Se de um lado o gestor Vladimir Timerman acumula admiradores pelas provocações e denúncias contra pesos-pesados do mercado financeiro, de outro empilha processos judiciais pela abordagem considerada truculenta por suas vítimas.
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Primeiro a denunciar o Master, Timerman tem mais de 40 processos criminais por sua atuação heterodoxa no mundo do mercado financeiro. Os métodos sem filtro do gestor — que incluem xingamentos como “vagabundo”, “corno” e “bandido” nas redes — já rendeu a ele apelidos como “X9” e “anti-herói” da Faria Lima.
Com o avanço das investigações sobre irregularidades do Master, Timerman — que até então acumulava mais desafetos do que admiradores — passou a ser aplaudido. Mas, quem atravessou o caminho dele, se recusa a fazer coro aos elogios.
A coluna conversou com pessoas que foram objeto de denúncias feitas por Timerman e consultou os processos movidos contra ele. A reportagem também entrevistou o gestor (confira abaixo).
“Ele é uma metralhadora giratória. Uma hora, quem atira a esmo, acerta o alvo. E ele está sendo aplaudido por isso. Mas ninguém fala de quem ele feriu no processo”, contou um dos alvos de Timerman.
“Eu vou acabar com tua raça, tua mulher vai te largar e teus filhos vão ter vergonha de você.” A frase, postada por Timerman em uma rede social, foi dirigida ao advogado de um desafeto do gestor e faz parte de um imenso rol de publicações consideradas como “conteúdo e profundamente desrespeitoso” pela Justiça em uma das condenações contra o Timerman.
Além disso, em outra publicação, o gestor insinua que sabia onde a filha de um “rival” trabalhava. Timerman foi condenado, neste caso, pelo crime de perseguição (stalking). A pena, revista em decisão de maio deste ano, foi estabelecida em um ano, um mês e 15 dias de reclusão em regime aberto. O autor do processo foi o controverso investidor bilionário Nelson Tanure.
“Eu denunciei a maior organização da história do país. Minha agressividade é não abaixar a cabeça, é não ter medo desses caras. E eu vou continuar denunciando, vou continuar cobrando que os órgãos de controle façam o trabalho deles”, afirmou Vladimir Timerman ao Metrópoles.
De 2024 para cá, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) instaurou 23 inquéritos administrativos. Sete deles tiveram como origem denúncias feitas por Vladimir Timerman. A atuação insistente do gestor na autarquia rendeu embates com diretores, com o corpo técnico e com o então presidente da CVM, João Pedro Nascimento.
Antes de deixar o comando da CVM, em 2025, João Pedro acionou a Justiça contra Timerman. Nos autos, Timermann é acusado de promover manobras de coação e intimidação para constranger e pressionar a autarquia reguladora na pessoa de seu dirigente.
Na pista paralela, há ainda registros judiciais de conflitos fora do mundo das finanças. Uma motorista, em 2021, acusou o gestor formalmente por ameaça e perseguição em decorrência de uma discussão ocorrida no trânsito.
O episódio é, inclusive, citado pelas defesas de seus opositores no mercado financeiro para tentar demonstrar em juízo o que alegam ser um “padrão de conduta” hostil por parte de Timerman. O gestor, por outro lado, ironiza a situação, afirmando que seus opositores viraram sua vida “de ponta cabeça” e a única coisa que conseguiram encontrar para atacá-lo foi a “briga de trânsito”.
Guerra
Em outro episódio da guerra entre Tanure e Timerman, Tanure apresentou uma notícia-crime onde afirma que Timerman teria oferecido uma trégua em troca da venda de ações. De acordo com os autos, Timerman propôs vender a Tanure um lote de R$ 4,7 milhões de ações da construtora Gafisa por R$ 55 cada papel. Na data da proposta, 10 de fevereiro de 2023, as ações da Gafisa no mercado valiam apenas R$ 9,81.
