O mercado global de combustível não deve retornar rapidamente à normalidade mesmo com um cessar-fogo no Oriente Médio. A avaliação é do diretor do CBIE (Centro Brasileiro de Infraestrutura), , colunista no Poder360. De acordo com ele, ainda é precipitado falar em um retorno ao cenário pré-guerra, mas diz que o mercado global já ingressou em uma “nova normalidade”, comparável aos impactos estruturais da era pós-Covid, marcada por uma volatilidade permanente.
Embora alguns analistas do setor interpretem o cenário como positivo no médio prazo, dado que o fluxo mundial de combustível continua e que poderia levar de 1 a 2 meses até uma normalização, Pires reforça que a “ressaca logística” e a nova dinâmica da geopolítica do petróleo são, agora, a realidade vigente.
De acordo com o diretor, o fechamento do estreito de Ormuz, que vinha sendo uma ameaça constante em conflitos passados, mas que desta vez se concretizou, é o marco fundamental dessa nova dinâmica. O local é uma via navegável por onde passa cerca de 20% do fornecimento global de petróleo e gás. A passagem está praticamente bloqueada desde que os Estados Unidos e Israel iniciaram a ofensiva contra o Irã, em 28 de fevereiro.
O Irã havia anunciado na 6ª feira (17.abr.2026) a reabertura da passagem, mas neste sábado (18.abr) o país persa informou que voltou a exercer um controle rigoroso sobre o tráfego de navios comerciais no local. O anúncio foi feito pelo tenente-coronel Ebrahim Zolfaghari, porta-voz do Quartel-General Central da Guarda Revolucionária do Irã. O militar declarou que a decisão foi tomada depois de os Estados Unidos não aliviarem seu bloqueio naval ao Irã, descumprindo um acordo entre os 2 países.
Diante da decisão, o presidente dos EUA, Donald Trump (Partido Republicano), declarou que o Irã está agindo de forma “atrevida” e que o país não se deixará levar por “chantagens”.
Pires disse ao Poder360 que o efeito do fechamento do estreito já inaugura uma nova realidade. Mesmo com o possível cessar-fogo, ainda será necessário observar o impacto nos custos dos seguros marítimos. A área continuará sendo um território de alta tensão e instabilidade, onde a dependência do fornecimento de petróleo e gás daquela região torna-se um risco estratégico crescente para o mercado internacional.
“Com o cessar-fogo, vamos ver, por exemplo, como é que fica o valor dos seguros para os navios que vão passar ali. Então você vai ter sempre uma instabilidade muito grande”, destaca Pires.
Segundo o diretor, com essa nova dinâmica no estreito, empresas globais devem iniciar uma corrida para reduzir a dependência de fornecedores do Oriente Médio, como o Catar e a Arábia Saudita. O que já foi sinalizado com o marco recorde dos Estados Unidos de exportação de petróleo bruto durante a guerra. Dados do governo norte-americano registram 5,2 milhões de barris diários exportados.
Neste caso, refinarias na Europa e na Ásia passaram a disputar carregamentos dos Estados Unidos para compensar a perda de suprimento da região em conflito.
Pires pondera que essa é uma transição de longo prazo, já que a exploração de novas fontes, especialmente no setor de gás natural, exige altos aportes de capital e tempo de maturação para plantas de liquefação e regaseificação. Nesse novo desenho geopolítico, o especialista identifica que países com maior estabilidade política ou alinhamento estratégico, como a Venezuela, têm potencial para atrair investimentos.
Já sobre o papel do Brasil, o diretor do CBIE avalia que o país também poderia ser beneficiado, desde que haja celeridade interna. Ele defende que o governo acelere o licenciamento para a Margem Equatorial, que, embora enfrente barreiras ambientais atuais, compõe o cenário futuro de segurança energética para o país em sua avaliação.
“Volto a dizer, países como o Brasil, como a Venezuela, vão ser beneficiados, evidentemente. Depende da política, do risco regulatório jurídico que esses países vão apresentar”, afirma.
Quanto à projeção de preços, a perspectiva para o curto prazo é de cautela. Pires estima que o barril de petróleo dificilmente ficará abaixo de US$ 80 este ano, uma vez que o valor final dependerá diretamente da extensão dos danos estruturais na região. Na 6ª feira, o barril de petróleo foi cotado a US$ 90,3.
O mercado internacional de petróleo e derivados enfrenta um choque direto no custo logístico. Em março, o preço médio do óleo diesel chegou a R$ 7,26 por litro, segundo dados da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis).
Este patamar, impulsionado pela escalada dos conflitos entre Estados Unidos e Irã, superou os níveis de agosto de 2022, quando a invasão da Ucrânia pela Rússia elevou o preço internacional do petróleo.
