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Voepass: quem são os 16 indiciados pela PF por queda de avião em SP

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Voepass: quem são os 16 indiciados pela PF por queda de avião em SP

A Polícia Federal (PF) indiciou 16 pessoas ligadas à Voepass pelo desastre aéreo ocorrido em Vinhedo, interior de São Paulo, em 9 de agosto de 2024. Os nomes foram confirmados nesta quinta-feira (6/8) por agentes da PF em coletiva, na qual também foi apresentado o relatório da perícia do acidente.

Entre os indiciados há pilotos, despachantes, gerentes, diretores e um mecânico, além do presidente da Voepass, José Luiz Felício Filho. Todos eles foram responsabilizados pela PF, em diferentes aspectos, pelas falhas que levaram à queda da aeronave.

Veja, abaixo, quem são os 16 indiciados pela PF:

José Luiz Felício Filho

Diretor presidente da Voepass desde outubro de 2023, quando assumiu o comando da empresa após a morte do pai. Foi indiciado por atentado contra a segurança do transporte aéreo, por três vezes, e por sinistro aéreo com resultado de morte.

Segundo a investigação, ele integrava a cadeia de decisões da empresa apontada pela PF como responsável por falhas de gestão, manutenção e segurança que contribuíram para o acidente.

Antes de assumir a presidência da Voepass, José Luiz Felício Filho já fazia parte da administração da empresa familiar e acompanhou a expansão da antiga Passaredo, que passou por um processo de rebranding em 2019, adotando o nome Voepass. A companhia também ganhou espaço no mercado regional com a compra da MAP Linhas Aéreas e uma parceria comercial com a LATAM, que foi encerrada após o acidente.

José Luiz Felício Filho
José Luiz Felício Filho

David da Costa Faria Neto

Diretor de segurança operacional. Foi indiciado por atentado contra a segurança do transporte aéreo, por três vezes, e por sinistro aéreo com resultado morte.

Para a PF, a estrutura de segurança operacional sob responsabilidade do diretor apresentava deficiências sistêmicas e documentadas, como o gerenciamento ineficaz de Relatos de Segurança de Voo. Ainda de acordo com o relatório da polícia, era sobre essa estrutura, gerida por Faria Neto, que recaía o dever de identificar, investigar e corrigir justamente o tipo de falha recorrente e não reportada que, eventualmente, culminou na queda da aeronave em Vinhedo.

Eric Cônsoli

Diretor técnico, era o destinatário direto e pessoal de comunicações formais da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) sobre não conformidades da aeronave PS-VPB, o que, de acordo com a PF, evidencia que Cônsoli tinha “ciência inequívoca das falhas técnicas que antecederam o acidente”.

A Polícia Federal também destacou que “a finalidade das omissões era permitir a continuidade dos ganhos econômicos pela empresa aérea”.

Cônsoli também foi indiciado por atentado contra a segurança do transporte aéreo, por três vezes, e por sinistro aéreo com resultado morte.

Carlos Alberto Costa

Diretor de manutenção. Também foi indiciado por atentado contra a segurança do transporte aéreo, por três vezes, e por sinistro aéreo com resultado morte.

Segundo o relatório da PF, a diretoria pela qual Costa era responsável mantinha um “padrão institucionalizado de deficiências”, incluindo gerenciamento ineficaz de relatórios não investigados e descumprimento reiterado dos próprios manuais de supervisão da empresa. Para a polícia, o diretor tinha o “dever jurídico de agir para sanar as deficiências crônicas do sistema de degelo da frota” da qual a aeronave que caiu fazia parte.

Edson Serra Martins

Piloto, comandante do voo PTB-2293, entre Guarulhos para Ribeirão Preto, na madrugada anterior à queda do avião. Foi indiciado por falsidade ideológica.

A PF afirma que ele não reportou uma falha identificada verbalmente por ele a outro funcionário, representando uma quebra direta da responsabilidade atribuída à tripulação. Não só isso, mas Martins registrou que não haveria “nada a reportar” no diário de bordo técnico, o que configura inserção de declaração falsa em documento público, com alteração da verdade sobre fato juridicamente relevante.

Luciano Alves Macedo

Piloto, comandante do voo PTB-2204 (voo que no dia do acidente registrou alertas de falha no degelo). Foi indiciado por sinistro aéreo com resultado morte.

A perícia técnica apontou que, durante um voo anterior, o sistema de alerta de gelo acendeu e a tripulação acionou o sistema de degelo que
apresentou falha. Esse sistema foi desligado e, na sequência, religado.

Apesar da falha, Luciano não reportou nenhuma irregularidade no diário de bordo técnico ao finalizar o voo. Ele foi o último comandante na aeronave antes de Danilo Romano, piloto do avião no dia do acidente em Vinhedo.

