O PT decidiu reposicionar sua estratégia para as eleições de 2026 com foco na comparação direta entre o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e a gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). A mudança vem acompanhada de uma autocrítica interna: o partido avalia que falhou ao não detalhar, desde o início do mandato, o cenário econômico e social herdado em 2023.
A avaliação foi reforçada por integrantes da comunicação do partido, como o secretário de comunicação do PT, Éden Valadares. Ele afirmou ao Poder360 que a sigla “pecou na comunicação” ao não explicitar “o tamanho do estrago” deixado pelo governo anterior.
O movimento surge diante do avanço de adversários nas pesquisas de intenção de voto. No sábado (11.abr) o Datafolha mostrou que Flávio Bolsonaro (PL), filho de Jair, aparece com 46% das intenções de voto no 2º turno contra 45% de Lula. Foi a 1ª vez que o senador apareceu numericamente à frente do presidente em um levantamento do instituto.
Nesse novo desenho, a campanha deve operar em 2 níveis simultâneos: a exaltação de entregas do governo Lula e a contraposição direta de modelos políticos e econômicos.
Nas inserções partidárias que começam a ser exibidas em rádio e televisão a partir de 23 de abril de 2026, o PT deve estruturar sua comunicação com base em 6 frentes principais:
- comparar políticas públicas nas áreas de saúde, educação e economia entre 2019–2022 e 2023–2026;
- reforçar a ideia de reconstrução, com a recriação de programas sociais;
- politizar a agenda econômica, apresentando o embate como:
- “soberania vs. entreguismo”;
- “distribuição de renda vs. concentração”;
- explorar novas bandeiras sociais, como: fim da escala 6 X 1; combate ao feminicídio; tarifa zero no transporte;
- incorporar segurança pública como novo eixo, com a defesa de um sistema nacional integrado;
- ampliar a atuação digital, com mobilização direta da militância.
No campo social, o partido também pretende destacar impactos sobre mulheres, especialmente ao associar a redução da jornada de trabalho ao alívio da dupla jornada feminina e ao enfrentamento da violência de gênero.
Assista (26min36s):
OS PONTOS DE ATAQUE
A avaliação do PT é que parte do desgaste atual do governo decorre da falta de contextualização sobre o ponto de partida. A eleição de 2026 seria então menos sobre a apresentação de resultados mais sobre disputar a narrativa pública.
Parte central desse discurso envolve a crítica à condução fiscal do governo Bolsonaro, especialmente em relação aos precatórios. Essas dívidas judiciais da União tiveram seu pagamento limitado por uma emenda constitucional aprovada em 2021, que estabeleceu um teto anual e permitiu o adiamento de parte dos valores.
A medida abriu espaço no Orçamento, mas foi criticada pela oposição, que passou a classificá-la como uma forma de “calote”. Foi a estratégia do ex-ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT). Na prática, houve postergação de pagamentos dentro de uma regra legal aprovada pelo Congresso.
Outro eixo da ofensiva será o processo de privatizações. O PT cita a venda da Eletrobras, concluída em 2022, e da BR Distribuidora, finalizada em 2021, como exemplos de perda de instrumentos de intervenção estatal, especialmente no setor energético.
O tema voltou ao centro do debate com a alta dos combustíveis. Dentro do governo, há o entendimento de que a venda de ativos ligados à distribuição e ao refino reduziu a capacidade de resposta do Estado a choques externos. Integrantes do PT defendem que decisões tomadas em governos anteriores ampliaram a exposição do país à volatilidade global.
Nesse cenário, o partido aposta em combinar duas frentes: de um lado, reforçar a narrativa de reconstrução e contrastar modelos econômicos; de outro, intensificar críticas direcionadas ao principal adversário, com material já sendo preparado para uso ao longo da campanha.
FLÁVIO POR FLÁVIO
Esse reposicionamento ocorre em paralelo a uma estratégia mais tática voltada ao principal adversário. O partido prepara uma ofensiva para associar Flávio Bolsonaro a casos de corrupção, com destaque para o esquema das “rachadinhas”.
A avaliação é que, embora o sobrenome Bolsonaro impulsione o pré-candidato nas pesquisas, ele também carrega rejeição que pode ser explorada.
Éden Valadares, secretário de comunicação do PT, indicou que essa linha já começa a aparecer em ações de pré-campanha, como a mobilização das centrais sindicais marcada para 15 de abril, quando o partido pretende “apresentar quem é” o adversário ao eleitorado.
Trata-se de uma tentativa de desconstruir a imagem mais moderada que aliados dizem que Flávio busca construir.
A linha de comunicação já aparece em conteúdos nas redes sociais. Em uma das peças, o deputado Pedro Uczai, líder do PT na Câmara, ironiza o primogênito de Jair Bolsonaro ao dizer que ele quer promover um “saldão” de ativos nacionais, com “tudo pela metade do dobro (e entregue para os gringos)”.
A publicação associa a gestão anterior à perda de soberania e reforça um dos eixos centrais da campanha petista, que contrapõe “soberania nacional” ao que o partido chama de “entreguismo”.
Assista (35s):



