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A barreira inquietante (por Miguel Esteves Cardoso)

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 3 horas)
A barreira inquietante (por Miguel Esteves Cardoso)

Depois de uma hora a tirar fotografias de uma paisagem, corri para casa para vê-las no computador. Eram muito diferentes da paisagem. Ainda bem. Pareciam de outro mundo. Era o que eu queria.

Mas depois decidi voltar ao mesmo lugar, mas sem máquina fotográfica. Vi logo que não tinha lá estado.

A máquina não é só uma barreira entre os meus olhos e a paisagem. É uma tesoura, que corta tudo até ficar um retângulo. É uma plaina, que alisa tudo.

Acima de tudo, é uma limitadora. Os nossos olhos veem mais e melhor do que a melhor objetiva do mundo. As lentes reduzem tudo. Escurecem, entortam, mentem. Quando olhamos para uma paisagem estamos mergulhados dentro dela — sentimos o que vemos, o chão e o céu e tudo aquilo à nossa volta. Cheiramos. E ouvimos. E estamos. E aquilo nunca pára. E nós nunca paramos de ver.

A máquina apenas regista um plano de um bocadinho daquilo, como se fosse um milagre, durante menos do que um segundo.

Voltei ao mesmo sítio e percebi logo que não tinha lá estado. A máquina quase que serviu de véu, para não me mostrar, para a paisagem não se poder mostrar a mim.

Agora vem a parte triste: fartei-me muito depressa de lá estar. Sem a máquina — sem o lucro das fotografias a acumular-se —, o que é que eu estava ali a fazer?

O certo é que não teria vindo aqui só para olhar para esta paisagem. Por que não? Por que não teria nada para mostrar quando chegasse a casa? Por que as pessoas já não se deslocam sem ter uma razão para se deslocarem?

Se calhar, a experiência só de estar é pobre. Se calhar, estar no mundo, só por si, não chega. Temos de conviver, namorar, escrever, comer, fotografar, fazer qualquer coisa enquanto lá estamos.

Se calhar, estamos viciados em trabalhar. Temos forçosamente de acrescentar qualquer coisa ao que já existe: criar, aproveitar, transformar.

Temos de aprender a ser mais espectadores, menos inquietos — e menos intervenientes.

(Transcrito do PÚBLICO)

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