Alex de Souza Leandro

Mecânico responsável pela liberação da aeronave. Foi indiciado por atentado contra a segurança do transporte aéreo, por duas vezes, e por sinistro aéreo com resultado morte.

Segundo a PF, Alex não realizou os testes obrigatórios na aeronave e ignorou um alerta expresso e direto de falha no sistema de degelo, atestando em documento oficial que o avião estava em condições seguras para operar no dia 9 de agosto de 2024.

Rafael Gimenez Rodrigues

Piloto-chefe e responsável pelo Programa de Monitoramento de Dados de Voo. Também foi indiciado por atentado contra a segurança do transporte aéreo, por três vezes, e por sinistro aéreo com resultado morte.

Gimenez era encarregado de acompanhar os padrões de padronização operacional e escalas dos profissionais da companhia. A PF o destacou como um dos principais agentes responsáveis pela pressão sistêmica contra o reporte de problemas e panes, bem como pela promoção irregular de comandantes sem experiência mínima exigida, mas que aceitassem voar com falhas técnicas.

Tiago Passucci Morani

Gerente de engenharia e inspetor-chefe. Também foi indiciado por atentado contra a segurança do transporte aéreo, por três vezes, e por sinistro aéreo com resultado morte.

De acordo com a PF, Morani fazia liberações técnicas de aeronaves mesmo sem a habilitação exigida para tal. Além disso, tinha ciência das panes crônicas no sistema de degelo, mas não fazia os reportes.

“A função do indiciado tinha plena capacidade de impedir todos os voos de operarem com gelo depositado em suas superfícies aerodinâmicas e sem possibilidade de extração pela falha no sistema de degelo”, afirmou a polícia.

Marcel Sarquis Moura

Diretor de operações. Também foi indiciado por atentado contra a segurança do transporte aéreo, por três vezes, e por sinistro aéreo com resultado morte.

Hierarquicamente, estava acima dos setores mais relevantes para as ações de controle e supervisão das operações. Teve conhecimento de eventos críticos de gelo nas aeronaves, mas não tomou providências a respeito, com “reiteradas omissões dolosas”, segundo o relatório da investigação.

Raphael Limongi de Figueiredo

Chefe do Centro de Controle Operacional (CCO); também aparece nos depoimentos como piloto-chefe e chefe de tripulação. Também foi indiciado por atentado contra a segurança do transporte aéreo, por três vezes, e por sinistro aéreo com resultado morte.

Segundo a Polícia Federal, o papel de Limongi foi diretamente determinante para o acidente em Vinhedo, dado que ele usou sua autoridade para forçar a operação de aeronaves inoperantes, menosprezando panes técnicas que categorizava como simples “eventos meteorológicos”.

Juliano Flores Pacheco

Gerente do Centro de Controle de Manutenção. Também foi indiciado por atentado contra a segurança do transporte aéreo, por três vezes, e por sinistro aéreo com resultado morte.

A investigação da PF aponta que Pacheco era responsável por pressionar e coagir e mecânicos da Voepass para que liberassem aeronaves, mesmo quando apresentavam defeitos graves, chegando a ordenar “resets” de avisos de problemas sem realizar a troca dos componentes necessários.

Ele também autorizava liberações se baseando em capítulos falsos da Lista de Equipamentos Mínimos, a fim de forçar voos irregulares.

William Schmidt Agatz

Gerente do CCO da empresa. Também foi indiciado por atentado contra a segurança do transporte aéreo, por três vezes, e por sinistro aéreo com resultado morte.

Agatz atuava como interlocutor entre a diretoria, o centro de controle de manutenção e os despachantes, sendo responsável por decidir quais aviões operariam ou ficariam retidos para manutenções e reparos.

O relatório da PF aponta que ele tinha papel central na omissão de falhas técnicas, ordenando que problemas fossem reportados somente na base principal, localizada em Ribeirão Preto (SP) — onde a empresa foi fundada — para evitar que aeronaves ficassem retidas em bases secundárias.

Marcos Hiroyuki Sato

Despachante operacional de voo do voo PTB-2283, que caiu em Vinhedo. Foi indiciado por sinistro aéreo com resultado morte.

À Polícia Federal, Hiroyuki admitiu ter ignorado e minimizado normas de segurança a fim de evitar prejuízos financeiros e transtornos de ordem logística para a empresa.

John Major Viana

Despachante operacional de voo do voo PTB-2282, imediatamente anterior ao acidente, realizado entre Guarulhos (SP) e Cascavel (PR). Foi indiciado por atentado contra a segurança do transporte aéreo.

Além de ter admitido conivência com a prática “cultural” da empresa de não reportar falhas para evitar a retenção de aeronaves fora da base principal, em Ribeirão Preto, Viana também foi indiciado por despachar o voo PTB-2282 para uma rota com alerta de gelo severo, mesmo com as limitações de certificação do equipamento.

