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Como criadores alcançam públicos que a mídia tradicional não atinge

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 3 horas)

Liz Kelly Nelson, uma líder de redação de longa data, passou anos moldando estratégia digital em veículos incluindo USA Today, Gannett e AOL. Mas, enquanto atuava como vice-presidente na Vox, ela percebeu uma mudança: alguns dos jornalistas mais talentosos da organização estavam saindo para construir carreiras independentes em plataformas como YouTube, Substack e TikTok.

Nelson encontrou fatores comuns na escolha deles de sair –um desejo por maior controle editorial e oportunidades financeiras diversificadas em uma indústria cada vez mais incerta. Intrigada pelo que ela viu como uma transformação mais ampla em como o jornalismo é criado e consumido, Nelson deixou a Vox em 2023 para estudar essas tendências durante uma bolsa Sulzberger na Graduate School of Journalism da Columbia University. Ela então fundou o Project C em 2024, uma comunidade e centro de pesquisa apoiando jornalistas que navegam na economia dos criadores, e cofundou o The Independent Journalism Atlas em 2026 com Justin Bank e Ryan Kellett, um Nieman Fellow de 2025, para mapear o crescente ecossistema de repórteres independentes.

Ao falar com a turma de 2026 de Nieman Fellows, Nelson discutiu por que consumidores de mídia –especialmente os mais jovens– estão se voltando para vozes independentes, como jornalistas criadores estão construindo carreiras sustentáveis, e o que sua ascensão significa para o futuro do ecossistema de notícias.

Leia a entrevista:

Como você define um jornalista criador –e como jornalistas criadores diferem de influenciadores de notícias?

Para nós, um jornalista no modelo criador é uma pessoa que combina elementos de jornalismo com técnicas de criação de conteúdo. No trabalho que fizemos para o Journalism Atlas, nós realmente nos aprofundamos em quem se qualificaria. Os 5 principais [critérios] são: um, eles estão produzindo trabalho jornalístico? Normalmente, estamos procurando alguém que esteja cobrindo um tópico de nicho, porque a publicação de interesse geral agora é o seu feed do TikTok [e] sua caixa de entrada. As pessoas estão procurando por pessoas muito específicas que são especialistas no que estão escrevendo ou criando conteúdo em vídeo.

Também analisamos se eles são percebidos como um mensageiro confiável para uma audiência leal, [e] se estão trabalhando de forma independente, fora de uma organização de notícias tradicional. Finalmente, a última característica é que todos estão usando a economia dos criadores para tentar construir uma carreira sustentável.

[Os criadores no] Journalism Atlas e as pessoas com quem eu trabalho no Project C [não são quem] chamaríamos de influenciadores de notícias. Mas reconhecemos que influenciadores de notícias são uma fonte muito grande de como muitas pessoas, não apenas nos EUA, mas ao redor do mundo, estão aprendendo sobre o que está acontecendo. E esses são realmente os seus Joe Rogans –pessoas que tendem a ser mais opinativas. Na verdade, frequentemente chamamos isso de “a seção de opinião da internet”, mas realmente vemos isso como um contínuo e uma evolução. Não é uma substituição do que veio antes, mas é uma evolução, outro lugar para o qual consumidores estão se voltando para obter notícias.

Por que jornalistas devem prestar atenção à economia dos criadores agora?

É muito importante que coloquemos nosso foco nisso, porque nos importamos com jornalismo, certo? E porque a audiência já está lá. Não há um único criador que esteja perdendo o sono se perguntando: “O The Washington Post ou o The New York Times está pegando minha audiência?” Porque isso não está acontecendo, mas o contrário está.

Para audiências, especialmente Geração Z e Geração Alpha, essas plataformas distribuídas são suas principais fontes de notícias. Eu tenho um filho de 15 anos. Ele não é incomum para sua geração no sentido de que sua principal fonte de notícias é o YouTube. Nunca vai chegar um ponto em que [ele dirá], “É hora de eu assinar a Time [ou] começar a assistir ao noticiário da noite.” Esse é um comportamento geracional que simplesmente não faz parte do que ele e seus colegas estão fazendo.

