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Mais vale a suspeita que a prova. De profetas e profecias (por Pedro Costa)

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 1 hora)
Mais vale a suspeita que a prova. De profetas e profecias (por Pedro Costa)

Se conhece o profeta pela profecia? O Novo Testamento diz que é preciso desconfiar dos falsos profetas e que o profeta é o responsável pela profecia. Assim o bom cristão deve ter muito cuidado em identificar o profeta. Por isso, há alguns anos, quando Bolsonaro demitiu Moro para controlar a Polícia Federal e o substituiu por André Mendonça para assegurar que essa não [aqui palavra chula] com a sua família, fiquei estarrecido quando o pastor-ministro o declarou profeta da segurança pública.

É claro que muitos profetas falaram em morte e muitos trataram de escatologia, mas a volúpia com que Bolsonaro falava de matar as pessoas só tinha equivalente a com que se apascentava no outro sentido de escatologia. Sua profecia era — como transmitem seus filhos — o homicídio, o extermínio, daí sua defesa dos esquadrões da morte e dos assassinos profissionais.

Entendi, naquele dia, que o pastor era uma abominação, pois se comprometia com o oposto da palavra de Jesus Cristo enquanto usava o Seu nome em vão.

Infelizmente os fatos não desfizeram esse juízo. Assim, há algum tempo, tenho avisado para os sinais não-proféticos que sua ação como ministro do STF e do TSE traziam e trazem para a democracia. A diferença de tratamento entre o que é a favor dos bolsonaros & cia e o que é a favor da democracia tem sido escandalosa.

Pior, como aconteceu na lava-jato e, de uma maneira geral, em todo linchamento público, a mídia se põe ostensivamente do lado das suspeitas e acusações sem prova e contra o devido processo legal. Os corpos dos condenados sem julgamento se empilham sobre os da escola-base, sobre a adesão quase unânime a todos os casos de golpe de Estado. Ninguém tenha dúvida que a defesa “caridosa” dos golpistas do 8 de janeiro como se fossem pobres velhinhas de Bíblia na mão só não é mais escrachada porque ainda têm dúvida se conseguirão eleger para comandar o Estado o próprio Jair Bolsonaro, que corresponde ao desejo íntimo do “mercado”, que detesta Lula por ter sido operário e defender os pobres e os humildes.

Quando André Mendonça atacou maliciosamente Alexandre de Moraes — culpado de defender a democracia e condenar o profeta —, Paulo Gonet — o acusador dos heroicos destruidores e de seu chefe — e Andrei Rodrigues — o investigador de seus crimes —, nada mais fez que escancarar o seu desprezo pela Lei e pelo Estado de Direito.

Conseguiu que, com raras exceções, todos peçam que eles, e especialmente Moraes, sejam literalmente apedrejados e linchados, ou, como fazia a KKK, enforcados e incendiados. O próprio Lula já quase aderiu aos linchadores. O Edson Fachin está empurrando com os cotovelos uns e outros para tomar a frente da turba.

Deixem-me dar uma palavra de ponderação. Se é possível que Alexandre de Moraes tenha cometido crimes ou impropriedades éticas em seu relacionamento com Daniel Vorcaro, é igualmente possível que não. A regra é a da presunção de inocência — ou, para os cristãos, que já se meteram nessa crônica, da necessidade de não ter culpa para atirar a primeira pedra. Se não há nada demais em comprar um terno caro, mesmo quando se ganha apenas o suficiente para viver, como declarou o pastor-sempre-ministro, mas receber, conexo ao terno, Vorcaro para discutir um precatório em março do ano passado (é normal receber os advogados que defendem um processo, não os processados), recomenda abaixar o braço, pastor. Agora terá que responder pelos enormes telhados de vidro de que tenta sair de baixo com sua instituição sem fins lucrativos, que recebia um tutu considerável do Cláudio Castro quando o julgava e votava por sua absolvição etc. e tal.

O pastor confundiu sua nomeação para ministro do Supremo com indicação para delegado de polícia e procurador da República. Quebrou cadeia de custódia. Negociou delação, o que é vedado pela lei das delações privilegiadas. Assumiu papel reservado ao plenário da Corte. Já deu mil e um pretextos para anulação dos inquéritos contra o Vorcaro. Já, com o capuz do TSE, achou normal deepfake do profeta, em companhia do filho, destruindo o PCC e o CV e deixando escapar — por incompetência? —  o PT. Já, com o capuz do TSE, proibiu dizer que o filho do papai fez rachadinha — a presunção de inocência foi destruída pelo Queiroz, que disse que fazia em nome do 001, não pelo PT.

Devíamos estar cantando “vem de lá / seu delegado / Pai Francisco / foi pra prisão”! Que nada: cantamos “como ele vem / todo requebrado / parece um boneco / desengonçado”!

Vamos e venhamos, o pastor tem em seu gabinete um policial que chefiou, durante sua passagem pelo ministério da Justiça, o combate aos antifascistas — sempre protesto por, funcionário público, não ter recebido a consagração de ser antifascista oficial. Bastaria, aliás, a defesa dos fascistas, outro nome de combater os antifascistas, para desqualificar um candidato a ministro do Supremo, mas o Senado não fez o seu papel ao examinar o seu nome e a mídia não está nem aí para esse escândalo.

O pastor tem em seu gabinete uma policial que “guarda” a íntegra do inquérito que investiga o caso do INSS sem registrar quem o acessa para cometer o crime de quebrar sigilo e pregar linchamento. A polícia deixa claro, no relatório de inteligência encaminhado pelo ministro Moraes ao presidente do Supremo, que não há indícios de envolvimento do Lulinha, sendo evidente a perseguição política.

O pastor não mandou, é claro, depois da revelação feita dia 13 de maio da conversa do “irmão” Flávio sobre os 134 milhões a serem enviados aos Estados Unidos do Trump sob o vago pretexto do filme B mais caro do mundo, que seja feita qualquer investigação, embora tenha recebido a PET 16.036 — em que Lindbergh Farias pede que se faça um inquérito sobre o caso — em fins de junho e haja parecer favorável do PGR. O site do STF diz que a PET é sigilosa e não informa nem quem são as partes. Ah, mas o ministro-pastor é imparcial e não teria a parcialidade de mandar investigar o filho do profeta!

É coincidência todo este imbróglio ter ocorrido pouco antes da data nacional do bolsonarismo, o 7 de setembro — mais assenhoreado por eles que os 250 da declaração escrita pelo Jefferson o foram pelo Trump, que afinal só cunhou moedas douradas, fez corrida de carrinhos pelas ruas de Washington e um catch-as-catch-can nos jardins da Casa Dourada — que estava meio murcho e agora pretendem que reunirá metade de São Paulo?

Ah! Não ocorre ao demo que talvez, talvez, mal ouso mencionar para não ser acusado de má fé com o pastor, talvez tenha a ver com a aproximação das eleições…

Pedro Costa

Arquiteto e escritor.

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