Uma subsidiária da Ambev, a CRBS, foi escolhida em janeiro deste ano pelo ministro Alexandre Padilha para ser a parceira oficial do Ministério da Saúde para o desenvolvimento e a implementação de ações de prevenção, educação e engajamento social sobre o consumo de álcool. O objetivo é prevenir os danos provocados pelo consumo de bebidas alcoólicas.
Seis meses após a assinatura, porém, nenhuma ação pública relacionada à iniciativa foi divulgada em redes sociais ou em outros canais institucionais, seja do ministério, seja da Ambev.
O período sem as campanhas previstas no acordo incluiu duas oportunidades simbólicas para esse tipo de comunicação: o Carnaval, realizado semanas após a assinatura, e a Copa do Mundo, evento marcado por forte publicidade e consumo de cerveja. Mesmo assim, não houve lançamento público de material, ação educativa ou campanha nacional resultante do acordo.

Conforme os termos do documento, cabe à CRBS S/A, subsidiária da Ambev responsável por gerenciar fábricas e a distribuição de produtos, liderar o Grupo Coordenador do acordo. O colegiado, formado por um representante de cada parte, tem a missão de “planejar, gerir, monitorar” e “decidir sobre as ações, atividades, planos de trabalho e cronograma” da iniciativa. Ao Ministério da Saúde, o texto atribui a participação no grupo, o fornecimento de conteúdo técnico e o monitoramento dos resultados.
Procurados na sexta-feira (31/7), nem Ministério da Saúde, nem Ambev souberam explicar quais ações foram produzidas ou eventualmente divulgadas a partir do acordo.
A pasta comandada por Alexandre Padilha informou apenas que esses acordos de cooperação técnica visam a difusão de campanhas e informações de utilidade pública em saúde, sem transferência de recursos. “Parte das ações será implementada nos próximos meses.”
“Dentro da proposta, outras campanhas do Ministério da Saúde, como a de prevenção no Carnaval, foram veiculadas nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e Salvador, em espaços selecionados pelo parceiro – como telões, trios elétricos e camarotes”, prosseguiu a pasta. O acordo de cooperação com a Ambev, contudo, trata especificamente sobre ações relacionadas ao consumo de álcool.
A Ambev, por sua vez, ressaltou que o acordo é público e que não há transferência de recursos financeiros. “A cooperação com o Ministério da Saúde segue esse compromisso e tem como objetivo ampliar o alcance de ações de redução do consumo nocivo de álcool atuando com base na prevenção. O Ministério da Saúde lidera as diretrizes do programa e define o conteúdo técnico”, afirmou a gigante de bebidas alcoólicas.
A Ambev é dona das marcas Skol, Brahma, Antarctica, Stella Artois, Corona, Spaten, Original, Budweiser, Colorado e Patagônia, entre outras.

Ambev trabalha contra aumento de carga tributária, proposta defendida pelo Ministério da Saúde para reduzir consumo abusivo de álcool
A cerveja responde por 93% do consumo total per capita de bebidas alcoólicas no Brasil. O Sindicato Nacional da Indústria da Cerveja (Sindicerv), que representa a Ambev, trabalha para que o governo não aumente a carga tributária do produto ao instituir o Imposto Seletivo, que entrará em vigor no ano que vem. Chamado de “imposto do pecado”, ele visa sobretaxar mercadorias que causam danos sociais, revertendo a arrecadação para investimentos em saúde.
A pasta de Padilha defende justamente o contrário da Ambev, como forma de turbinar a arrecadação e implementar medidas para coibir o consumo e tratar seus malefícios.
A proposta com as alíquotas será enviada ao Congresso no texto que regulamentará a reforma tributária. Em declarações recentes, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse que a tendência é manter os percentuais cobrados atualmente num primeiro momento, a partir do ano que vem.
A única peça institucional específica sobre os perigos do álcool localizada no acervo do Ministério da Saúde é o folder “Álcool no Brasil: consumo em números”. O arquivo foi produzido em abril de 2023, conforme seus metadados, e utiliza principalmente informações coletadas entre 2017 e 2021. O material permanece alojado em uma seção secundária de publicações da Secretaria de Vigilância em Saúde, sem destaque na página principal da pasta.
O documento, sem relação com o acordo com a Ambev, apresenta números expressivos: informa que 18,3% dos adultos consumiam álcool de forma abusiva, que duas pessoas morriam por hora por causas plenamente atribuíveis à substância e que o SUS gastava, em média, R$ 100 milhões por ano com internações diretamente relacionadas ao álcool.
Também aponta a presença de suspeita de consumo pelo agressor em 46% das violências interpessoais analisadas. Os dados, contudo, não foram transformados em nova campanha pública durante a vigência do acordo.


