expressam essa proteína e melhoram sua capacidade de atacá-las.”

O estudo indica que o imunizante em teste (chamado N-HSNA) aumentou a resposta do sistema imunológico tanto em avaliações feitas em animais quanto em células humanas in vitro. Os camundongos que receberam a vacina tiveram a sobrevida prolongada, e a redução dos tumores foi potencializada ao combinar o tratamento medicamentoso com imunoterapia.

“Essa imunoterapia ensina células de defesa do corpo, responsáveis por eliminar células doentes, a reconhecer partículas desse vírus. É como dar a essa linha de defesa a capacidade de ver com óculos especiais”, compara a imunologista Ana Karolina Marinho, membro da Comissão Técnica para a Revisão dos Calendários Vacinais da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).

O produto em estudo é pensado especificamente para tratar pessoas com tumores formados por lesões causadas pelo vírus. Entre os cânceres mais comuns com origem nessa infecção estão os de colo do útero, ânus, vulva, vagina, pênis, boca e garganta. Estima-se que 5% dos casos de câncer no mundo estejam associados ao contato com esse agente infeccioso.

Apesar dos resultados serem considerados animadores, é preciso cautela antes de considerar sua aplicação em humanos. “Esses são dados de estudos pré-clínicos [ou seja, em animais e células]. Já representam um avanço importante, mas, para validar a eficácia observada, é necessário passar por testes em humanos, incluindo ao menos 3 fases, que ampliam gradualmente o público imunizado, para garantir a eficiência e evitar efeitos colaterais”, afirma Marinho.

Um vírus perigoso — e evitável

Existem mais de 200 tipos de HPV, todos transmissíveis por contato com pele, mucosa ou por relação sexual. Os mais associados à formação de câncer são os tipos 16 e 18, que, em geral, não causam verrugas e lesões cutâneas, pelas quais a doença é conhecida.

Uma vez instalado nas células, o vírus provoca uma infecção persistente, que transforma e multiplica essas células. “O tumor não é o vírus em si, mas células humanas transformadas após a infecção pelo HPV. Por isso, essas proteínas virais permanecem nas células cancerosas, permitindo que o sistema imune, após ser treinado pela vacina, reconheça a célula como doente e possa destruí-la”, explica Henrique Helber.

A vacina em estudo poderia ser usada de forma complementar aos tratamentos atuais, como radioterapia e quimioterapia. “A ideia é aumentar a resposta imune antitumoral em associação a outras terapias já usadas na prática”, afirma o médico do Einstein.

Vale lembrar que o câncer de colo do útero e outras neoplasias associadas ao HPV são altamente preveníveis por meio de vacina já disponível no Brasil. “A vacina é uma ferramenta eficaz para combater o câncer e previne os principais tipos de HPV cancerígeno. Quanto antes for aplicada, menor o risco de contato prévio com o vírus e, portanto, maior a proteção”, diz a especialista da SBIm.

Na rede pública, a vacinação está disponível para crianças e adolescentes de 9 a 14 anos, além de pessoas imunossuprimidas e vítimas de violência sexual. Na rede privada, também está disponível. É recomendado consultar um médico para avaliar a indicação.

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