Arrumando uns alfarrábios esbarrei neste artigo que publiquei há 20 anos no Jornal do Commercio (Pernambuco, 2006). Reproduzo abaixo porque ainda vale nas eleições de 2026, para todo o Brasil. A idade é a régua para medir a qualidade do político? E os herdeiros de linhagens políticas tradicionais, agora candidatos a cargos legislativos e executivos, demonstram capacidade de encarar os desafios atuais, ou seria apenas mais um museu de grandes novidades?
Segue o artigo original:
“Não quero me referir particularmente a algum candidato, tampouco fazer campanha para direita, esquerda ou centro, se é que ainda seria tão simples distinguir claramente entre as atuais coligações eleitorais. Prefiro falar da mudança de ciclo político que os pernambucanos gostariam de presenciar em outubro próximo, considerando-se a renovação das lideranças políticas estaduais que se propagandeia. Renovação em que aspectos? Será que o sangue novo dos políticos jovens trará, de fato, vida nova também para o restante da população? É bem verdade que um ciclo se encerra na política estadual. Antigos líderes dão passagem [nem sempre voluntariamente] a rostos joviais com discurso de modernidade. É um processo natural [muitas vezes, precoce], mas, serão esses jovens os representantes reais do novo ciclo que se inicia [na humanidade e na natureza]?
Devemos reconhecer que nos últimos anos houve alguma realização importante em infraestrutura e atração de investimentos privados. Todavia, Pernambuco ainda precisa virar a página, diminuir a distância persistente entre a sua posição socioeconômica e a de outras regiões no mundo. Por que do mundo? Simplesmente, porque não bastará às lideranças jovens estabelecerem comparações com os governos anteriores, assim como não bastará comparar os resultados de Pernambuco com os indicadores de estados vizinhos. É o que afirma o jornalista norte americano Thomas Friedman, em seu ‘O Mundo É Plano’. Regiões que se encontram em posição econômica e social desfavorável devem elevar seus objetivos para além das fronteiras físicas do seu território e para além de sua herança histórica e cultural. ‘Menos recordações e mais sonhos’. Se for assim, daqui para frente o Leão do Norte vai precisar se inspirar muito mais na garra dos Tigres Asiáticos do que nas memórias de apogeu da casa grande açucareira ou da Mauritztad seiscentista.
Um ‘governador do futuro’ deveria se concentrar em um desafio que vai além da geração de empregos na indústria e no campo. Sua atenção estaria no setor de serviços, na geração de conhecimento, [no empreendedorismo], na concorrência – ou na complementaridade – com culturas remotas. Sua verdadeira juventude só será reconhecida em função de seu sucesso em integrar a população a um mundo pautado pela agilidade nas transações, fluidez das ideias e ‘distâncias relativas’. Um mundo cada vez mais preocupado com as desigualdades [sociais e territoriais] e o aquecimento global. Um ‘governador do futuro’ saberá também utilizar a multiculturalidade como ferramenta estratégica para a transformação. Motivará a abertura da mentalidade dos bravos guerreiros da Nova Roma às ideias disponíveis na aldeia global. Estimulará o sentimento de solidariedade [e a governança participativa], envolvendo os pernambucanos em um esforço para o desenvolvimento, mesmo quando isso parecer distante. Tomara que o nosso ‘governador do futuro’ já esteja, finalmente, entre os jovens candidatos a futuro governador”.
Felipe Sampaio: Chefiou a assessoria do Ministro da Defesa; dirigiu a área de estatísticas no Ministério da Justiça; ex-secretário executivo de Segurança Urbana do Recife; foi diretor de programa no Ministério do Empreendedorismo; sócio da Terra Consultoria e Inovação; cofundador do Centro Soberania e Clima; com atuação em grandes empresas, organismos internacionais e terceiro setor.

