A capital espanhola receberá simultaneamente o Madrid Fashion Week e o Grande Prêmio da Espanha de Fórmula 1, evidenciando a crescente aproximação entre moda e automobilismo. Embora a conexão não seja nova, a relação ganhou força com a expansão da F1 na cultura pop, impulsionada por filmes, celebridades e pela circulação de figuras influentes entre os dois universos.
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A programação madrilenha
Em setembro, Madri concentrará em uma mesma agenda dois mundos que, até pouco tempo atrás, dificilmente dividiriam as manchetes: moda e automobilismo. A capital espanhola sediará o Madrid Fashion Week e o Grande Prêmio da Espanha, reunindo públicos, imprensa e capital internacional em um único calendário. A organização da semana de moda, por sua vez, encarou a coincidência de datas como uma oportunidade, e não como uma disputa.
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A temporada de moda começa em 7 de setembro, com o Madrid es Moda, plataforma dedicada à moda autoral. O cenário escolhido já é uma assinatura da cidade: os Jardins de Sabatini, em frente ao Palácio Real. O evento segue até o dia 10.

Na sequência, de 14 a 19 de setembro, acontece o Mercedes-Benz Fashion Week Madrid, com as coleções de primavera/verão 2027. Pedro del Hierro abre a programação, que reúne nomes como Simorra e Adolfo Domínguez, além da celebração dos dez anos da marca Palomo. Redondo Brand, Alvarno e Moisés Nieto retornam ao calendário, enquanto Celia B e Antonio del Canto fazem sua estreia.

A geografia dos desfiles reforça o discurso da cidade como cenário: são três sedes oficiais e outras cinco locações, entre elas o Invernadero del Palacio de Cristal de Arganzuela, o Palacio de Cibeles e a IFEMA Madrid. Em temporadas anteriores, endereços icônicos, como a Puerta de Alcalá e a Plaza de la Villa, também receberam apresentações.

Um nome que vem da indústria automobilística
O próprio nome da semana de moda carrega uma história de aproximação entre moda e indústria automotiva. O evento nasceu em 1985 como Pasarela Cibeles, plataforma criada para dar visibilidade aos designers espanhóis. Em 2012, a Mercedes-Benz adquiriu os direitos de nomeação da passarela, que passou a se chamar Mercedes-Benz Fashion Week Madrid.

Apesar da tradição, o evento nunca integrou o grupo conhecido como Big Four, formado por Paris, Milão, Nova York e Londres. A diferença está menos na qualidade dos desfiles e mais no posicionamento: as quatro capitais concentram algumas das principais grifes de luxo e ajudam a ditar o calendário internacional de tendências, enquanto Madri se consolidou como uma ponte entre a moda europeia e os mercados latino-americanos, com um discurso voltado à fusão cultural e à acessibilidade.






Desfile da marca Malne no Mercedes-Benz Fashion Week Madrid
Pablo Cuadra/WireImage via Getty ImagesDesfile da marca Ágatha Ruiz de la Prada no MBFWMadrid
Juan Naharro Gimenez/Getty ImagesDesfiles normalmente ocorrem em pontos marcantes da cidade
Carlos Alvarez/Getty ImagesDesfile da marca Pedro Del Hierro no Mercedes-Benz Fashion Week Madrid
Pablo Cuadra/Getty ImagesDesfile da DOMINNICO no Mercedes-Benz Fashion Week Madrid
Oscar Gonzalez/NurPhoto via Getty ImagesO lado comercial
Fora das passarelas, a edição também mira o lado comercial da indústria. Um showroom profissional montado no Hotel Palace deve reunir cerca de 40 compradores internacionais, em uma iniciativa voltada a aproximar marcas espanholas de distribuidores estrangeiros. O movimento ganha relevância diante do peso do setor, que representa 2,9% do PIB espanhol.

A aproximação com a F1
É nesse contexto que a coincidência de calendário com a Fórmula 1 deixa de ser apenas uma questão logística e passa a revelar os rumos da moda. A aproximação entre os dois universos, porém, não é exatamente nova: casas como Tommy Hilfiger e Benetton patrocinam equipes há décadas, enquanto o legado estético de pilotos como Ayrton Senna e Gilles Villeneuve continua influenciando o street style. O movimento, no entanto, ganhou outra dimensão a partir de 2017, quando a Liberty Media assumiu os direitos comerciais da categoria e passou a investir na aproximação com a indústria fashion.

De lá para cá, o fenômeno só cresceu: a Berluti, do grupo LVMH, tornou-se parceira de estilo da equipe Alpine; a Boss veste a Aston Martin desde 2022; a McLaren firmou acordos com Rhude, New Era e Abercrombie; e a Louis Vuitton assina, desde 2021, a mala que guarda o troféu do GP de Mônaco.

