O autônomo André Estevam Abreu, pai da adolescente Maria Luiza Abreu Estevam (foto em destaque), de 15 anos, que morreu na última quinta-feira (13/8) após uma sequência de atendimentos na rede pública de saúde por causa de uma dor de dente, cobra respostas sobre a morte da filha. Ele contou ao Metrópoles que a adolescente poderia ter sido encaminhada ao hospital antes e a morte, evitada. O caso é investigado pela Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF).





Maria Luíza tinha 15 anos
Imagem cedida ao MetrópolesMenina foi diversas vezes a UPA atrás de atendimento
Imagem cedida ao MetrópolesPai pede justiça e diz que morte da filha poderia ter sido evitada
Imagem cedida ao MetrópolesEla foi enterrada nessa quarta-feira (19/8) no Cemitério de Sobradinho
Imagem cedida ao Metrópoles“Podia ter sido evitada a morte dela. Podiam ter encaminhado ela logo para o hospital na segunda vez que ela foi à UPA. Não é normal. Eu não consigo explicar a dor que estou sentindo pela perda da minha filha”, afirmou.
Segundo ele, Maria Luiza tinha apenas asma controlada e era considerada uma adolescente saudável. “Eu não acredito que a minha filha se foi por causa de uma dor de dente”, lamenta.
O pai afirma, ainda, que a família busca a Justiça para esclarecer as circunstâncias da morte e apurar uma possível negligência no atendimento médico. “A gente quer justiça para provar que houve negligência médica”, declarou.
Maria Luiza, segundo o pai, sonhava em se formar em artes e seguir carreira como artista. “Era uma menina boa, recebia muito elogio na escola, sempre foi uma ótima filha, companheira, irmã. Tomava a frente das coisas”, contou.
A família de Maria Luiza precisou enfrentar uma espera de uma semana para poder sepultar o corpo da adolescente. O período foi necessário devido aos procedimentos de necropsia.
O velório da adolescente foi realizado nessa quarta-feira (19/8), no Cemitério de Sobradinho II. “A missa de sétimo dia da minha filha foi no cemitério”, desabafa André.
Procurado pela reportagem, o Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do Distrito Federal (IgesDF) lamentou o falecimento da adolescente, manifestou solidariedade aos familiares e amigos de Maria Luiza e disse que a equipe adotou as medidas assistenciais necessárias (veja a nota na íntegra).
Entenda o caso
O quadro de saúde da adolescente começou a se agravar em 20 de julho, quando ela realizou um procedimento para obturação de um dente com cárie. Nos dias seguintes, Maria Luiza passou a sentir dores intensas e inchaço em outro dente.
Em 29 de julho, a menina buscou atendimento em uma Unidade Básica de Saúde de Sobradinho (UBS) II, onde houve a prescrição de antibiótico.
Apesar de apresentar melhora, a dor voltou semanas depois. Em 9 de agosto, a adolescente deu entrada na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Sobradinho II. Na ocasião, foi realizada a drenagem de um abscesso dentário e receitado um novo antibiótico.
Dia 12 de agosto, a adolescente procurou novamente atendimento na UPA após os sintomas se agravarem. Maria Luiza deu entrada na unidade com náuseas, falta de apetite, dores fortes pelo corpo e formigamento no rosto.
De acordo com familiares, a menina chegou a vomitar e desmaiar de dor na unidade. Posteriormente, foi encaminhada para a ala vermelha da UPA.
Diante da piora do quadro clínico, a jovem acabou transferida para o Hospital da Criança de Brasília, onde deu entrada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) em estado gravíssimo. Maria Luiza sofreu cinco paradas cardíacas e não resistiu. A morte da adolescente foi declarada na noite de quinta-feira (13/8).
O relatório do Serviço de Verificação de Óbito (SVO) aponta que o quadro da jovem evoluiu para uma infecção generalizada que seria decorrente de uma endocardite bacteriana de origem odontológica.
Um painel de vírus respiratórios realizado após a morte detectou ainda a presença de Rinovírus e Influenza B. A necropsia identificou, ainda, cerca de 300 mililitros de sangue acumulados dentro do tórax, ao redor do pulmão, configurando um quadro de hemotórax.
Por se tratar de um elemento que pode caracterizar causa externa ou morte suspeita, o SVO interrompeu a emissão do laudo conclusivo e orientou a família a registrar uma ocorrência policial para transferir o cadáver ao IML
A documentação obtida pela reportagem mostra que a causa da morte de Maria Luiza ainda não havia sido determinada. Na declaração de óbito, assinada em 17 de agosto por um médico-legista do Instituto de Medicina Legal (IML), o campo destinado à causa da morte registra “óbito a esclarecer por exames complementares”.
O caso foi registrado na 35ª Delegacia de Polícia (Sobradinho II).
O que diz o Iges-DF
“Em 9 de agosto de 2026, a adolescente procurou a UPA de Sobradinho para assistência odontológica de urgência. Segundo informações prestadas pela responsável à equipe da unidade, M.L.A.E. realizava tratamento odontológico fora da rede pública de saúde. Durante a assistência, recebeu tratamento dentário, e a responsável foi orientada quanto à necessidade de continuidade do tratamento com especialista em canal, serviço não disponibilizado na rede pública.
Na noite de 12 de agosto, a paciente retornou à unidade apresentando vômitos e dor abdominal. Foi submetida à avaliação médica, exames complementares e monitorização, além de receber as medidas de suporte indicadas para o quadro apresentado.
Diante dos sinais clínicos e das alterações identificadas nos exames, a equipe adotou as medidas assistenciais necessárias. Com a evolução do quadro, a paciente foi encaminhada para a Sala de Estabilização (Sala Vermelha) e foi solicitada à Central de Regulação da Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal (SES-DF) a transferência para uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) pediátrica.
Em 13 de agosto, por volta das 17h30, foi transferida para o Hospital da Criança de Brasília (HCB), onde teve continuidade da assistência.
Em respeito ao sigilo médico, à privacidade da paciente e à legislação vigente, o IgesDF não divulga informações clínicas individualizadas além das necessárias ao esclarecimento dos fatos. Essa conduta observa as normas do Conselho Federal de Medicina (CFM), o Código de Ética Médica e a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
O Instituto permanece à disposição das autoridades competentes e prestará os esclarecimentos necessários, com rigor técnico, responsabilidade e transparência.
O IgesDF reitera seus sentimentos aos familiares e amigos da adolescente e reafirma seu compromisso com uma assistência pública segura, humanizada e de qualidade à população do Distrito Federal.”

