Imagine haver uma energia que pudesse ultrapassar a velocidade da luz no vácuo. Pois foi isso que dois pesquisadores identificaram em estudo aceito para publicação no jornal científico Physical Review E.
O acústico John L. Spiesberger, da Universidade da Pensilvânia, e o oceanógrafo Eugene Terray, da Instituição Oceanográfica de Woods Hole, identificaram que a interferência de duas ondas percorrendo caminhos distintos, mas com picos combinados, é mais rápida na chegada ao receptor do que o pico de uma onda sozinha.
Esse entendimento funciona com ondas do som embaixo d’água, o que, segundo os autores, significa que pode funcionar também com ondas de luz no vácuo. “Demonstramos que a velocidade da informação é menor ou igual à velocidade da luz no vácuo, portanto o efeito não viola a relatividade especial”, diz Spiesberger.
Ondas que podem ser mais rápidas que a luz
Essa pesquisa é baseada em estudos anteriores que analisaram o comportamento do som embaixo da água. E tudo tem início com a observação da comunicação entre as baleias nos oceanos.
Para entender essa comunicabilidade entre os mamíferos e como eles conseguem se localizar no vasto oceano, os pesquisadores estudaram sons gravados por hidrofones. Basicamente, foi captada a chegada do sinal em cada aparelho, por meio de uma triangulação.
Assim, eles descobriram que em algumas situações o método produzia erros significativos, o que foi descrito em outro artigo em 2025.
A explicação era: se uma baleia chegasse próximo o suficiente da superfície, uma parte do som emitido por ela viajaria até o hidrofone, enquanto a outra parte, inferior à superfície, refletiria o que foi emitido.
Dessa forma, se as duas ondas se sobrepusessem no aparelho, uma interferência deslocaria o pico da onda recebida, fazendo com que ela pareça mais lenta, ou seja, viajando em uma velocidade menor do que a onda sozinha.
Mas, ao analisar os formatos de pulso, os pesquisadores entenderam que em condições adequadas o efeito poderia ser exatamente o oposto, e que esses picos de ondas distintos eram mais rápidos.
Os autores explicam que, com ajuste de intervalo de tempo entre eles e precisão, a interferência remodela o pico desses pulsos combinados, fazendo com que eles cheguem primeiro ao receptor do que o pico de pulso direto.
Para constatar isso, eles modelaram a viagem de um som embaixo d’água a uma velocidade de 1.500 metros por segundo.
A descoberta foi que os picos de energia resultantes indicavam uma viagem de 1.694,5 e 2.782,5 metros por segundo, sendo o último quase o dobro da velocidade do som na simulação.
Assim, os autores sugerem que esses resultados não se limitam apenas ao som e poderiam funcionar também com a luz no vácuo.
“Esses efeitos ocorrem em velocidades superiores à velocidade da luz no vácuo, embora a velocidade da informação seja inferior à velocidade da luz no vácuo. Portanto, investigamos se o efeito do caminho direto + refletido também transmite informações em velocidades inferiores à velocidade da luz no vácuo”, disseram os pesquisadores.
Diferença entre energia e informação
De acordo com o estudo, a relatividade restrita impede que a informação ultrapasse a velocidade da luz no vácuo, pois existe uma distinção entre o pico de energia de uma onda e a informação transportada por ela.
Para testar a velocidade dessa informação, os pesquisadores modelaram uma transmissão de sinais, de 1 e 0, por caminhos diretos e refletidos. Como resultado, eles identificaram que a informação pode ser considerada entregue no momento em que o receptor identifica o sinal que recebeu.
Assim, identificou-se que a informação não viaja mais rápido que a onda em linha reta, mas a interferência consegue deslocar o pico de energia e dar um pequeno aumento na velocidade da informação, ainda sem motivos compreensíveis.
Segundo os pesquisadores, o próximo passo é testar experimentalmente para checar, seja com o som ou com a luz, o que acontece.
“Efeitos da física clássica às vezes encontram eco na mecânica quântica, e talvez valha a pena considerar se o caminho direto + refletido possui analogias no mundo quântico”, finalizam os autores.

