Tenho falado sobre a banalidade do linchamento como solução para a própria insegurança com princípios morais, e julgamento que veremos na semana que vem do ministro Alexandre de Moraes pode já estar decidido se os ministros acatarem a condenação que já foi feita pela mídia, pelo bolsonarismo e pelas redes sociais, que pretendem representar a opinião pública — embora os “retratos instantâneos” dos institutos de pesquisa de opinião usem várias réguas, se fossem científicos todos dariam os mesmos resultados.
O que se julga são fatos e os fatos que se conhece em relação a Moraes não demonstram nada. Só sua complementação pode esclarecer se houve quebra de lei ou mesmo de comportamento ético. Mas aguardar este esclarecimento não entra na cabeça de quem tem ódio dele por ter garantido as eleições de 2022 e sido o relator da tentativa de golpe.
O que a mídia, porta-voz do “mercado”, está julgando é a recusa do Brasil a adotar o modelo Trump de Estado, em que governam os bilionários, lascam-se a classe média e os pobres. O “mercado” pensa que, implantada a autocracia bolsonarista, os multimilionários locais — temos poucos bilionários — viverão seu mar de rosas.
Que estão redondamente enganados é prova o que viveu o País nos anos do capeta. Morte, fome, desemprego, destruição das instituições etc.
Importa agora é saber que temos um risco verdadeiro com a admissão da candidatura (indireta) de Jair Bolsonaro por um tribunal eleitoral capitaneado por um frágil juiz de comarca no tempo do Onça e por um adorador do profeta da segurança, ambos sem o menor escrúpulo.
Fiquemos com o personagem da semana, André Mendonça. O conde de Afonso Celso avisava que quem “está sempre a falar de sua probidade faz desconfiar que é tratante; da sua vigilância, que é preguiçoso; da sua gratidão, que é ingrato; da sua coragem, que é covarde”.
Sua ascensão do púlpito para o golpe foi rápida. Enquanto pastoreava, passou, como advogado da União, por um curso intensivo com Wagner Rosário, Descontrolador Geral dos governos Temer e Bolsonaro. Nomeado chefe da AGU, defendeu, como lhe competia, os atos do Cavalão. Mas o Moro foi muito incompetente e não soube trocar o comando da Polícia Federal no Rio de Janeiro, que, segundo declarou o genocida em reunião ministerial, “queria f…der com a gente”. Era preciso alguém que fizesse a PF entender que sua função era pessoal e familiar, não institucional, e lá estava o Catão.
A posse foi emocionante. Naquele momento o adorador se viu em condições de realizar os trinta anos de profecias na segurança pública (bomba no Guandu, matar 30.000 para limpeza de sangue, matar o Presidente Fernando Henrique, estuprar quem merecesse, levar para o Rio de Janeiro os agentes exterminadores, medalhar assassinos, elemento bom é elemento morto, reverenciar o Ulstra e o leitor acrescente aqui outras barbaridades que lhe pareçam oportunas). Vieram-lhe lágrimas aos olhos de vaca perdida. Ao abraçar o profeta, pousou, reverente e humilde, a cabeça em seu peito. Logo logo a PF passou a ser obediente. No Ministério da Justiça por onde passaram nomes ilustres — Montezuma, Bernardo Pereira de Vasconcelos, Nabuco de Araújo… bastem — criou-se uma Diretoria de Inteligência (sic) que investigou — já contei aqui — os malvados antifascistas (o policial que dirige o gabinete de Catão no STF vem de lá).
Mendonça foi ministro da Justiça de abril de 2020 a março de 2021. Talvez o leitor tenha apagado da memória, mas nesse período houve uma grande disputa do governo com o STF: o Isento lutava para evitar que se tomassem precauções contra a Covid, enquanto o Supremo validava as medidas tomadas por Estados e Municípios. Enquanto isso as pessoas morriam num ritmo 4 vezes superior à média mundial e o profeta barbarizava, desde imitar pessoas sufocando a menosprezar e se comprazer com a morte. Um trabalho glorioso, que Mendonça deixou para aguardar na AGU a aprovação na sabatina para ministro do STF, que se arrastava.
O dia em que finalmente foi aprovado foi marcado pela profetiza Michela, que, ao vivo e a cores, recebeu línguas (certamente angelicais) e as pronunciou da mesma maneira como, quando o Espírito Santo desceu sobre os apóstolos, “os ouvimos falar em nossa própria língua materna”, menos nós, infiéis, que ouvimos mesmo um cafarnaum do diacho.
Não podemos dizer que no período em que foi ministro do Supremo Tribunal Federal sua ação tenha sido pálida. Não! Ele se notabilizou por dizer besteiras contraditadas por quase todos os outros ministros, do detestado Moraes à reverenciada Cármen Lúcia.
A chegada da eleição o encontrou a postos. Era chegada a hora. Com o apoio de Donald, o incentivo de Flávio, o esporro de Dudu, a fé no bolso de muitos, o adorador foi aparando as bordas. Dificulta a campanha de Lula, facilita a de Flávio — e de seus acumpliciados com candidaturas irregulares Brasil afora. Mantém uma funcionária com a torneira vazando sem registro, mas com o controle para que se formem manchetes contra o presidente da República e nada saia sobre o filho do profeta. Assume, claro que ilegalmente, o papel de polícia, parquet e pauteiro. Os linchadores profissionais ululam.
Finalmente parte para o ataque aberto. O alvo é a defesa da democracia, que atinge o presidente e facilita o discurso de vítima de Bolsonaro. A acusação formal não é boa isca para linchamento, o melhor é a insinuação.
O presidente do STF sempre foi um lavajatista enrustido, um homem sem coragem de assumir suas — poucas — convicções. Marcou o dia do linchamento. Há protestos, talvez se evite o espetáculo que a mídia quer. Sem linchamento televisado, falarão de pizza.
Pouco importa. O linchamento é irreversível. Como as plumas espalhadas ao vento que não voltam a se reunir, a reputação de Moraes precisa de um milagre para ser restaurada.
É possível, no entanto, conter o golpe. Para isso contará o trabalho dos ministros que não estão comprometidos. A tarefa é impedir que o Catão continue a agir. É afastar a candidatura de Jair Bolsonaro, que tem seus direitos políticos suspensos e, portanto, não pode ser eleito, mesmo por interposta pessoa. É prender os vendilhões do Brasil — promessa de venda passada em papel timbrado —, golpistas e explicitamente acumpliciados com PCC (via Karina Gama) e CV (via Bacelar & Castro).
Pedro Costa é arquiteto e escritor.

