Vivemos em uma lógica que permite que um CEO ganhe mil vezes mais que um funcionário da mesma empresa. Ou que empresas menores paguem mais a seus presidentes do que companhias muito maiores, sem transparência ou critérios. As remunerações milionárias dos executivos das grandes empresas brasileiras exigem duas perguntas: quanto vale o trabalho de um CEO — e quem decide quanto ele deve receber?
O mestre em contabilidade Renato Chaves realizou um estudo independente a partir de dados da CVM (Comissão de Valores Imobiliários). Os resultados mostram essa disparidade corporativa. Em 2025, a remuneração máxima nas empresas do Ibovespa foi, em média, 434 vezes superior ao salário mediano dos trabalhadores. O número representa um salto em relação às 184 vezes registradas no ano anterior.
O caso exemplar é da Smart Fit. A remuneração de seu principal executivo chegou a cerca de R$ 19,6 milhões em 2025, enquanto o salário mediano de seus funcionários foi de aproximadamente R$ 17.080 por ano. A diferença chega a 1.151 vezes.
Mas a desigualdade não aparece apenas quando se compara o executivo ao trabalhador. Ela também surge quando se confronta o salário do CEO com empresas similares. Nas companhias com receita de até R$ 5 bilhões, a remuneração média dos executivos ficou em torno de R$ 8,9 milhões. Um dos casos destacados pelo estudo é o da Multiplan: com faturamento de aproximadamente R$ 2,9 bilhões, seu CEO recebeu cerca de R$ 24 milhões — valor superior ao pago aos presidentes de empresas muito maiores, como Klabin e Natura.
Entre companhias com receita de R$ 5 bilhões a R$ 10 bilhões, a média da remuneração de CEOs chegou a R$ 9,9 milhões. A Smart Fit pagou cerca de R$ 19 milhões e a Totvs, aproximadamente R$ 21 milhões. No grupo de empresas com faturamento entre R$ 10 bilhões e R$ 30 bilhões, a média ficou em cerca de R$ 17 milhões. O presidente da B3 recebeu ao redor de R$ 47 milhões, enquanto o executivo da Prio chegou a quase R$ 68 milhões, segundo o especialista.
Os números questionam a existência de uma relação objetiva entre faturamento e remuneração executiva. Se empresas menores podem pagar mais a seus presidentes do que companhias muito maiores, é preciso investigar quais critérios estão determinando esses valores.
Um dos argumentos das empresas é o da atração, retenção e incentivo de talentos. Executivos capazes de comandar grandes organizações e gerar resultados são profissionais escassos e disputados pelo mercado.
Quem fiscaliza quem?
As assembleias de acionistas aprovam uma verba global destinada à remuneração dos administradores. Cabe então ao conselho de administração distribuir esse montante entre os executivos e demais administradores. O problema, segundo Chaves, surge quando o próprio conselho não exerce uma fiscalização efetiva sobre esses valores.
O dilema ético envolve aqueles que participam da decisão sobre a remuneração também são beneficiários dela. Por isso Chaves questiona o comportamento dos conselheiros. Segundo sua avaliação, conselheiros que recebem remunerações elevadas podem ter pouco incentivo para confrontar os executivos e seus salários excessivos. Afinal, isso pode colocar em risco a própria permanência no conselho.
O acionista minoritário como último fiscal
A fiscalização deveria partir principalmente dos acionistas minoritários, já que parcela relevante do dinheiro investido nas empresas não pertence necessariamente a investidores individuais, defende Chaves. Pode ser aplicada, direta ou indiretamente, por fundos de pensão, fundos de investimento e planos de previdência. O pequeno acionista, nesse sentido, pode ter pouca influência econômica individual, mas possui um instrumento importante: o direito de participar das assembleias e questionar os administradores.
O especialista afirma que compra pequenas quantidades de ações de diversas empresas justamente para poder participar desses processos e fazer perguntas. A estratégia transforma o acionista minoritário em uma espécie de fiscal externo da governança.
Por fim, Chaves levanta um questionamento. Executivos são recompensados quando determinados indicadores melhoram. Mas o que acontece quando decisões estratégicas produzem desastres? Casos como o da Vale em Brumadinho alimentam o debate. Em grandes organizações, decisões tomadas no topo podem produzir consequências que atingem milhares de pessoas, mas a responsabilização nem sempre acompanha a hierarquia decisória. Isso coloca em dúvida uma das premissas da remuneração variável: se o executivo recebe mais quando cria valor, deveria também assumir uma parcela proporcionalmente maior do custo quando destrói valor.