Precisamos prestar atenção nisso, porque, se a razão final pela qual fazemos o trabalho que fazemos é porque acreditamos no valor da informação baseada em fatos e sua capacidade de ajudar pessoas a entender seu mundo, então precisamos garantir que as lições e as partes do que sabemos que fazem o jornalismo rigoroso estejam entrando nesses feeds.

Como jornalistas independentes estão construindo carreiras sustentáveis?

Neste ponto, não há apostas seguras em nenhum dos lados da equação sobre como eles estão ganhando dinheiro. Incentivamos jornalistas a estarem em tantas plataformas quanto puderem. Você nunca quer estar muito concentrado em uma só, porque sabemos que depender de uma empresa de tecnologia é a última coisa que você quer fazer para sua audiência ou para suporte financeiro.

Eu fiz um estudo com um grupo chamado Video Consortium que publicamos em janeiro sobre criadores de vídeo. Dos criadores de vídeo que entrevistamos, 56% disseram que não estão ganhando o suficiente “de forma alguma” para se sustentar, embora 40% tenham dito que conseguiram financiar parcial ou totalmente seus meios de vida com seu trabalho independente em vídeo.

Vemos muitos dos jornalistas que estão fazendo isso terem múltiplas fontes de renda. Taxas de assinatura para newsletters [por exemplo]. Mas mesmo assim, normalmente o número médio de assinantes pagos é apenas 5% do número total de assinantes. Há receita de publicidade para criadores de vídeo, especificamente no YouTube. E há acordos de patrocínio.

Agora, os acordos de patrocínio são mais fáceis de conseguir se você for um jornalista como Becca Farsace, que veio do The Verge, que faz análises de equipamentos de tecnologia. Se você estiver criando conteúdo [de nicho], vai ser muito mais difícil conseguir que anunciantes venham com você da mesma forma que sempre foi um desafio para organizações de notícias conseguir patrocinar conteúdo mais difícil.

Quando se trata do TikTok, é quase impossível ser remunerado como jornalista. O sistema não foi construído dessa forma. Vemos muitas pessoas que também fazem consultoria paralelamente, trabalham como freelancers, [e] fazem esse tipo de trabalho.

A parte final em que estamos trabalhando agora é tentar ajudar a comunidade filantrópica a entender que eles precisam apoiar esses jornalistas.

“Não há um único criador que esteja perdendo o sono se perguntando: ‘O The Washington Post ou o The New York Times está pegando minha audiência?’ Porque isso não está acontecendo, mas o contrário está.”

No futuro, que papel jornalistas criadores desempenharão ao lado das redações tradicionais?

Eu não acho que jornalistas criadores irão, nem deveriam, substituir redações tradicionais, porque há coisas que você ainda precisa de uma organização maior para fazer. Uma dessas coisas são grandes projetos de reportagem investigativa, onde você precisa de muitos recursos para fazer algo que frequentemente requer múltiplos repórteres, fotógrafos, videomakers, [e] editores qualificados para juntar algo.

Acho que para onde estamos indo é um lugar onde a indústria tradicional de jornalismo, à medida que se contrai, precisa ficar mais inteligente sobre como está se contraindo para fazer as coisas que só ela pode fazer corretamente, e não as coisas que talvez possam ser melhor feitas por atores individuais em outros lugares.

Publicações tradicionais de notícias estão trabalhando com jornalistas criadores? Como essas colaborações são?

Eu estava falando com um grupo de estudantes de graduação na George Washington University no último outono, e perguntei o que organizações de notícias estão fazendo [em criação de conteúdo]. Eles disseram: “Âncoras de notícias locais estão começando a fazer vídeos em pé. Eles estão no TikTok falando sobre as notícias.” Eu perguntei: “O que vocês acham disso?” Eles disseram: “É constrangedor.” E isso é totalmente verdade. Eles estão tentando se forçar a fazer algo que parece não natural.

