Lula e Flávio deram ontem largada oficial à campanha presidencial. E é preciso que a gente fuja do ramerrão que toma conta de parte considerável da análise política para deixar claro, afinal de contas, o que está em disputa. Se há coisas que requerem um desenho, então desenho, como vocês podem ver acima.
Ambos procuraram tanger as cordas da memória. O petista reuniu muitos milhares no estádio da Vila Euclides, em São Bernardo, que ecoa ainda a derrocada da ditadura, que mandou o então sindicalista para a cadeia em 19 de abril de 1980. Ficou 31 dias nas dependências do DOPS, em São Paulo. Uniu ontem, assim, os fios da própria história, que é também parte do movimento operário no Brasil.
O outro, o candidato do PL, pretendia reunir pelo menos 30 mil em Copacabana, tentando reviver a jornada do pai golpista. Não chegou a juntar um terço do público que demonstraria sua musculatura política na largada. O evento se tornou mais notável pelas ausências do que pelas presenças. Lá não estavam Michelle, Tarcísio de Freitas, Silas Malafaia, Nikolas Ferreira…
Alguém achou que mico pouco era bobagem e resolveu sugerir a Flávio que fosse a São Januário para assistir ao jogo entre o Vasco e o Santos, com o que ele anuiu. O candidato vascaíno viu seu time perder para o do bolsonarista decadente Neymar por 3 a zero e tomou uma vaia memorável.
Tivesse repertório, o Zero Um poderia citar Nelson Rodrigues e dizer que “a verdadeira apoteose é a vaia” e que só uma pessoa vaiada por uma multidão é “fulminante e eterna”. Mas Flávio é Flávio e teve de sair com o rabo entre as pernas.
Esqueceu-se da máxima rodriguiana segundo a qual “brasileiro vaia até minuto de silêncio”, com fúria verdadeiramente lírica. O que não faria, então, com alguém que, digamos assim, “produz tanto conteúdo”, como se diz nestes tempos estranhos? No dia anterior, note-se, ele próprio publicara em sua conta no X uma imagem de IA em que seu rosto aparece no corpo de um rapagão que aluga os próprios dotes e comentou, como a sugerir que ele entregaria bem mais pelo mesmo preço: “Essa IA me deu uma prejudicada. Não comentem!”. Paulo Figueiredo, aquele…, comentou: “#gayscombolsonaro”. Como cantou Leo Jaime, às vezes, “a vida não presta”…
O VERDADEIRO CONFRONTO
Obviamente, os respectivos candidatos do PT e do PL não trocaram elogios. As invectivas que um dirige contra o outro não me interessam tanto — embora, obviamente, sejam, e têm de ser, pauta do noticiário. Quero saber o que os opõe essencialmente. E, por isso, resolvi desenhar.
Lula encarna um projeto de desenvolvimento nacional que se confronta com a proposta autoritária e entreguista de Flávio. Entre os que se alinham com a candidatura petista, há, sim, os que veem a gestão no rumo errado. No mais das vezes, estes são eleitores que escolhem o presidente como um mal menor. E vão se juntar, nas urnas, com aqueles que entendem que se está no caminho correto e possível, restando uma parcela mais à esquerda que gostaria de um líder mais ousado nas reformas.
No campo flavista, os grupos são também heterogêneos. Há os ortodoxos do ajuste fiscal que enxergam neste filho do pai a alternativa para um ajuste radical das contas públicas. Embora considerem que o candidato é fraco e não inspire confiança, fazem a aposta de que vai terceirizar a economia para “uzmercáduz” e dar uma tesourada nas contas públicas, muito especialmente nas políticas sociais. Têm como parceiros na jornada os fanáticos de extrema direita que entendem que essa história de ajuste de contas é papo-furado e que o mais importante é promover a guerra de valores. Hoje, enquanto escrevo, a campanha do candidato do PL está ancorada nesse discurso reacionário.
VALOR INEGOCIÁVEL OU NÃO
Une os que votam em Lula, estejam ou não contentes com o governo, a noção de que a democracia é um valor universal. Suas divergências, assim, convergem para o triunfo de um valor civilizatório. Do outro lado, os que divergem entre si, mas tomam Flávio como referência, veem a democracia corrompida pelo populismo: uns acreditam que a interferência estatal corroeu de tal sorte a economia que um choque autoritário se torna um preço a pagar para que se opere o ajuste; os outros fazem do autoritarismo uma fé, não um mero instrumento de intervenção.
Lula acaba, assim, juntando liberais-democratas, esquerdistas e uma variada gama de progressistas contra a voragem que une a direita historicamente autoritária, que pode conviver com menos democracia ou democracia nenhuma em nome das contas públicas — nota: isso sempre deu errado.. São os herdeiros políticos daqueles que se sentiram “obrigados pela conjuntura” a aderir ao golpe de 1964… Mas não são esses a simbolizar a “alma” da campanha de Flávio, que é possuída pelo golpismo escancarado.
A RIDICULARIA DA “POLARIZAÇÃO”
Se precisava desenhar, então desenhei: é o que se vai disputar em outubro. “Ah, Reinaldo, então a polarização existe?” É claro que existe! Em todo o mundo democrático, progressistas e conservadores confrontam-se, enfrentam-se, digladiam-se. Logo, essa tal “polarização” não é uma doença a ser vencida. É a natureza do jogo.
Interessa é saber qual candidatura trata a democracia como valor inegociável, de sorte que pode abrigar os que divergem, e qual a vê como um empecilho a ser vencido e uma etapa a ser superada. As circunstâncias do jogo impõem ainda a escolha entre soberania e entreguismo.
“É assim porque Lula disse ser assim?” Não! É assim porque Flávio disse ser assim: foi ele a entregar um documento de 84 páginas ao governo norte-americano em que evidencia estar disposto a ceder a todas as exigências e chantagens e a enviar uma carta a Marco Rubio clamando para que o tarifaço só fosse imposto na hipótese de Lula vencer, prometendo, se vitorioso, pôr a sua “equipe de transição” a serviço dos EUA.
CONCLUO
Chamar o golpismo-entreguismo de um “polo” da disputa, conferindo-lhe a mesma legitimidade de um projeto nacional-democrático, ainda que se possa discordar dele, é uma vigarice intelectual e uma pusilanimidade moral. Esse é o desenho. É disso que trata a disputa que começou oficialmente neste domingo. Esse é o Lula da Vila Euclides. Esse é o Flávio de São Januário — vaiado com fúria lírica.

