A campanha de Lula por causa do processo do INSS, que tem Fábio Luis Lula da Silva, o Lulinha, como alvo de investigação. E por causa da percepção, pela população, da proximidade de Alexandre Moraes com o governo. Além do mal-estar dos brasileiros com a queda do seu poder de compra e com o endividamento das famílias. A conta cai no colo de Lula, o poder incumbente.
E a campanha de Flavio Bolsonaro por causa do filme “Dark Horse”, realizado com apoio do Banco Master. André Mendonça homologou delação que envolve o filme “Dark Horse”. O delator, Antonio Carlos Freixo Jr., ligado ao Banco Master, detalha pagamento ao Fundo Heaven Gate nos Estados Unidos, usado para financiar o filme. Supostos indícios de lavagem de dinheiro.
Por sua vez, Flavio Dino retira sigilo de decisão sobre operações de “Dark Horse”. Trata-se de investigação de suposto uso indevido de emendas parlamentares para financiar o filme. As investigações apontam para o possível desvio de recursos públicos por meio de uma organização criminosa.
Todos vemos com olhos de ver, desde a semana passada, as graves denúncias contra o ministro Alexandre Moraes, visto pela oposição ao governo como inimigo do bolsonarismo e com certa proximidade com o governo.
Todos estamos vendo a alta das tensões entre os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça. O ministro André Mendonça é visto na polarização brasiliense como próximo ao bolsonarismo.
Tudo tem a ver com os processos do “Caso Master” e do “Caso INSS”. O STF vira uma espécie de ringue de disputas internas de poder.
Muito pior: temos uma crise de Estado muito grave.
E com a escalada da turbulência política atingindo as eleições presidenciais. Estas eleições se tornaram ainda mais imprevisíveis. E ainda mais sujeitas ao improvável – a 23 dias da realização do primeiro turno em 4 de outubro.
Neste momento, as últimas pesquisas apontam tendência de leve queda de Lula e tendência de leve subida de Flavio Bolsonaro. E o surgimento da candidatura de Augusto Cury em terceiro lugar.
Tudo embrulhado na turbulência de uma Crise de Estado; no avanço das operações de investigações da Polícia Federal; e na crescente sensação de mal-estar do eleitorado com a queda do seu poder de compra e o seu vertiginoso endividamento: 82% dos brasileiros estão endividados.
O improvável, mas não impossível, é o aumento das intenções de votos em Augusto Cury, candidato à Presidência da República pelo Avante. Na semana passada, a pesquisa da Quaest mostrou uma aceleração de Cury para superar a barreira dos dois dígitos, chegando a 10% das intenções de votos. Um salto de 2% para 10%. Nesta semana, pontou 8% em nova pesquisa Quaest – ou seja, os mesmos 10%, no limite da margem de erro.
E daí? Daí que, tudo somado, as eleições presidenciais continuam em aberto, sujeitas à grande volatilidade.
Sim, a pesquisa Quaest registra ainda 41% de indecisos na menção espontânea. O salto de Cury é o sintoma da permanência da volatilidade.
O salto vem dos eleitores independentes: 24% dos independentes já diziam, na pesquisa da semana passada, votar nele no primeiro turno. Os independentes continuam representam em torno de 32% do eleitorado.
Portanto, continua com os independentes os rumos das eleições. A volatilidade ainda vai definir as eleições.
Na última pesquisa Quaest, 20% do eleitorado declara desejar um Outsider, enquanto outros 17% desejam um moderado. Perfazem 37% do eleitorado. É maior do que o piso de Lula – que varia entre 29% e 33% -, e também maior do que o piso de Flavio Bolsonaro, da ordem de 24%, segundo a Quaest.
Podendo abrir caminho para uma (até agora) improvável ida de Augusto Cury para o segundo turno. Desde que ele diga a que veio e consiga comunicar quais são as suas propostas exequíveis de futuro para o Brasil, para além da polarização política.
Felipe Nunes, analisando a pesquisa da semana passada na Globo News, ressaltou que Flavio só tem maioria na extrema direita. Registrou que só 33% dizem que Flavio é o melhor da direita. E que 45% da direita dizem que ele não é o melhor.
Isto mostra, segundo Felipe, potencial para engajamento e transferência de voto. Ainda mais porque as rejeições de Flavio e Lula continuam altas. 55% para Flavio e 53% para Lula.
Portanto, há espaço eleitoral ainda aberto para o eventual crescimento de um candidato de terceira via. 41% de indecisos.
Felipe mostrou que o potencial de voto de Cury aumentou para mais 21%, embora seu conhecimento ainda seja baixo. Só agora o eleitor começa a identificar o Cury candidato com o Cury escritor.
Juliano Spyer, por sua vez, mostra que o crescimento de Cury entre cristãos atrapalha Flavio e Renan. Ele vê Cury como capaz de conquistar os eleitores insatisfeitos com a polarização. E como um antídoto aos conflitos e ódios das redes sociais.
Spyer avalia também que a campanha propositiva de Cury atrai mulheres que temem o acirramento da violência no Brasil, deixando os seus filhos mais vulneráveis. A candidatura de Cury, ainda segundo Spyer, é uma alternativa também à esquerda para quem não quer votar no “menos pior”.
Os eleitores desanimados e/ou indignados podem ir na direção de uma terceira via com Augusto Cury. A sua moderação e o seu perfil com propostas para governar, chamou a atenção.
Segundo Nunes, a direita não bolsonarista e moderada pode sair do Flavio. Potencial para a eventual continuação da escalada de Cury.
No eleitorado nacional, existe a demanda por uma terceira via. Mas faltava a oferta.
Estaria chegando agora?
Impossível prever. Mas é possível constatar que a imprevisibilidade eleitoral abre caminho para o crescimento, na reta final, de uma candidatura de outsider moderado e propositivo.
As pesquisas continuam mostrando o cansaço com a polarização; a busca de um projeto de futuro; o encontro do liberal com o social.
Um potencial para uma candidatura de centro e moderada chegar a conquistar piso eleitoral de até 30%. E ser capaz de disputar a ida para um segundo turno.
Na atual conjuntura de turbulência e rejeições aos líderes nas pesquisas – Lula e Flavio Bolsonaro – até o improvável pode acontecer.
Enquanto isto, a oligarquia dos poderes está se manifestando em Brasília. É ela que está em crise. É ela que provoca uma grave Crise de Estado.
“Brasília em Chamas”.
Antônio Carlos de Medeiros é pós-doutor em Ciência Política pela The London School of Economics and Political Science.

