Belo Horizonte – Foram 31 anos de serviço na Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG). A trajetória começou em 1º de agosto de 1995, quando a policial subtenente Juliana ingressou na corporação, e terminou este ano, em Uberlândia, no Triângulo Mineiro. Ao olhar para esse período, ela define a carreira como longa, desafiadora e marcada por diferentes experiências. Ela diz ter sido a primeira mulher trans na corporação mineira.
“Quando você faz algo com muito amor, com muita dedicação, a gente se apaixona pela profissão”, afirmou. Para ela, a aposentadoria representa uma sensação de vitória e de dever cumprido, mas também vem acompanhada de tristeza por deixar uma atividade da qual gostava muito.
A subtenente Juliana postou um vídeo em suas redes sociais comentando sobre o momento da aposentadoria. Ela entregou a documentação para na quinta-feira (27/8) e gravou o vídeo na sexta-feira (28/8). Ela comunica a aposentadoria e afirma que “pessoas transgêneros precisam apenas de oportunidades.”
Ela dedicou a sua trajetória à sua mãe. Também dedicou a luta dela a todas as mulheres trans vítimas de violência. “Dedico, também, a todas as mulheres trans e travestis, que foram mortas assassinadas, aquelas que lutaram pelo simples direito de existir”.
Para ela, contar sua própria história também serve para mostrar que foi possível ser uma mulher trans dentro da Polícia Militar de Minas Gerais e que outras possibilidades profissionais podem ser alcançadas.
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Entrada na Polícia Militar
A policial conta que entrou diretamente como sargento, após fazer o Curso de Formação de Sargentos Músicos (CFS Músico), destinado à banda de música da corporação. Apesar da especialização, a formação inicial era essencialmente militar e tinha pouco conteúdo relacionado à música.
Antes de ingressar na PM, ela passou por uma entrevista com oficiais. Na ocasião, foi questionada sobre o motivo de ter escolhido a banda de música em vez de atuar na área operacional.
A resposta provocou risos entre os oficiais: “Eu falei que eu não queria correr atrás de ladrão”, relembra.
Segundo ela, naquela época havia muita inocência sobre a estrutura da corporação. “Eu não sabia a diferença de soldado e coronel. Para mim, era uma tábua de salvação”, diz Juliana.
A permanência na banda de música, porém, não a impediu de atuar em diversas outras frentes. Ao longo da carreira, lidou com rebelião em penitenciária, operações policiais durante a madrugada, patrulhamento e ações de segurança em eventos. Também trabalhou em carnavais, partidas de futebol, festas agropecuárias e blitzes.
Transição e apoio dentro da corporação
A policial relatou como foi o processo de transição de gênero enquanto ainda estava na ativa. Ela conta que iniciou a terapia hormonal em 2023, cerca de dois anos antes de passar a se apresentar como mulher trans. Durante esse período, percebeu o desenvolvimento das mamas e precisou escondê-las.
Segundo ela, o tratamento provocou efeitos colaterais, como oscilações de humor e depressão, além de emagrecimento e outras dificuldades físicas. Mesmo enfrentando esse período, afirma que não deixou de trabalhar.
A cirurgia foi realizada em Blumenau, em Santa Catarina, onde colocou próteses mamárias e também passou por um procedimento de feminização facial.
Uma semana antes da viagem, ela decidiu contar ao chefe que era uma mulher trans e que estava passando pelo processo de transição. Também revelou que viajaria para Santa Catarina para realizar a cirurgia.
O momento, segundo ela, foi cercado de medo e ansiedade. A reação do chefe, porém, foi diferente do que imaginava.
“Você nos ajudou muito, agora chegou a hora de nós ajudarmos você”, teria dito ele.
A policial afirma que a reação fez com que se sentisse aliviada, depois de imaginar que poderia enfrentar uma reação negativa ao revelar a transição.
Em 24 de setembro, a cirurgia completará um ano, data que ela considera como o momento em que “renasceu”.



Depois de 31 anos de serviços prestados à Polícia Militar de Minas Gerais, a Subtenente Juliana comunicou sua transferência para a reserva remunerada
Subtenente Juliana / Arquivo pessoalEla considera que os 11 meses em que atuou na PM como mulher trans foram “perfeitos”
Subtenente Juliana / Arquivo PessoalÚltimos meses na PM como mulher trans
Durante os cerca de 11 meses em que permaneceu na Polícia Militar após a transição, ela afirma não ter sofrido ataques, humilhações ou perseguições dentro da corporação.
