O nascimento do primeiro filho, em junho de 2022, deveria marcar uma fase de descobertas e celebração para a publicitária Carolina Cordeiro, de 34 anos. No entanto, a maternidade veio acompanhada de um diagnóstico devastador: doença renal crônica em estágio terminal.
Ainda durante a gestação, a publicitária desenvolveu glomerulonefrite — uma inflamação nos glomérulos, estruturas responsáveis por filtrar o sangue nos rins. O quadro, agravado pelo aumento do fluxo sanguíneo renal durante a gravidez, evoluiu rapidamente até a necessidade de hemodiálise.
Após um pós-parto difícil e anos de tentativa de tratamento conservador, a rotina de Carolina passou a ser ditada por sessões exaustivas que consumiam entre quatro e cinco horas diárias. As limitações físicas forçaram seu afastamento do trabalho e comprometeram a dinâmica familiar.
“Meu filho não conheceu a mãe saudável até o transplante”, relata Carolina. “O diagnóstico impactou absolutamente tudo na minha vida. Tive que parar de trabalhar e me sentia inútil. Com relação ao meu filho, muitas vezes não conseguia dar a atenção devida a ele, e isso me pesava muito emocionalmente. Eu vivia em função do tratamento”, lembra.
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Rede de apoio e a decisão pela doação de rim
Em meio às incertezas do tratamento, a publicitária descobriu que não estava sozinha. Familiares e amigos se mobilizaram prontamente para tentar a doação. “Me senti extremamente amada e querida. Tive disputa para ver quem doaria e me sinto privilegiada por ter tantas pessoas querendo meu bem, independente do processo que passariam”, conta Carolina.
Diante do entusiasmo da rede de apoio, a advogada e professora de Direito Stela Maria Cabral, mãe de Carolina, se manteve firme na decisão de doar. Para Stela, a escolha foi imediata e guiada pela convicção materna.
“Ver minha filha, recém-mãe, presa a uma máquina para conseguir sobreviver foi uma das dores mais profundas que já senti. Quando a porta da doação se abriu, não pensei duas vezes. Receio, sinceramente, eu não tive. Eu estava certa de que tudo daria certo”, afirma.
A confirmação veio após rigorosos exames médicos e trâmites burocráticos. “Quando saiu o resultado dos exames de compatibilidade, veio a confirmação que coroou essa certeza. Eu era 99% compatível com minha filha. Foi como se o próprio corpo confirmasse o que o coração já sabia“, destaca a doadora.
Inovação cirúrgica
O transplante renal foi realizado no dia 23 de julho, no Hospital Brasília, com o auxílio da cirurgia robótica. A tecnologia proporcionou um procedimento de alta precisão e com menor impacto invasivo para a receptora.
Segundo o nefrologista Pedro Mendes Filho, a tecnologia robótica agrega benefícios significativos em casos de doação viva. “Você ganha primeiro na questão da precisão: ele filtra qualquer erro humano, o que faz a cirurgia ter menor possibilidade de complicações por falha técnica. E além disso, temos uma incisão menor, o que melhora a recuperação pós-operatória, exige menos tempo na UTI, permite sair do leito mais rápido, gera menos dor e, normalmente, reduz o tempo para alta”, explica o médico.
O especialista detalha que as glomerulonefrites são doenças normalmente autoimunes, quando o próprio organismo ataca a si próprio. Elas vão destruindo o rim ao longo do tempo e, durante a gestação, como o fluxo de sangue no rim é mais elevado, algumas delas se exacerbam, acelerando o processo e antecipando o prazo para a diálise.
Recuperação e planos para o futuro
Para Carolina, os resultados da intervenção robótica superaram as expectativas pós-cirúrgicas. “O desejo do meu coração é que todos que fizessem transplante tivessem a oportunidade que eu tive, de ter acesso à cirurgia robótica. Sem dúvidas foi uma das melhores escolhas da minha vida! Me recuperei muito melhor do que do parto do meu filho”, pontua a publicitária.
Cerca de 30 dias após o procedimento, Carolina já estava em casa, cozinhando e cuidando do filho. “Hoje, tenho mais disposição, mais energia, não me canso facilmente como antes. É realmente ter a vida de volta”, afirma.
A mãe, Stela, também apresentou rápida reabilitação, retornando aos compromissos profissionais em duas semanas. Apenas 15 dias após a cirurgia, ela já estava de volta à sala de aula.
“Minha saúde está ótima. Doe. É um gesto que traz a vida de volta para o outro. Não existe presente maior do que devolver a vida a quem a gente ama”, aconselha Stela.
Com a melhora nos exames laboratoriais e a retomada da autonomia, Carolina organiza os próximos passos ao lado da família e do filho. “A primeira coisa que quero, assim que for liberada, é viajar. Quero viver momentos com meu filho que até hoje não pude viver, retomar minha vida profissional e os planos com meu esposo. Enfim, viver”, afirma.
Conscientização no Setembro Verde
A história ganha ainda mais sentido no Setembro Verde, mês dedicado à conscientização sobre a doação de órgãos e tecidos no país. Além de evidenciar a importância da doação inter vivos, o caso exemplifica como o avanço tecnológico em transplantes renais oferece mais segurança aos procedimentos e contribui para aliviar as listas de espera.
Como resume o médico Mendes Filho: “A grande vantagem do doador vivo é que você não depende do sistema de alocação. Conseguir aumentar a quantidade de doações vivas ajuda a liberar a fila para as pessoas que não têm ninguém apto ou compatível para doar. Quanto mais avanço tecnológico a gente vai tendo, mais encoraja as pessoas a fazerem o transplante por doador vivo, deixando o doador com mais segurança”, comenta.

