O bolsonarismo flaviano, que é o fanatismo da extrema direita na fase do chororô — ô, Jesus, “Acabou Chorare” (viva Bebel Gilberto!), dos Novos Baianos, já tem 54 anos —, ficou reclamando pelos cantos porque Lula se encontrou com quadros do Centrão antes de a turma recusar a aliança formal com Flávio. Não entendi. Essa gente está choramingando porque o Lula não lhe facilitou a vida? Ai, ai… Esses caras podiam ao menos tentar me matar de raiva, não de tédio. Adversários deveriam criar facilidades para seus oponentes?
Até na imprensa, hoje hostil, na média, à “economia política” — procurem conhecer o conceito os que o ignoram —, li alguns lamentos. Mas que diabos se passa? Se o presidente tornou inviável a aliança do dito Zero Um com o Centrão, operou o que lhe cabia. O senador é que deveria ter se esforçado para atrair aqueles que seriam seus aliados naturais. Ocorre que ele é bom de voto por causa do pai freudianamente disfuncional, mas é péssimo na articulação política. E aí deu nisso.
QUESTÃO ESTRUTURAL
Mas há muito mais. A análise política deveria estar dedicada a um assunto realmente importante do ponto de vista estrutural — ah, como sou antigo! Tenho dito há um bom par de anos que partidos hoje não precisam mais de alianças para ser poder. Mudou o papel do Congresso, que é sua expressão material na tripartição de Montesquieu.
Se os valentes têm Fundo Partidário, Fundão Eleitoral e R$ 60 bilhões em emendas, indague-se: ser governo para quê? Para se desgastar? É muito melhor apresentar a conta na boca do caixa. Basta que administrem os próprios interesses e os dos lobistas que os sustentam. É bem mais fácil, divertido e lucrativo do que responder aos desafios do país.
Eis o modelo a que Bolsonaro e Arthur Lira deram à luz. Vivemos ainda sob a égide do Orçamento Secreto, misturado com emendas Pix e toda sorte de patranhas para assaltar o distinto público.
Setores da imprensa jamais reconhecerão: Lula fez um verdadeiro milagre quando conseguiu aprovar reforma tributária, arcabouço fiscal e tributação dos super-ricos — e esta só aconteceu porque caiu no gosto do público. Lula é o único presidente com alianças no curso de 10 pleitos porque estas têm, obviamente, um viés ideológico — são os “progressistas” — sim, eles existem.
Os extremistas de direita nem conseguiram um vice em outra legenda porque o sistema que passaram a defender torna o Executivo um Poder cada vez mais irrelevante. Estamos sob a governança de guildas, de corporações de ofício, que compram, de várias maneiras, o Congresso — que acha um meio de assaltar o erário para que a súcia possa se reproduzir. Não percamos o foco da economia política: esse Parlamento e os partidos não são uma “classe”, mas expressões teratológicas, no que diz respeito à essência da democracia, dos verdadeiros donos do poder.
Nunca se imaginou que essa máquina oficializada de assalto aos cofres pudesse se voltar contra os interesses imediatos da própria extrema direita. Mas se voltou porque os que apareceram para o serviço tentando hegemonizar o campo reacionário são de uma ruindade fabulosa.
Se Lula vencer, teremos a negociação sempre difícil com o Congresso, com chance de avançar, ainda que aos trancos e barrancos, como já aconteceu: reforma tributária, arcabouço fiscal, taxação de super-ricos… Se o sobrenome do Coiso — ou de “A Coisa” — vencer, aí, queridos, podem deixar do lado de fora toda esperança. Se acharam ruim a degradação do pai, terão a chance de dizer: “Eu ainda não conhecia o filho”.
RADICAL?
Lula limou das propostas do PT alguns anseios da esquerda do partido, que não dá as cartas na legenda — e eu não estou nem comemorando nem “descomemorando” —, em favor daquilo que o líder sindical sempre foi: um reformador do modelo de perversidades que ainda vigora por aqui.
Os ricos que se beneficiam de uma das maiores desigualdades de renda do mundo deveriam se ajoelhar para o líder petista ao menos duas vezes ao dia. Não porque seja o garantidor de seus privilégios, mas porque, dado o reformismo possível até aqui, foi quem desarmou, com programas sociais, a bomba que o regime de iniquidades dos bacanas estava a produzir.
E notem o ódio que a extrema direita devota a esses programas. Sem eles, dizem os sacripantas, o país teria avançado muito mais, com mais produtividade etc. Toda essa gente tem pós-doutorado na história que não houve. Querem nos passar a impressão de que os reacionários nunca governaram o Brasil e nunca tiveram a chance de aplicar o seu “modelo”…
Alguns tontos gostam de dizer: “Ah, Lula deu migalhas…” Já ouvi isso de reaças impenitentes fantasiados de liberais e também de esquerdistas. Entendo as restrições dos companheiros da “sinistra”, para ficar no vocabulário da Itália de Gramsci. Quanto aos falsos liberais de “zerda”, digam aí uma boa ideia que vocês tenham tido nos últimos 40 anos que não seja cortar benefícios de pobres porque, afinal, vocês repudiariam o que chamam “populismo”.
MAS O QUE QUEREM OS REACIONÁRIOS?
Sei como é: em matéria de recursos públicos injetados diretamente na veia, os bacanas gostam mesmo é da droga que vicia os nababos e que depois se transforma em jatinhos, lanchas e apartamentos em Miami, enquanto vociferam severidade fiscal para os pobres de tão pretos e pretos de tão pobres. Alguns buscam até emprestar um sotaque acadêmico ao serviço sujo.
Com raras exceções, esses pensadores do suposto rigor fiscalista trabalham para os bravos que extraem seu poder e sua fortuna de facilidades geradas por despesas tributárias, como isenções, subvenções e “incentivos”, uma forma disfarçada de apropriação do patrimônio público.
Trata-se, claro!, de uma questão de classe. No que respeita a seus teóricos, não tem jeito, também há, desde sempre, uma questão de caráter.

