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Elas decidem a eleição (por Mary Zaidan)

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 2 horas)
Elas decidem a eleição (por Mary Zaidan)

Mulheres. Maior contingente do eleitorado – 52,8% -, são elas que decidem a eleição. Excelente para o presidente Lula, que deve a elas a melhoria dos índices de aprovação de seu governo, e péssimo para o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), rejeitado por 54% delas de acordo com a última rodada da Genial/Quaest. Um cenário que dificilmente será revertido.

Flávio, que só existe eleitoralmente pelo sobrenome, carrega também o outro lado da força: o machismo e misoginia escancarados do pai, que o filho jamais condenou. E a visão retrógrada e repulsiva sobre o papel das mulheres, que ele imagina não como protagonistas mas como cuidadoras.

“Eu fiz duas filhas exatamente para isso. Quando eu ficar velhinho, eu vou ter quem vai tomar conta de mim.” A frase, dita na quarta-feira, 5, durante o anúncio do deputado Alfredo Gaspar (PL-AL) como candidato a vice em sua chapa, soava como um elogio na cabeça do senador, porque para ele “as mulheres são assim: são família, são coração, são sentimento, são sensibilidade”. São tudo, menos competentes, combativas, independentes, capazes… Se em vez de filhas fossem filhos, Flávio seria abandonado na velhice por machos sem coração, sentimento e sensibilidade. Deve ser por esse motivo que o pai Jair, depois de criar quatro varões que não cuidariam dele na velhice, deu uma “fraquejada” e teve uma filha mulher.

Sem uma vice mulher, como Flávio dizia pretender, o evento teria uma compensação: a presença da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que poderia funcionar como sinalização positiva ao eleitorado feminino. Qual o quê. Michelle, que já havia faltado à convenção que sacramentou sua própria candidatura ao Senado pelo PL do Distrito Federal, preferiu escapulir. Mais uma vez.

Desde o vídeo no qual reclamou ter sido maltratada por Flávio, a campanha dele corre atrás de consertar o inconsertável. Montou a cena de “reconciliação” nas redes sociais e apostou no abraço público dos dois em eventos de peso. Ela aceitou as desculpas do candidato, mas não quis saber de se encontrar com o enteado ao vivo e em cores. No domingo, se fotografou em uma cama de hospital, para onde se dirigiu devido a uma súbita enxaqueca. Na quarta, ficou em casa “para fazer comida” para o marido.

A desculpa oficial da ausência, transmitida pela senadora Damares Alves (Republicanos-DF), remete à Michelle de 2025, quando ela defendeu a “submissão saudável” das mulheres aos maridos, ressaltando que as cristãs deveriam “atender o chamado” para serem “auxiliadoras” dos companheiros. Ainda que virem a cara um para o outro, aqui Flávio e Michelle parecem convergir quanto ao papel de segundo plano que reservam às mulheres.

A dificuldade dos Bolsonaros com o eleitorado feminino é cumulativa. Flávio, que em todos os discursos cita mais o pai do que qualquer outra coisa, nem mesmo pode reclamar de as mulheres o associarem com os disparates do ex.

Agressivas, as falas do pai cravaram de forma definitiva sua imagem anti-mulher. Os exemplos estão aí e não podem ser apagados. As investidas contra a deputada Maria do Rosário (PT-RS), que, segundo ele, não merecia ser estuprada por ser muito ruim e muito feia. Ou quando, ao condenar o turismo sexual homo no Brasil, disparou: “quem quiser vir aqui fazer sexo com uma mulher, fique à vontade”.

“Imbrochável, incomível e imorrível”, o hoje frágil Bolsonaro, condenado e detido em prisão domiciliar humanitária, não limitava sua descriminação ao gênero, mas também à cor, como na resposta dada a Preta Gil ao ser perguntado o que ele faria se um de seus filhos se apaixonasse por uma negra. “Ô Preta, eu não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja. Eu não corro esse risco porque meus filhos foram muito bem educados e não viveram em ambientes como lamentavelmente é o teu.” É o Bolsonaro sendo Bolsonaro.

Por essas e outras, Lula chegou ao segundo turno das eleições de 2022 com 10 pontos de vantagem sobre Jair no eleitorado feminino, grupamento que garantiu a apertada vitória do petista. Seu governo é aprovado por 52% delas, um índice crescente que subiu 7 pontos percentuais entre abril e agosto segundo a Genial/Quaest. Se as eleições fossem hoje, Lula venceria Flávio por 5 pontos percentuais, sendo que entre elas o petista aparece com 12 pontos de vantagem, 47 x 35.

Há pouco mais de um mês, Paulo Figueiredo, amigo próximo de Flávio e comparsa do irmão Eduardo, provocou estragos na campanha do Zero Um ao traduzir, sem filtro, um pensamento caro ao grupo. “Mulher não sabe votar”, principalmente as solteiras. “Mulheres casadas, em geral, tendem a acompanhar o voto do marido; as solteiras não”, disse, em total sintonia com o conceito de “submissão saudável”.

Em meio a esse conjunto repugnante de absurdos, o neto do último presidente da ditadura acertou uma: “mulheres tendem a votar na esquerda”. Dá para entender os motivos.

Mary Zaidan é jornalista 

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