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Dólar vai a R$ 5,23 com previsão de alta de juros nos EUA já em setembro

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 1 hora)
Dólar vai a R$ 5,23 com previsão de alta de juros nos EUA já em setembro

O dólar registrou alta de 0,66%, cotado a R$ 5,19, nesta sexta-feira (28/8). Durante a sessão, contudo, a moeda americana chegou a avançar até R$ 5,23 (às 13h20) em salto superior a 1,00%. Já o Ibovespa, o principal índice da Bolsa brasileira (B3), fechou em alta de 0,30%, aos 175,6 mil pontos.

O principal vetor dos mercados de câmbio e ações no pregão foi a palestra do presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), Kevin Warsh (foto em destaque), no simpósio de Jackson Hole, no estado de Wyoming. As declarações de Warsh provocaram uma reviravolta na expectativa sobre juros nos EUA, antecipando a previsão de alta da taxa para setembro.

No encontro, o presidente do BC americano mostrou-se preocupado com a inflação. Warsh disse que, embora os últimos índices sobre a trajetória dos preços tenham sido mais favoráveis do que o esperado, “eles não indicam que as tendências subjacentes (os núcleos dos indicadores, que excluem dados voláteis de alimentação e energia) tenham melhorado de forma significativa”.

Warsh observou que nenhuma medida de inflação é “perfeita”. Acrescentou, contudo, que “todas apontam para a mesma conclusão: a inflação está acima da meta de 2%”. A seguir, arrematou: “Portanto, o foco principal do Fed neste momento deve ser os preços.”

Efeito imediato

A análise de Warsh teve impacto imediato entre agentes econômicos. De acordo com a ferramenta FedWatch, do CME Group, antes das declarações do presidente do BC, a possibilidade de uma alta dos juros na próxima reunião do Fed, em setembro, era de 35,4%. Depois da palestra, as chances subiram para 59,7%. Ou seja, tornaram-se hegemônicas.

Agora, a estimativa é de que a taxa será aumentada em 0,25 ponto percentual (p.p.) no próximo mês. Com isso, e se confirmada a previsão, ela passará do atual intervalo entre 3,50% e 3,75% para 3,75% e 4,00%.

Impacto global

A taxa mais alta nos Estados Unidos — ou a mera perspectiva de sua elevação — afeta o mercado de forma inexorável. Ela torna, por exemplo, mais atrativos os investimentos em títulos da dívida americana, os Treasuries, considerados os ativos mais seguros do mundo. Aliás, os rendimentos desses papéis subiram na sessão desta sexta-feira (leia abaixo).

Com isso, a tendência é de queda no interesse por aportes em ativos de maior risco, como as ações negociadas em bolsas de valores. Além disso, ocorre, em paralelo, uma pressão de alta na cotação do dólar.

Estreia estridente

O encontro de Jackson Hole é realizado anualmente pelo Fed desde 1978. Ele reúne os principais banqueiros centrais do mundo, ministros, acadêmicos e líderes financeiros para debater questões ligadas à economia global, em especial, aos desafios das políticas monetárias. Essa foi a estreia de Warsh como presidente do BC no evento.

Bolsas globais

Os principais índices de Nova York também caíram com as declarações de Warsh. Às 16h50, as baixas eram generalizadas em Wall Street: de 0,26%, no S&P 500; de 0,04%, no Dow Jones; e de 0,54%, no Nasdaq, que concentra ações de empresas de tecnologia.

O dólar também avançou globalmente. Às 16h45, o índice DXY, que mede a força da moeda americana frente a uma cesta de seis divisas fortes (como o euro, o iene e a libra esterlina), subia 0,52%, aos 99,66 pontos.

Emprego no Brasil

No ambiente interno, os investidores acompanharam a divulgação dos dados do ⁠Cadastro Geral ⁠de Empregados e   Desempregados (Caged), veiculados pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). Eles mostraram que o Brasil criou 58.568 vagas formais de emprego em julho. O número ficou bem abaixo da mediana de mercado, de 114 mil, rompendo o piso das projeções, de 90,5 mil.

Taxa Selic

Para Vitor Kayo, economista sênior da Nomad, os números apontam para uma perda de fôlego do mercado de trabalho formal, mas ainda é cedo para tratar esse movimento como tendência consolidada de desaceleração. “A fraqueza dos dados deve levar a um aumento das apostas de uma queda de juros de 0,25 p.p. na próxima reunião do BC brasileiro, em setembro, e até uma nova queda da mesma magnitude numa das reuniões seguintes (em novembro ou dezembro)”, diz.

André Valério, do Banco Inter, nota que, no contexto geral da atividade, a economia brasileira dá sinais de moderar o ritmo de crescimento, acompanhando a política monetária restritiva (leia-se os juros altos). “Com isso, vemos condições para o Copom (o Comitê de Política Monetária do BC) continuar cortando a taxa básica de juros nas três reuniões restantes deste ano, levando a Selic a 13,25% até dezembro”, afirma.

Contraponto

Para Yihao Lin, da Genial Investimentos, a tese de queda de juros no Brasil esbarra em um problema: a nova perspectiva de alta da taxa americana. “Uma eventual retomada do aperto monetário nos Estados Unidos tenderia, em um primeiro momento, a se traduzir em menos espaço para cortes dos juros por aqui, com a discussão sobre alta da Selic dependendo de uma deterioração adicional do câmbio e das expectativas de inflação”, avalia o economista.

Juros futuros

Rafael Dadoorian, especialista em renda fixa da corretora Convexa, observa que os juros futuros também subiram. “Eles avançaram principalmente nos vencimentos mais longos, acompanhando a pressão externa após o discurso de Kevin Warsh”, diz. “O presidente do Fed reforçou a preocupação com a inflação americana, que segue acima da meta de 2%, levando o mercado a ampliar as apostas em alta dos juros nos EUA.”

Dadoorian acrescenta que os rendimentos dos Treasuries subiram, com o título de dois anos atingindo máxima de um mês. “No Brasil, no fim da sessão, o DI para janeiro de 2030 avançava 10,5 pontos-base, a 14,375%, enquanto o janeiro de 2035 subia 12,5 pontos-base, a 14,600%.”

Ibovespa

João Vitor Saccardo, responsável pela mesa de renda variável da mesma corretora, nota que o Ibovespa também caiu depois da fala de Warsh, mas resistiu com a elevação das ações da Petrobras e com os dados sobre o mercado de trabalho do Caged. “A informação fez com que alguns papéis invertessem o sinal para alta, com a melhora no setor bancário, por exemplo”, afirma.

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