Oderlino de Campos Figueiredo

Despachante operacional de voo dos voos PTB-2293 e PTB-2204. Foi indiciado por atentado contra a segurança do transporte aéreo, por duas vezes.

Oderlino foi apontado pela PF como responsável pelo planejamento e despacho das aeronaves de voos imediatamente anteriores ao acidente em condições meteorológicas que não estavam de acordo com as normas estabelecidas. Em outras palavras, Oderlino ignorou previsões confirmadas de chuva e gelo.

Conclusões da PF sobre o acidente

A investigação da PF concluiu que a queda do avião foi causada pelo acúmulo de gelo na aeronave e falhas operacionais da tripulação. O laudo pericial, ao qual o Metrópoles teve acesso, tem 200 páginas e detalha a análise técnica das autoridades, incluindo exames no local do acidente, registros meteorológicos e o funcionamento de sistemas de proteção da aeronave.

Os dados foram obtidos a partir das caixas-pretas do voo PTB-2283, computadores de bordo e vídeos de testemunhas. O texto também detalha o treinamento e protocolos adotados pela tripulação e o histórico de manutenção da aeronave.

Para a Polícia Federal, os pontos determinantes para o acidente foram:

  • Condições meteorológicas e falha em sistema: a PF afirma que o voo aconteceu em condições meteorológicas adversas, com frente fria ativa, ar úmido e formação severa de gelo. O laudo destaca que, embora a aeronave tivesse equipamentos anti-gelo, os sistemas registraram falhas no dia do acidente e nos três voos anteriores.
  • Operação deveria ter sido interrompida: no documento, a investigação conclui que diferentes tripulações não seguiram uma determinação técnica sobre a reinicialização do sistema de degelo e que a indisponibilidade do equipamento deveria vedar a operação da aeronave naquelas condições. A PF, no entanto, ressalta que “não é possível afirmar se o funcionamento adequado do sistema de degelo seria suficiente para evitar o sinistro”.
  • Desempenho insuficiente: os peritos afirmam que, apesar dos alertas, a tripulação não executou os procedimentos previstos. “A sequência de eventos mostra que a tripulação manteve seu foco de atenção em tarefas da cabine, comunicação com o despacho em Guarulhos e preparação para procedimentos de aproximação e pouso, incluindo checklists e briefing, de forma que se mantiveram alheios aos alertas.” O laudo menciona que a tripulação estava habilitada, “de forma que não é possível determinar a razão da não execução adequada desses procedimentos”.
  • Irregularidade no despacho: embora não tenha relação direta com o acidente, o despacho para o voo PTB-2283 não respeitou a Lista de Equipamentos Mínimos (MEL), pois a aeronave operou com os limpadores de para-brisa inoperantes mesmo com previsão de chuva no destino, o que deveria ter impedido a decolagem.
  • Conclusão: “A causa do sinistro foi a perda de controle em voo, decorrente do acúmulo de gelo na aeronave, da inoperância do sistema pneumático de degelo da estrutura e da não execução tempestiva e adequada dos procedimentos”, sintetiza a PF no laudo.

Tragédia da Voepass

O voo PTB-2283 caiu em Vinhedo, no interior paulista, em 9 de agosto de 2024. Naquele dia, o avião da empresa Voepass saiu do Aeroporto Coronel Adalberto Mendes da Silva, em Cascavel, no Paraná, às 11h58, com destino ao Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos.

A aeronave era comandada pelo piloto Danilo Romano, de 35 anos, e pelo copiloto Humberto de Campos Alencar e Silva, de 61 anos. A tripulação contava ainda com as comissárias de bordo Debora Soper Avila, 28, e Rubia Silva de Lima, 41.

Os 58 passageiros tinham comprado as passagens pela Latam, que comercializava os voos da Voepass. Segundo as famílias, alguns deles não sabiam que viajariam pela empresa.

O voo transcorreu aparentemente sem problemas até pouco antes da queda. Três minutos antes do acidente, os pilotos avisaram a torre de comando, em São Paulo, que estavam no ponto ideal para descer rumo ao aeroporto em Guarulhos. Às 13h21, no entanto, o avião começa a perder altitude repentinamente. Um minuto depois, a aeronave caiu no condomínio de casas Residencial Recanto Florido, em Vinhedo, no interior paulista.

O acidente deixou 62 mortos, sendo 58 passageiros e 4 tripulantes. Não houve sobreviventes. Ninguém no solo se feriu.

Minidocumentário do Metrópoles reconta o caso

No ano passado, o Metrópoles mergulhou nas informações sobre o caso, entrevistou familiares, e apurou o que aconteceu desde o acidente até então. O resultado deste trabalho você pode acompanhar no minidocumentário “A história do voo 2283”, que relembra os principais pontos deste caso.

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