por André Eppinghaus e Roberta Savio
Pelo menos duas instituições internacionais relevantes apontam a Dinamarca como o país onde há menos corrupção governamental no mundo. Em ambas as listas, o Brasil não figura sequer entre os 50 melhores colocados.
Não faltam argumentos para explicar o exemplo positivo do país europeu, para além de suas estruturas de governo ou de seu alto índice de desenvolvimento humano, mas vamos nos concentrar em uma razão que não costuma ser iluminada da forma devida: a participação das mulheres na política.
A Dinamarca também apresenta altos índices de qualidade de vida e felicidade de seus habitantes. Não é um país tropical abençoado por Deus, mas uma nação nórdica governada por uma primeira-ministra desde 2019 e com 48% das cadeiras do parlamento nacional preenchidas por mulheres.
Pesquisa do Instituto Ideia com a Voga Inteligência e Comunicação, divulgada recentemente, mostra que 55% dos brasileiros afirmam que o Brasil seria um país menos corrupto com mais mulheres na política. E 58% acreditam que elas têm soluções melhores para os problemas reais do Brasil. No entanto, 35% ainda afirmam que causa estranhamento ver mulheres na política, índice que só é menor do que a presença de mulheres nas forças armadas.
São muitas décadas em que o machismo estrutural molda percepções e decisões políticas no Brasil. Sua face visível é uma maioria de homens brancos que se revezam no comando de instituições públicas e governos (com algumas honrosas exceções). Quando se pensa em desenvolvimento humano, equidade, distribuição de renda e qualidade de vida em larga escala, esse modo de fazer política produziu resultados medíocres para um país com as riquezas e o potencial do Brasil.
E quanto à corrupção em todas as esferas de poder, compactuada por entes privados que se beneficiam dela, quando exposta e escancarada, revela invariavelmente como protagonistas homens de ternos bem cortados, gostos extravagantes e reputação fabricada.
Na Dinamarca, a afirmação da equidade de gênero é resultado de uma visão de estado e de mundo que entendeu que representatividade não é retórica e que o pensamento e a atuação feminina nas corporações, instituições e governos traz não apenas um saudável e necessário equilíbrio para o debate e as decisões, mas também demonstra maturidade política e produz resultados melhores.
Enquanto por aqui todos os partidos, do PL ao PT, pleitearam conjuntamente ao TSE flexibilizar a política de cotas para mulheres e negros nas eleições deste ano. Pode-se dizer que foi a única coisa que uniu esquerda e direita neste Brasil polarizado. Olhando para o primeiro quarto deste novo século, houve mudança significativa na realidade sociodemográfica brasileira, com mais mulheres chefiando lares, empreendendo e tornando-se maioria absoluta na formação acadêmica. Movimento de autonomia que cresceu na mesma medida em que todos os tipos de violência contra a mulher, chegando à brutal estatística atual de feminicídios no país.
Se a realidade social mudou, o fato é que política não conseguiu acompanhar. Segundo a ONU, o Brasil ocupa a vergonhosa posição de 139º no mundo em representação parlamentar feminina, com apenas 17% das cadeiras ocupadas por mulheres, um terço do que é hoje o retrato da população do país. Nem é preciso comparar com o mundo desenvolvido para perceber como ficamos muito para trás.
Podemos crer que a mudança, assim como na Dinamarca, acontecerá de dentro para fora, com a tardia consciência e atuação dos dirigentes partidários, das lideranças políticas nacionais ou de poderes relevantes (como a imprensa) para enfrentar o problema. Mas a história do Brasil, infelizmente, não faz jus à crença.
Portanto, talvez a mudança possa começar a acontecer através da manifestação popular democrática – o voto – nesta eleição de 2026. E como provavelmente você ainda não escolheu seus candidatos para o pleito de outubro, passe a considerar fortemente as candidatas. Vai fazer um bem enorme ao Brasil.
André Eppinghaus e Roberta Savio, estrategistas políticos, idealizadores do manifesto Confia Nelas

