Belo Horizonte – Imagine pagar R$ 154 por uma passagem, chegar no horário e esperar 1h30 porque o motorista foi almoçar e abastecer. Depois, ao entrar no ônibus, encontrar casca de banana, cadeira quebrada, banheiro sujo e cinto de segurança enferrujado. E aí piora: o ônibus quebra e uma viagem que deveria terminar às 17h40 só chega ao destino depois das 21h30.
Esse é o relato de Marina Lisboa, de 38 anos, que publicou um vídeo nas redes sociais em que chamou o ônibus da Expresso Gardênia que fazia a linha entre Itajubá (MG) e Campinas (SP) de “o pior ônibus do mundo” e recebeu comentários de passageiros com experiências semelhantes. A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) acabou suspendendo cautelarmente sete linhas interestaduais da companhia.
E ela fala com a experiência de quem já fez diversas vezes esse mesmo trajeto e também conhece o transporte rodoviário em outros países: “Eu já viajei por mais de 60 países e posso afirmar que, na minha opinião, a Gardênia é a pior empresa de ônibus do mundo. É a pior experiência que eu já tive pelo descaso, pela falta de cuidado, por tudo. E foi por isso que eu decidi gravar aquele vídeo”, contou a influencer de viagem.
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Atraso de 1h30 para almoço
Segundo Marina, os problemas com a empresa não começaram nessa viagem. Mas foi no domingo, 9 de agosto, que a frustração a levou a gravar um vídeo em forma de desabafo. Naquele dia, ela precisava chegar ao Aeroporto Internacional de Viracopos, em Campinas (SP), para pegar um voo a trabalho. O primeiro trecho da viagem era entre Itajubá, no Sul de Minas, e Campinas.
“Ele estava marcado para sair às 12h. Às 12h07, o ônibus chegou à rodoviária. O motorista pegou a moça da bilheteria, os dois não deixaram ninguém embarcar, estava todo mundo na fila, e eles falaram: ‘Olha, a gente só vai abastecer e almoçar e já volta’. Eu nunca vi isso na minha vida, em lugar nenhum”, contou. Segundo ela, os dois só retornaram por volta de 13h30.
Cinto enferrujado e cadeira quebrada
Ao embarcar, novos problemas: nas imagens, Marina mostra casca de banana e areia dentro do veículo, além de problemas na poltrona e no cinto de segurança. “O cinto eu não consegui colocar porque estava enferrujado”, relatou. Isso fora o banheiro que ela classificou insalubres: “O cheiro fica no seu nariz, assim, impregnado, mesmo horas depois que você terminou sua viagem.”
Sem outra opção, Marina seguiu viagem. Durante o trajeto, segundo ela, o ônibus fez paradas fora dos terminais rodoviários. “Em acostamento de estrada, em lugares da cidade… Ele foi parando em lugares que, ao meu ver, colocam em risco as pessoas, os passageiros, e atrapalham o trânsito.”
Ônibus quebrou duas vezes
Os problemas, porém, não terminaram após a publicação do vídeo e foi necessario uma parte dois. “Eu até brinquei: postei cedo demais na minha viagem. Porque, depois daquele Reels, o ônibus quebrou duas vezes e a gente ficou parado por horas”, lembrou. Segundo Marina, o veículo não voltou a funcionar e os passageiros precisaram seguir viagem de outras formas.
Marina conseguiu embarcar em um veículo que fazia o trajeto de Belo Horizonte para Campinas. Outros passageiros, segundo ela, buscaram alternativas por conta própria.
“Teve pessoas que começaram a se juntar ali: ‘Quem está indo para outra cidade, Ipatinga?’, e começaram a compartilhar Uber. Como eu estava com uma mala de 23 kg, não pude compartilhar porque não tinha espaço. Tive que esperar. Era para eu chegar às 17h40, mas cheguei depois das 21h30 e quase perdi meu voo”, lembrou.
Mais de 2 mil comentários
Marina disse que não esperava a repercussão da publicação. Segundo ela, mais de 2 mil pessoas comentaram o vídeo e relataram problemas em viagens com a empresa.
“Eu não esperava que o meu vídeo tivesse tanta repercussão. Foram mais de 2 mil pessoas comentando, histórias inacreditáveis: que o ônibus já pegou fogo, perdeu o chão, perdeu o teto, perdeu o estepe. Teve passageiro que precisou procurar o estepe no meio do mato”, disse. Veja comentários abaixo







Passageiros compartilharam relatos de problemas em viagens com a empresa nos comentários da publicação de Marina Lisboa
Redes sociais/ ReproduçãoPassageiros compartilharam relatos de problemas em viagens com a empresa nos comentários da publicação de Marina Lisboa
Redes sociais/ DivulgaçãoMarina contou que faz o trecho entre Itajubá e Campinas desde criança, já que parte da família mora na cidade paulista, e diz acumular histórias.
“É um trauma de infância. Minha família mora em Campinas e, infelizmente, é a única opção”, afirmou. Em uma das vezes, segundo ela, o ônibus quebrou e, após horas de espera na rodovia, o veículo enviado para buscar os passageiros também apresentou defeito. “Levamos mais de dez horas”, contou.
ANTT suspende linha
Autoridades tomaram providências. A decisão cautelar da ANTT — medida preventiva adotada enquanto o caso é analisado — foi publicada no Diário Oficial da União em 12 de agosto e suspendeu temporariamente sete linhas da Expresso Gardênia que ligam cidades de Minas Gerais a São Paulo: Belo Horizonte–Campinas, Cássia–Ribeirão Preto, Itajubá–Campinas, Itajubá–Pindamonhangaba (via Aparecida), Itajubá–Pindamonhangaba, Itajubá–Ribeirão Preto e Ouro Fino–São Paulo.
A ANTT informou, por meio de nota, que a decisão de suspensão cautelar de determinadas autorizações da Expresso Gardênia foi adotada com base em análises técnicas e ações fiscalizatórias que identificaram indícios de comprometimento da adequada prestação dos serviços de transporte rodoviário interestadual de passageiros.
“Tais elementos estão relacionados, entre outros aspectos, à regularidade da operação, à observância de obrigações regulatórias e a questões associadas às condições operacionais e de segurança da prestação do serviço”, disse.
A medida possui natureza cautelar e preventiva e foi adotada com o objetivo de resguardar os usuários e preservar o interesse público, sendo assegurados o contraditório e a ampla defesa à transportadora.
A medida foi tomada com base em fiscalizações feitas pela ANTT nos últimos anos, além da análise do funcionamento do serviço e de reclamações de passageiros.
A Expresso Gardênia informou que está adotando medidas para cumprir as exigências da ANTT e tentar retomar as linhas suspensas. Segundo a empresa, foram comprados quatro novos veículos, contratado um novo gestor de manutenção e realizadas revisões na frota interestadual.
A companhia também atribuiu parte das dificuldades financeiras a uma dívida de cerca de R$ 70 milhões de uma empresa que adquiriu parte de suas autorizações de operação.