Em depoimento judicial, Nelson Tanure declarou que a atuação de Timerman em prol dos acionistas minoritários era apenas uma “máscara” para tentar extorqui-lo. Segundo Tanure, Timerman enviou mensagens a terceiros exigindo R$ 2 bilhões, sob a ameaça de que teria “bombas atômicas” (informações falsas prejudiciais) contra suas empresas. A denúncia deu origem a um processo criminal por extorsão.
Em outro processo criminal em que Timerman foi condenado, ficaram registrados nos autos que o gestor teria tido benefícios financeiros com o modelo de ataque adotado pelo fundador da Esh Capital. O processo foi movido por Daniel Alberini, que acionou a Justiça contra Timerman por difamação.
Sócio da gestora CTM Investimentos, Alberini foi alvo de um artigo publicado por Timerman. No texto, Timerman imputava a Alberini irregularidades relacionadas aos fundos que investiam na Mobly. No dia da publicação, as ações da Mobly caíram 24,17% e mais de R$ 20 milhões foram resgatados dos fundos que investiam na rede de móveis.
Testemunhas ouvidas nos autos apontaram que Timerman teria montado uma estratégia para lucrar com o colapso. A própria sentença condenatória destaca que, em seu interrogatório, Timerman admitiu ter tido lucros com a publicação do artigo. Ele declarou que “não vê problema em ganhar dinheiro com a análise correta feita por ele”.
Uma ação civil pública movida pela Associação Brasileira de Investidores (Abradin) aponta outros casos em que Timerman teria lucrado ao espalhar opiniões e informações supostamente infundadas a fim de causar oscilações nas ações de companhias listadas na Bolsa de Valores. A peça, apresentada em 2023, cita movimentações atípicas nos papéis de Gafisa, Mobly e Terra Santa, e cobra da Esh o pagamento de mais de R$ 20 milhões por danos coletivos.
Pedido de proteção
No início do mês, Timerman acionou o Supremo Tribunal Federal (STF) para pedir sua inclusão no Programa de Proteção a Vítimas e Testemunhas Ameaçadas (Provita). Na peça, os advogados do gestor falam em um risco “crescente”. De acordo com a petição, Timerman teria manifestado por escrito o receio em relação à sua integridade física em quatro ocasiões desde 2024.
O principal argumento é de que o gestor teria sido citado em conversas entre o banqueiro Daniel Vorcaro e Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o “Sicário”.
O documento destaca um diálogo entre Vorcaro e Sicário em agosto de 2024 obtido pelos investigadores no qual o comparsa defende uma “medida mais drástica contra Vladimir” e “contra o advogado”.
Sicário, que se matou após ser preso pela Polícia Federal (PF) em março de 2025, é tido pelos investigadores como operador do grupo “A Turma”, uma suposta milícia privada que atuaria a mando de Vorcaro.
O pedido de Timerman foi encaminhado para a Procuradoria-Geral da República (PGR) e segue sem resposta.
O gestor costuma falar sobre o acesso que têm aos investigadores da PF. E, de fato, o “inquérito mãe” do caso Master traz trechos de apontamentos feitos por Timerman como operações fraudulentas realizadas com o BRB e a possível atuação de Nelson Tanure como “sócio oculto” do Master.
Ao Metrópoles, Timerman destacou a gravidade das conversas interceptadas em que seu nome é citado. “Eles falam em ‘matar esses negócios’”, relembrou.
O trecho é o seguinte: “Consegue falar com a Turma mais tarde? Tipo umas 15:00 estarei com eles lá na sede. Aí deixamos tudo ajustado com ele e a forma como você quer que eles façam”, escreveu Sicário.
Vorcaro, então, envia mensagem com o selo “encaminhada”: “E tem que mandar a turma pra SP pra matar esses negócios. Tá ridículo esse cara aqui”.
“Sou alvo de 40 processos criminais, minha vida foi revirada de ponta cabeça. O que mais podem fazer contra mim?”, disse Timerman à coluna. “Derrubaram meu whatsapp, fui monitorado 24 horas por dia, me arrebentaram”, completou.
“Eu causo incômodo por cobrar meus direitos. Mas eu vou continuar mandando e-mails, cobrando que as pessoas façam o trabalho deles e denunciando”, afirmou.

