O que era para ser meu dia de folga depois de uma pesada semana de trabalho começou com o telefone tocando ainda muito cedo. Relutei em atender, mas o instinto de repórter falou mais alto. Do outro lado da linha havia uma pessoa chorando copiosamente, mal conseguia falar. Pedi calma e que me explicasse o que estava acontecendo. Fui ouvindo com atenção e, a cada palavra, meu espanto aumentava. A minha interlocutora, que é portuguesa, havia recebido uma série de ameaças simplesmente porque tinha elogiado os brasileiros que vivem em Portugal, cidadãos, segundo ela, muito comprometidos com o trabalho.
Fiquei em choque quando a minha interlocutora contou que uma pessoa de sua família havia sido agredida verbalmente na rua. E o motivo: as declarações que ela tinha dado em relação aos brasileiros. Foi preciso que a turma do deixa disso entrasse em ação para que o familiar da minha interlocutora não fosse vítima de violência física. Ouvindo aquelas barbaridades, fiquei me perguntando o porquê de um elogio a brasileiros provocar tanta revolta em Portugal. Por que um elogio a cidadãos oriundos do Brasil está se tornando um perigo num país que se apresenta como o sétimo mais seguro do mundo?
Os brasileiros formam a maior comunidade estrangeira em Portugal. Os dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatística (INE) indicam que quase 600 mil cidadãos do Brasil cruzaram o Atlântico para se estabelecerem em terras lusas, muitos, em busca de uma vida melhor. Que mal há nisso? Os brasileiros são hoje quase 10% dos trabalhadores que contribuem todos os meses para a Segurança Social de Portugal. Somente em 2025, pagaram 1,47 bilhão (mil milhões) de euros.
Entre os trabalhadores estrangeiros que vivem em Portugal, os brasileiros só não são maioria em dois setores econômicos: agricultura e construção civil. E têm sido fundamentais para as áreas de restaurante e de hotelaria. Como disse a minha interlocutora, quando elogiou os brasileiros, eles estão sempre dispostos a fazer horas extras, a trabalhar nos fins de semana, mesmo os salários em Portugal estando entre os mais baixos da União Europeia. Isso é um pecado?
Os brasileiros também têm ampliado os investimentos em Portugal. Já detêm, em valores, mais imóveis no país do que nos Estados Unidos. Nada fixa tanto uma pessoa em um território que ter a casa própria. É comprometimento. Somente em Cascais, onde quase 10% da população atual têm origem no Brasil, dois empreendimentos vão movimentar pelo menos 300 milhões de euros. Esse montante corresponde a mais da metade do Orçamento deste ano da vila portuguesa e movimenta a economia local e os empregos.
A brasileira Embraer, que controla a OGMA em Portugal, vai construir uma fábrica no país. É na sua unidade em Alverca que estão sendo montados os aviões do modelo Super Tucano A-29N, já preparados para atender as exigências da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). A fabricante de aeronaves foi fundamental para aumentar o salário médio pago na região. Em Santo Tirso, no Norte de Portugal, a brasileira WEG, maior fabricante de motores do mundo, é um dos pilares da economia.
Pelos dados do Observatório das Migrações, há cerca de 10 mil empreendedores brasileiros espalhados por Portugal, sendo 80% deles, mulheres. Entre os imigrantes, os empreendedores brasileiros são os que mais empregam, seguidos pelos chineses. Estamos falando de pequenos negócios, mas que, no conjunto, se tornam fundamentais para movimentar um país que ainda é pobre e dependente de subsídios repassados pela União Europeia.
Por todos os ângulos que se olhe, os brasileiros e os demais imigrantes são, sim, uma benção para Portugal. Não fossem eles, como revelou o INE, a população do país teria encolhido e, certamente, a economia, mesmo com o turismo fortalecido, estaria próxima da recessão. Os portugueses, portanto, não deveriam embarcar no discurso racista e xenófobo da extrema-direita. Deveriam estar agradecendo por poder contar com essa parceria. Sim, porque é uma parceria, em que todos ganham.
A dica vale, inclusive, para o Governo de Luís Montenegro, que, erroneamente, embarcou no discurso preconceituoso liderado pelo extremista André Ventura acreditando que teria amplo apoio da sociedade portuguesa. Isso não só não aconteceu, como, aos poucos, o Chega está implodindo o PSD, o partido do primeiro-ministro. Em vez de endossar a xenofobia, Montenegro deveria romper com o atraso que dá as cartas em Portugal.
Vamos ficar apenas na infraestrutura para escancarar a ineficiência do Estado. O Governo sequer consegue construir um novo aeroporto em Lisboa, promessa que se arrasta por quase 50 anos. Também é incapaz de construir uma ponte ou um túnel ligando Lisboa à Margem Sul, impondo sofrimento diário à população que precisa fazer a travessia entre os dois lados, com horas de engarrafamento.
No modal ferroviário, a situação é calamitosa. Um país mínimo, como Portugal, não tem ligação expressa com o restante da Europa. A vizinha Espanha tem a segunda maior malha de trem de alta velocidade do mundo, só ficando atrás da China. Não vou dizer que é incompetência portuguesa, para não ser deselegante. Mas a alcunha de ineficiência cai bem.
Diante desse quadro, só resta lamentar o fato de um bando de gente maluca, sem a menor noção da realidade, ficar atacando quem fala bem dos brasileiros que vivem em Portugal. Essas pessoas deveriam tomar vergonha na cara!
(Transcrito do PÚBLICO-Brasil)