“Na Polícia Militar, eu não tenho nada a reclamar, ninguém me atacou lá dentro, ninguém me humilhou”, relata. Segundo ela, a experiência foi positiva desde o início da transição até o último momento antes da aposentadoria.
Apesar disso, conta que precisou manter uma postura mais cuidadosa e seguir algumas restrições, como não publicar fotos nas redes sociais. Ainda assim, classifica o ambiente dentro do batalhão como “maravilhoso”.
Fora da unidade, quando saía para trabalhar, a reação das pessoas era diferente. Ela conta que chamava a atenção nas ruas e percebia o espanto de quem a encontrava, mas afirma que não sofreu agressões ou provocações.
“As pessoas ficavam assim extremamente surpresas. Mas ninguém me atacou, ninguém cutucava, ninguém rindo, nada. Todo mundo se portou super bem.”
De acordo com o relato, todas as pessoas mantiveram uma postura respeitosa, mesmo diante da surpresa.
Ela considera que os 11 meses em que atuou na PM como mulher trans foram “perfeitos”. Apesar disso, afirma que não teve autorização para conceder entrevistas sobre sua história, porque, segundo ela, o caso foi mantido em silêncio pela corporação.
Atuação durante a pandemia
Na pandemia, a policial passou a exercer uma função diferente. Diante do número de militares que estavam morrendo e das dificuldades enfrentadas pelos familiares, ela foi convidada a integrar um programa de acolhimento.
“Eles me convidaram para trabalhar com um programa de acolhimento, tipo o serviço social”, conta.
Ela aceitou o desafio e passou a chefiar uma equipe voltada ao auxílio dos militares que estavam morrendo e de seus familiares.
Com o fim da pandemia, a corporação decidiu mantê-la na atividade, desta vez trabalhando na área da saúde. Ela permaneceu nessa função até a aposentadoria, por aproximadamente cinco ou seis anos.
Durante toda a carreira, esteve lotada em Uberlândia, onde ingressou na PM em 1995 e permaneceu até a aposentadoria.
Referência para outras mulheres trans
A policial relaciona sua trajetória às dificuldades enfrentadas por muitas mulheres trans. Na avaliação dela, parte delas acaba na prostituição por falta de alternativas, especialmente depois de serem rejeitadas pelas próprias famílias e encontrarem obstáculos para entrar no mercado de trabalho.
Ela acredita que a internet criou novas possibilidades de organização e visibilidade para essa população.
“Hoje nós temos condições de nos organizar e mostrar que há outras possibilidades, que nós temos condições de ocupar lugares de destaque, de comando”, diz.
É nesse contexto que ela pretende transformar a própria história em referência para outras mulheres trans.
“Meu objetivo é propagar essa minha história para que outras me vejam como referência e uma forma para que a vida delas realmente faça sentido e que elas tenham esperança que elas podem conseguir, assim como eu.”
Uma carreira marcada pela superação
A entrada na PM também esteve ligada à condição financeira em que vivia. Ela conta que veio de uma família muito humilde e que a situação econômica era extremamente precária.
Quando chegou à corporação, pesava 55 quilos e tinha 1,85 metro de altura. Durante a formação, recebeu o apelido de “Grafite”, atribuído, segundo ela, à fragilidade física que apresentava naquele período.
Outro momento marcante ocorreu durante o teste psicotécnico. Entre as perguntas, havia uma sobre o que ela pensava a respeito da homossexualidade.
A resposta foi direta: “Uma relação entre duas pessoas do mesmo sexo, uma relação bonita e que deve ser respeitada.”
Ela afirma que nunca escondeu sua orientação sexual durante a carreira.
Os primeiros anos, entretanto, foram difíceis. Segundo o relato, ela teve a impressão de que era submetida a situações com o objetivo de fazê-la desistir ou ser excluída da formação.
“Eu só acreditei que eu ia formar no final do curso, porque eles me pressionaram de várias formas para que eu desistisse, para que eu fosse excluída.”
Ela diz que era colocada em atividades consideradas mais difíceis, em áreas que exigiam maior preparo físico e firmeza.
Nos momentos em que pensava em abandonar a carreira, lembrava da situação de pobreza que havia enfrentado.
“Quando eu pensava em desistir, eu lembrava da pobreza, e aí eu falei assim, tem que ser daqui pra frente.”
Mesmo diante das dificuldades, decidiu continuar. E, ao longo de 31 anos, construiu uma trajetória que agora chega ao fim com a aposentadoria, acompanhada pela satisfação de ter cumprido seu dever e pela saudade de uma profissão que, segundo ela, aprendeu a amar.

