Na política brasileira, terceira via lembra menos um caminho próprio do que uma faixa de aceleração: só prospera quando consegue entrar numa das pistas principais.
Collor começou 1989 no minúsculo PRN e cresceu ao ocupar o campo anti-Lula. Chegou ao segundo turno não como alternativa aos dois polos, mas como um deles. Bolsonaro repetiu o movimento em 2018: o PSL era pequeno, mas havia um enorme eleitorado antipetista à procura de candidato. Quando o encontrou, a terceira via virou uma das duas.
O inverso também se repete. Marina Silva, em 2014, e Ciro Gomes, em 2002, cresceram enquanto pareciam alternativas e viraram alvos assim que ameaçaram uma vaga no segundo turno. Marina sofreu a ofensiva pesada da campanha de Dilma; Ciro levou a raquetada tucana e colaborou com erros próprios. Hoje disputam, respectivamente, o Senado abraçado ao petismo e o governo do Ceará abraçado ao bolsonarismo.
Augusto Cury entra nesse roteiro por um partido de base parlamentar quase residual. O Avante tem cinco dos 513 deputados federais e um senador — menos de 1% da Câmara. Nasceu PTdoB, registrado em 1994, e mudou de nome em 2017. Não oferece ao candidato tropa capaz de sustentar sozinha qualquer reforma relevante.
Daí o interesse de O Brasil dos Nossos Sonhos, o programa de Cury. Entre saúde emocional, empreendedorismo, indústria, segurança e mudanças no Supremo, há uma proposta que mexe no mecanismo do poder: o semipresidencialismo.
O presidente continuaria eleito pelo voto direto e responsável pelas funções estratégicas. A administração cotidiana caberia a um primeiro-ministro sustentado pela maioria parlamentar. Perdida a maioria, troca-se o chefe de governo sem derrubar o chefe de Estado.
A ideia não é nova. Há quem diga que uma espécie de semipresidencialismo já se instalou sem trocar uma vírgula da Constituição. O Congresso ganhou poder sobre a agenda e, sobretudo, sobre o Orçamento; as emendas impositivas ampliaram a capacidade dos parlamentares de decidir onde o dinheiro público será gasto. “Parlamentarismo branco” é uma das expressões usadas para descrever o fenômeno.
Cury propõe transformar em sistema o que muitos já enxergam na prática: presidente forte nas urnas, governo dependente de uma maioria forte na pauta e no caixa.
Só que implantar o semipresidencialismo exige mudar a Constituição: 308 deputados e 49 senadores, em dois turnos em cada Casa. O partido de Cury dispõe de cinco deputados e um senador.
Não é prognóstico. É conta.
E a conta leva de volta ao velho bordão: seja qual for a pista escolhida, o Centrão continuará com a faca e o queijo na mão. Talvez seja esse o destino das terceiras vias brasileiras — ou entram no fluxo principal e deixam de ser terceiras, ou acabam no acostamento, que aqui em Portugal se chama berma.
(Transcrito do PÚBLICO)

