Empresários que prestavam serviços a hospitais de Goiás por meio do Instituto de Medicina, Estudos e Desenvolvimento (Imed) disseram estar surpresos com a rescisão de seus contratos depois de o Metrópoles mostrar vínculos de sócios das empresas com intermediários do Primeiro Comando da Capital (PCC) e depois da abertura de investigações pela Polícia Federal.
A reportagem apurou que a L2D Telemedicina e a TL2 Soluções em Saúde – que tiveram Thiago Telles como sócio, um empresário indiciado por lavagem de dinheiro em ação com o PCC – e a Medic 360 – investigada pela Polícia Civil do Tocantins – deixaram de prestar serviços ou estão em vias de deixá-los. Não se sabe se a Mediplus, que teve Telles como presidente e é investigada pelas polícias de São Paulo e do Tocantins, será substituída.
O Imed não prestou nenhum esclarecimento à reportagem e nem revelou quais empresas retirou dos hospitais e quais contratou para substituí-las. Uma das contratadas é uma médica investigada pela PF por suspeita de fraudar uma disputa na saúde em favor de familiares do deputado federal e ex-secretário de Saúde Ismael Alexandrino (PSD-GO)).
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O próprio Imed, a L2D e Thiago Telles são alvo de uma investigação da Polícia Federal, que já realizou buscas em endereços das firmas, dirigentes e sócios. Na operação “Instituto Amigo”, o Imed e as empresas são suspeitos de cobrar por serviços não realizados na pandemia de covid-19. Enquanto suas empresas prestavam esclarecimentos à PF, houve a notificação do Imed para rescisão do contrato, conta o diretor da L2D e TL2, o enfermeiro Luiz Fernando Donke.
“A gente foi pego de surpresa mesmo na questão do rompimento do nosso contrato”, disse ele ao Metrópoles. “A gente não esperava, porque não existe nada definido, não existe nada de indiciamento, não existe nada”, diz.
“Tentamos contato com eles mas eles [disseram]: ‘Não, é isso mesmo, não sei o quê…’. Ele não alega que está derrubando meu contrato. Alega que está fazendo processo para renovação.” – Luiz Donke, enfermeiro e empresário
Em 10 de junho, a Medic 360 Serviços Médicos – que fez depósito em uma conta de intermediários do PCC e é investigada pela Polícia Civil do Tocantins – informou aos funcionários do Hospital de Formosa que deixaria de atuar lá. A saída seria em 3 de julho, dizia o comunicado. A empresa e o Imed não revelaram à reportagem o real motivo do fim da parceria.
“Serviços foram implantados”, diz defesa
A Operação da PF “Instituto Amigo” segue em andamento na Justiça Federal de Goiás. Em nota, a defesa da TL2 e L2D disse que encaminhou todos os documentos à PF para demonstrar que “os serviços contratados foram implantados, mantidos disponíveis e efetivamente prestados, inexistindo cobrança desacompanhada de contraprestação ou duplicidade entre as obrigações das empresas”.
Em nota, a Medic 360 afirmou que deixou de atuar nos hospitais de Goiás terceirizados ao Imed por “avaliação interna e mercadológica”. A empresa não revela porque repassou R$ 394 mil em 16 de outubro de 2024 a uma firma que, segundo a Polícia Civil de São Paulo, é intermediária da lavagem de dinheiro do PCC.
A Secretaria de Saúde de Goiás afirmou que o órgão e a Controladoria do estado “mantêm monitoramento contínuo sobre todos os contratos de gestão em vigor”. “Desde 2023 [na gestão de Ronaldo Caiado], o governo de Goiás ampliou a estrutura de fiscalização com a criação da Subsecretaria de Controle Interno e Compliance e com a atuação direta de delegado da Polícia Civil no âmbito da pasta para apuração imediata de qualquer suspeita envolvendo recursos públicos.”
Ronaldo Caiado disse à reportagem que autoridades investigativas e o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) deveriam ter avisado o estado de Goiás, que ele comandou, do envolvimento de pessoas com eventuais vínculos com o Primeiro Comando da Capital (PCC).
O advogado de Telles afirma que seu cliente comprou carros de luxo e nega vínculo com o Primeiro Comando da Capital. “Determinadas associações inicialmente estabelecidas em relação ao sr. Thiago Telles foram posteriormente reavaliadas pelas próprias autoridades responsáveis pela investigação”, afirma a defesa. A Polícia Civil de São Paulo indiciou o empresário por lavagem de dinheiro depois de deflagrar a Operação “Falso Mercúrio”. Segundo decisão judicial e informações obtidas pelo Metrópoles, essa é a situação do caso até o momento.
Goiás troca empresas ligadas ao PCC na saúde por investigada pela PF

