O escritor e jornalista Fernando Morais passou uma década grudado em Luiz Inácio Lula da Silva (PT), de avião pelo mundo, no Instituto Lula, nos bastidores do impeachment de Dilma Rousseff (PT). O resultado são 3 volumes de biografia e uma certeza inabalável: a prisão transformou Lula.
“Eu cheguei a dizer pra algumas pessoas que o Lula que ia sair da prisão era melhor que o Lula que entrou. Muito melhor”, afirma Morais. “E estou convencido disso.”
Assista à entrevista (45min50s):
https://www.youtube.com/watch?v=H6mgSjBzJoQ
Em abril de 2018, o juiz federal Sérgio Moro decretou a prisão de Lula depois de uma condenação por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso do tríplex no Guarujá, na operação Lava Jato.
Lula se entregou voluntariamente na sede da Polícia Federal em Curitiba, depois de um longo discurso no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo.
Segundo Morais, os 581 dias em Curitiba, que Lula imaginou que durariam uma semana, não foram vividos como derrota. Em nenhum momento pediu perdão, solicitou anistia ou tentou abreviar a pena. “Eu entrei nessa prisão pela porta da frente e vou sair pela porta da frente, sem pedir favor a ninguém”, disse na época.
O resultado, na avaliação de Morais, foi uma transformação profunda de visão de mundo. “Ele saiu da prisão com uma visão antiimperialista que não tinha antes e com uma clareza infinitamente maior do que é luta de classes.”
Segundo Morais, essa transformação não foi acidente. Foi produto de leituras intensas, combinadas com as visitas que recebia na cela. “Ele adquiriu isso não por casualidade. Foi lendo os livros que não leu uma vida inteira e discutindo o que lia com as visitas.”
Foi nessa rotina que a figura de Janja ganhou protagonismo. Janja pediu demissão da Itaipu, onde recebia R$ 20 mil de salário, para permanecer em Curitiba depois do escritório local ser fechado pelo então presidente da estatal, general Joaquim Silva e Luna, durante o governo de Jair Bolsonaro (PL). Passou então a frequentar a carceragem semanalmente.
O período também foi marcado por perdas. Em 2019, Lula enfrentou a morte do neto Arthur, de 7 anos. Foi nessa fase que trocou cartas com o papa Francisco.
Em novembro de 2019, o Supremo Tribunal Federal decidiu que réus condenados em 2ª instância não podiam ser presos antes do esgotamento de todos os recursos. Lula foi solto.
Em 2021, o ministro Edson Fachin anulou todas as condenações impostas pela 13ª Vara Federal de Curitiba, sob o argumento de que o juízo era incompetente para julgá-lo, pois as ações deveriam ter tramitado no STF. Com os direitos políticos restabelecidos, Lula disputou e venceu a eleição presidencial de 2022. Para o biógrafo, o período na prisão foi determinante para moldar o presidente que tomou posse em janeiro de 2023.
