Desigualdade social é igual a pelo de gato. A gente encontra alojada nos lugares menos prováveis. Para usar um termo da física, na economia de livre mercado a acumulação de riqueza é regida por uma “força centrípeta”. Ou seja, em todo processo que implique em risco, lucro ou prejuízo, a riqueza é sugada para o centro (o dinheiro vai para a mão de poucos). Ao mesmo tempo, o desenvolvimento humano é regido por uma “força centrífuga”. Ou seja, enquanto a riqueza vai se concentrando, a maioria das pessoas é expelida para fora (onde a vulnerabilidade é maior). É desse jeito, seja entre pessoas ou entre países. Um jogo desigual entre ricos e pobres, no qual o Estado existe para ser o árbitro da partida. Pelo menos, deveria ser assim nas democracias modernas.
Basta olhar o exemplo apresentado pela ONU Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), no seu relatório “Atualização do Comércio Mundial: Os países menos desenvolvidos estão atrasados nas exportações digitais”. Em bom português, mais uma vez os países desenvolvidos estão levando a melhor fatia das evoluções econômicas. Dessa vez, são os serviços que assumem a vanguarda dos negócios internacionais, enquanto os países pobres e aqueles em desenvolvimento estão comendo poeira, para variar. Ficaria mais fácil apelar para os mecanismos multilaterais de mediação, como ONU, OCDE, G20, se seus próprios governos (federais, estaduais e municipais) se dedicassem ao compromisso primordial do Estado – de estabelecerem pactos sociais e planos de desenvolvimento com foco nas pessoas.
Segundo o relatório da UNCTAD, os serviços já representam mais de 70% dos insumos intermediários globais. Em 2025, os serviços representaram 27% das exportações mundiais. Entre eles, 56% são os chamados serviços digitalizáveis. No mesmo sentido, especialistas que fazem parte do ecossistema Porto Digital, em Recife, entendem que os produtos digitais representam um vetor importante de exportações. É muito mais fácil exportar software, algoritmos e IA do que itens físicos. Já são inúmeras startups realizando negócios com clientes e parceiros em outros países, muitas vezes, do outro lado do mundo. Tudo feito virtualmente.
Entretanto, nos países menos desenvolvidos, as exportações digitais correspondem a apenas 16% dos serviços exportados. Muito abaixo daquela média mundial. Entre os motivos, estão o alto custo de conectividade, a baixa capacidade técnica e a concentração de poder de IA em poucos países e empresas. Fica inaugurada assim a desigualdade digital, que aprofunda as demais modalidades de desigualdade social. Países pobres têm quase 20 vezes o custo de banda larga dos países ricos. Não admira que o uso médio de banda larga internacional por habitante dos países ricos possa chegar a dez vezes acima dos países pobres.
A UNCTAD recomenda que, especialmente os países menos desenvolvidos, invistam em infraestrutura e capacidades digitais, se quiserem ocupar melhor posição, não só nos negócios, mas, também, nas mesas de decisão das regras internacionais. O Brasil tem as condições para se estabelecer como jogador relevante nesse jogo, considerando-se seus estoques de energias renováveis, seus minerais terras raras e petróleo. Pesam contra a Ilha da Vera Cruz a situação educacional desfavorável (ranking internacional PISA 2025), a desigualdade social persistente e a fascinação pelo neoextrativismo para exportação de commodities.
Felipe Sampaio: Cofundador do Centro Soberania e Clima; com atuação em grandes empresas, organismos internacionais e terceiro setor; sócio da Terra Consultoria e Inovação; chefiou a assessoria especial do Ministro da Defesa; dirigiu a área de estatísticas no Ministério da Justiça; ex-secretário executivo de Segurança Urbana do Recife; foi diretor de programa no Ministério do Empreendedorismo.