Em 2024, a LVMH fechou com a F1 um contrato de patrocínio bilionário de dez anos, que passou a colocar marcas como Louis Vuitton, Dior e a relojoaria TAG Heuer em posições de destaque na competição. A Puma nomeou o rapper A$AP Rocky diretor criativo de sua linha voltada ao esporte, enquanto, a partir de 2027, a Gucci assumirá o posto de patrocinadora máster da equipe Alpine.

O efeito Lewis Hamilton
Nenhum piloto personificou essa fusão tanto quanto Lewis Hamilton. O piloto já desfilou pela Balenciaga durante a Semana de Moda de Paris e é frequentemente visto com looks de Versace, Valentino, Burberry e Louis Vuitton. Em 2025, também integrou o grupo de co-chairs do Met Gala, ao lado de Pharrell Williams e A$AP Rocky. Hamilton ainda usa sua visibilidade para apoiar novos talentos: em 2021, comprou uma mesa inteira no Met Gala para levar estilistas negros emergentes como convidados.

Essa aproximação entre os dois mundos também ganhou força desde fevereiro de 2026, quando Hamilton passou a ser publicamente ligado à empresária e it-girl Kim Kardashian. Fundadora da SKIMS e uma das figuras mais influentes da cultura pop e da moda, Kim ampliou a atenção de celebridades e da imprensa de entretenimento sobre o universo da F1, reforçando a percepção de que o esporte deixou de ser um assunto restrito ao paddock para se tornar também pauta fashion.

Apesar da resistência de parte do público mais tradicional do esporte, pilotos como Zhou Guanyu, Pierre Gasly e Lando Norris também vêm apostando em visuais mais arrojados, dentro e fora do paddock.







Zhou Guanyu chega ao paddock em Abu Dhabi
Kym Illman/Getty ImagesZhou Guanyu aposta em óculos de sol com personalidade
Rudy Carezzevoli/Getty ImagesPierre Gasly chega ao paddock durante as atividades de preparação para o Grande Prêmio de F1 do Canadá
Clive Mason/Getty ImagesLewis Hamilton é considerado ícone de estilo
Kym Illman/Getty ImagesLewis aposta em modelagens oversized
Kym Illman/Getty ImagesOs visuais de Hamilton sempre chamam a atenção
Beata Zawrzel/NurPhoto via Getty ImagesCinema, pistas e passarela
Essa aproximação também tem impulsionado outras frentes culturais. O sucesso do documentário F1: Dirigir Para Viver, da Netflix, e a estreia do filme F1: O Filme, em 2025, estrelado por Brad Pitt e coproduzido por Hamilton, ajudaram a consolidar a categoria como fenômeno pop, especialmente entre o público jovem e nos Estados Unidos.

O reflexo já aparece dentro e fora das passarelas: a Ferrari tem influenciado coleções de menswear na Semana de Moda de Milão, enquanto a jaqueta biker, peça historicamente ligada ao automobilismo, tornou-se um item recorrente fora das pistas. Atualmente, é possível afirmar que esporte e moda exercem uma influência mútua e simultânea.







As principais cores são vermelho e preto, remetendo aos uniformes e o principal material é o couro
Antony Jones/Getty Images for for Warner Bros. Pictures)Modelagens oversized com estampas de equipes tradicionais como Ferrari, Mercedes ou Red Bull
Antony Jones/Getty Images for for Warner Bros. PicturesO estilo mistura jaquetas de corrida, logotipos de patrocinadores e modelagens esportivas com o streetwear
Hoda Davaine/Getty Images for Tommy HilfigerRacecore é a estética que mistura corrida e moda
Hoda Davaine/Getty Images for Tommy HilfigerCharlene Davies usa capacete vermelho da TAG Heuer, jaqueta de couro e vestido de gala inspirado na F1 durante o Australian Fashion Week de 2025
Hanna Lassen/Getty ImagesDesfile da coleção mista da Ferrari, realizada na fábrica da marca, em 2021
Daniele Venturelli/Daniele Venturelli/WireImage via Getty ImagesOs visuais escolhidos por celebridades como Anya Taylor-Joy para acompanhar as corridas também incorporam essa estética e ajudam a ampliar o imaginário fashion em torno da F1
Artur Widak/NurPhoto via Getty ImagesDe volta a Madri
Para Madri, a realização dos dois eventos em setembro de 2026 mostra que a cidade tenta se posicionar dentro dessa mesma equação, usando a proximidade entre moda e automobilismo — que já movimenta bilhões em outros mercados — como parte da própria narrativa de internacionalização da moda espanhola.


