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Distrito da Confusão (Crônicas de Odylo Costa, filho)

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Distrito da Confusão (Crônicas de Odylo Costa, filho)

Aliomar  –  Última Hora – 10/3/1978
Queixo-me desta cidade, que, entretanto, amo demais. Dela ou da vida? Quantas vezes, nos últimos tempos, nos dissemos: “Precisamos ir ver o Aliomar”. E terminávamos não indo. Vem-me uma dor fina, funda, de tê-lo partindo para sempre sem antes conversar um pouco. Já agora é o irremediável. Perdi a última visita.

Talvez fosse melhor assim. Não guardo a lembrança do rosto desfigurado, na lenta aproximação da morte. Porque a inexorável não se achegou a ele de vez, com seu pulo de fera implacável: veio vindo devagarinho, devagarinho… Maldita!

Talvez fosse melhor assim. A última visão é do rosto afetuosa e sorridente, como sempre foi para nós (mas quantas vezes lhe vi nele todo, para outros, um duro sarcasmo). Recordo-o muito no convívio ameníssimo mas também e sempre me lembro dele na tribuna. Que espetáculo! Coitado de quem, amando os prazeres da inteligência, não o viu na Câmara. Afonso Arinos, de quem a vida o separou e juntou com intermitências, disse-lhe um dia em pleno debate: — “Vossa Excelência é um mandacaru que dá flor uma vez por ano, mas essa flor é para mim.” Não sei se era tão rara a floração, mas a imagem é perfeita: um mandacaru que dá flor, Aliomar.

Creio que o vi pela primeira vez na Bahia, naqueles idos do Estado Novo, no escritório de Luiz Vianna Filho. Os irredentos se procuravam, para desabafar, passei em Salvador, fui ver Luiz, encontrei um grupo de inconformados. — “Este é Aliomar, este e Albérico, este é Nestor Duarte…” Não éramos tantos assim.

Depois andei, com Luís Camilo de Oliveira Neto, imprimindo e distribuindo uma conferência de Aliomar, em que se afirmava sua fé na liberdade. Entregávamos aos que pediam e queriam como rebuçados, em alvoroço. Tempos idos!

Crer na liberdade era nele uma essência da alma. Marcava-o o signo do direito de cada um à afirmação do julgamento individual. Nessa luz interior da consciência se expandindo na plenitude exterior residia para ele a democracia, tecida de direitos e deveres.

Direitos e deveres que exercia com sobre-humana coragem, moral e física. Talvez a imagem mais significativa que guardo comigo dessa loucura de destemor raiando a insolência seja seu debate com Carlos Lacerda na convenção da UDN que homologou a candidatura de Jânio Quadros (quantos mortos, meu Deus!). Havia uma ululante multidão fanatizada que a cada aparte de Carlos ou a cada invocação de Jânio desvairava. Aliomar foi apupado e escarnecido, mas olhava aquela insanidade, que se intercomunicava entre líderes e liderados com um misto de absoluto desafio e desapreço, senão desprezo total. Coragem? Doidice de homem lúcido.

Sua inteligência funcionava com a precisão das grandes máquinas laminadoras. Entrava a celulose saíam finíssimas folhas de papel de arroz, tudo nos lugares exatos, já arrumado didaticamente. Mas sem a secura pobre das lógicas livrescas. Havia, sim, havia flor nessa máquina, nesse mandacaru, até quando se abria no arrasar sarcástico de um riso que mudava argumentos em gargalhadas. Não hesitava em usar a chalaça, que estala — já definia Machado de Assis — feito bofetada. Mas nunca lhe faltou humanidade. O mandacaru dava flor, não era milagre, mas lei da Natureza. Milagre é que a máquina o fizesse; e o fazia.

Não o vi no Supremo, onde foi tão grande, tão justo, tão sereno. Recordo, antes de tudo, o parlamentar. Sua conversa adquiria uma estranha força nova no contato com o auditório, que seduzia com a força substantiva de uma eloquência sem ênfase, feita — pode-se dizer — somente do esqueleto dos raciocínios. Era todo ossatura, nomes e verbos. Por isso a imagem, quando florescia inesperada, era um repente de espanto. Flor do mandacaru.

Homem desses, nos sistemas fechados, não há muito o que fazer com eles. Se seu instrumento é a palavra! Degas — conta Valery — foi ao Parlamento, viu uma portinha escondida no hemiciclo do Palácio Bourbon, indagou de Clemenceau: — “E se por aquela porta entrasse de repente o afabulado camponês do Danúbio, o que vocês fariam!” Clemenceau, sem hesitar: — “Não lhe daríamos a palavra…” Raciocinava como homem de Tribuna. A Aliomar, para que não gritasse o que a razão apaixonada lhe diria, era preciso negar a palavra pela força. Caso facilitassem, ele a tomava pelas mãos e falava. Só a morte o emudeceu.

Odylo Costa, filho

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