Acho que vamos ver muitas tentativas frustradas até chegarmos lá. As organizações de notícias que vejo fazendo isso corretamente estão sendo mais cuidadosas, testando de maneiras muito específicas e pequenas.

Estamos começando a ver mais parcerias entre criadores independentes e organizações de notícias. Uma delas [foi de uma] jornalista que é membro do Project C chamada Monique O. Madan, anteriormente repórter investigativa do Miami Herald. Ela foi atrás de uma reportagem investigativa que publicou [no Substack] sobre um centro de detenção do ICE na Flórida. Isso foi repercutido e publicado no Miami Herald. Esse é um ótimo exemplo do tipo de simbiose [e] maneiras como esses dois mundos podem começar a trabalhar juntos.

Agora, o Houston Chronicle está trabalhando em uma parceria com um criador. Eles estão co-reportando uma reportagem investigativa sobre farmácias de manipulação em Houston. Eu adoraria ver mais disso … [isso] é frequentemente uma frustração de jornalistas que se especializam em trabalhos investigativos e de formato longo, que é algo muito difícil de fazer de forma independente, não apenas por causa dos recursos necessários, mas também porque esses algoritmos querem ser alimentados o tempo todo.

Outro ótimo exemplo é o MLK50 em Memphis, fazendo uma parceria com uma criadora chamada Amber Sherman, que eles chamam de criadora em residência. Eles produzem conteúdo com ela toda semana, na verdade … mas ela ainda mantém suas próprias [contas em redes sociais]. Eles têm feito esse trabalho por cerca de um ano, e o conteúdo que co-publicaram aumentou o engajamento do MLK50 no Instagram e TikTok em 664%.

Eles fizeram isso de forma modesta, e se conectaram com Amber em uma parceria muito equilibrada, para [demonstrar] que há coisas que você pode aprender conosco, mas também há coisas que precisamos aprender com você.

As organizações de notícias que acho que estão realmente falhando nisso veem criadores como uma ferramenta de marketing para si mesmas. Precisamos realmente ver modelos mais cuidadosos.

Jornalistas criadores correm o risco de fragmentar ainda mais um ecossistema de notícias já polarizado?

Se a [situação] é que criadores estão distraindo pessoas de notícias reais, minha resposta seria: “As pessoas não estão se engajando com notícias reais, e se tirarmos os criadores, elas não vão voltar.”

Minha solução para isso é que precisamos nos engajar melhor com onde as pessoas estão e entender isso. [Eu acredito] que nosso trabalho neste ponto não é apoiar modelos existentes. Precisamos entender o que uma comunidade realmente precisa em termos de notícias e informação, e isso pode ser um jornal, pode ser esse jornal reimaginado.

Pode ser esse jornal fazendo parceria com criadores ou apoiando pessoas que são independentemente apaixonadas por sua comunidade, mas o que precisamos fazer é apoiá-las com treinamento em reportagem rigorosa, e ajudá-las a aprender como ganhar a vida.

Mas se é com essas pessoas que a audiência está se engajando, precisamos realmente estar lá.

Eu faço muito trabalho com Joy Mayer do Trusting News e outros para descobrir como é um trabalho confiável nesse contexto. O que é diferente sobre o que torna criadores confiáveis, versus uma fonte tradicional de notícias? Por que audiências estão escolhendo isso?

Talvez parte disso nos ajude a entender como apoiar melhor criadores, mas talvez também nos ajude a ajudar organizações de notícias a falar com audiências dessas maneiras, a fazer conexões com elas que não estão fazendo agora.

As organizações de notícias que realmente me deixam animada são aquelas como o Houston Chronicle ou o Miami Herald, que estão ativamente tentando entender como construir essas parcerias.


Texto traduzido por Vinicius Filgueira. Leia o original em inglês. 


O Poder360 tem uma parceria com 2 divisões da Fundação Nieman, de Harvard: o Nieman Journalism Lab e o Nieman Reports. O acordo consiste em traduzir para português os textos do Nieman Journalism Lab e do Nieman Reports e publicar esse material no Poder360. Para ter acesso a todas as traduções já publicadas, clique aqui.

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